terça-feira, 18 de junho de 2019

"Os Mortos não Morrem" em análise

O novo filme de Jim Jarmusch chega agora com uma bagagem composta por um certo hype, em grande parte devido ao realizador, mas também por ter um elenco pomposo, com muitos nomes conhecidos e interessantes. A trama transporta-nos para a pequena cidade de Centerville (que é um daqueles locais onde todos se conhecem e as notícias correm rápido) e mostra que algo estranho está a acontecer: os animais têm comportamentos fora do normal, a lua apresenta uma forma irregular e os períodos de dia e noite alteram-se. A explicação parece ser simples: tudo se deve a um desvio do eixo da Terra. O problema é que isso leva a perigosas consequências: os mortos erguem-se dos seus túmulos e começam a atacar os vivos. Ou seja, temos o cenário ideal de um apocalipse. 


Tendo um argumento simples que de modos idênticos já foi apresentado no grande ecrã (seja nos filmes de George A. Romero ou noutros de zombies ou séries como The Walking Dead), Os Mortos não Morrem destaca-se mais pelo modo como satiriza as sociedades atuais, mais concretamente o modo de vida nos Estados Unidos. O humor existente no filme funciona bem, pois é capaz de expor situações atuais de um modo cómico, como, por exemplo, a famosa ideia do “let’s make America great again” do Trump ou os luxos que as pessoas cometem. Para além de servir para rir, o humor aqui também leva o espectador a refletir. 

Outro aspeto interessante é o modo como o próprio filme sabe o que é: precisamente um filme. Ou seja, temos as personagens a saber que estão num filme, levando-as a comentar o roteiro ou as escolhas dos temas musicais. Este tipo de abordagem funciona sempre bem, pois é uma forma simples de levar ao riso, sendo capaz de ler a mente do público, pois apresentam comentários que, na maioria das vezes, batem certo com os nossos pensamentos. 


O elenco é composto, essencialmente, por atores que já trabalharam com Jim Jarmusch. Bill Murray, Adam Driver, Chloë Sevigny, Tilda Swinton, Steve Buscemi e ainda os músicos Iggy Pop e Tom Waits: todos eles já marcaram presença na carreira do realizador, mas desta vez parecem não ter tempo suficiente de antena. Para além destes, também temos a presença de Selena Gomez, Danny Glover, Caleb Landry Jones e Carol Kane. É muita gente para um filme com uma trama tão básica e o resultado é que muitas personagens não têm funções definidas ou apenas estão presentes só para aparecer, levando a um desperdício enorme dos atores. Enquanto Adam Driver e Bill Murray interpretam aqueles que podemos considerar os protagonistas do filme e ainda têm vários momentos interessantes, Tilda Swinton, por exemplo, parece estar ali só por ser a atriz interessante que é, pois o seu papel é confuso e perfeitamente desnecessário. Isto revela-se um tanto problemático, pois nota-se que existem vários sub-plots a acontecer e que têm desfechos demasiado apressados, dando apenas a sensação de que a pequena aldeia é mais complexa do que parecia a uma primeira vista. 

O resultado do filme é algo que tem a sua piada e que se vê bem a uma primeira vez, mas que não se entende bem quais são as intenções. No entanto, é de destacar que todo o filme parece (aliás, é mesmo) uma paródia, não só a filmes de zombies mas também à situação atual da América (e do mundo, talvez). Não esperem algo do estilo Shaun Of The Dead e, quem sabe, talvez até fiquem agradados com o resultado deste.

6/10

domingo, 16 de junho de 2019

"MIB: Força Internacional" em análise

Já se podia achar que a mítica série produzida por Spielberg já estivesse colocada a descansar nas prateleiras da Sony, visto ser uma que já tem uma trilogia satisfatória, mesmo que tenha os seus altos e baixos. Mas, parece que, do nada, aperceberam-se de que têm vários materiais a seu dispor (desde que não sejam originais, para variar da Sony) e a que podem dar uso, de maneira a poder fazer um bocadinho do dinheiro anual que as distribuidoras gostam de fazer, e agora temos, digamos, um “spin-off” que tenta ao máximo para conseguir ter o mesmo carisma que a dupla anterior, ou o charme/ambiente cómico que os filmes sabiam trazer, mas falha na maior parte das tentativas. 


Para maior dos meus espantos, o que eu achava que ia salvar o filme foi aquilo que mais me decepcionou, que foram ambos os protagonistas, interpretados por Chris Hemsworth e Tessa Thompson. Estes tiveram excelentes a contracenar um com o outro em Thor: Ragnarok (e algumas cenas de Avengers Endgame), mas aqui apenas parece faltar um bom bocado dessa química. Talvez não seja tanto culpa deles, mas mais direcionada ao argumento aborrecido que utilizava todos os pontos já utilizados na trilogia anterior, ou tornando-o extremamente previsível.

Gostava de falar de outros membros do elenco, mas a maior parte acaba por ser desperdiçado. Seja Liam Neeson ou Emma Thompson, estes não têm sequer tempo suficiente no ecrã para terem algum tipo de mérito ou interpretação merecedora de menção, o que é pena. 


A história pode ter ficado muito aquém, mas ao menos todo o lado técnico do filme, como efeitos e sonoridade, está top… certo? Nem por isso. Os efeitos especiais estão, na maior parte, feios, e a maneira como tudo é filmado acaba por piorar. Por exemplo, a cena, que até está no trailer, em que os protagonistas vão numa mota para o céu tem um dos piores CGI que vi este ano, sendo até pior que o filme que saiu a semana passada dos X-Men. A banda sonora, para além de trazer o tema da série original que o pessoal adora, não tem nada de extraordinário ou destacável, tornando-a quase que nula durante o filme. 

Sim, o filme pode ter alguns momentos em que pode fazer o expectador rir, ou dar uma simples risada interior, mas não é nada genial. Apenas tem alguns momentos em que Chris Hemsworth consegue improvisar enquanto Tessa tem a mesma cara sem expressão que tem a maior parte do filme, o que ocupa a maior parte da duração, e isso acaba por se tornar chato e aborrecido. Pelo menos a personagem de Pawny (ou Peãozito em português) já contém alguns momentos mais hilariantes, mas só aparece quase a meio do filme, e mesmo que esteja na última metade, o filme parece esquecer-se várias vezes que a personagem existe, tornando-a desnecessária para a maioria da narrativa.


O que torna isto mais estranho é o facto de o filme ser realizador por F. Gary Gray, que já realizou vários clássicos nos anos 90, e ainda o aclamado Straight Outra Compton que foi lançado mais recentemente. Ele já mostrou, mais do que uma vez, que é um realizador bastante competente e que sabe o que está a fazer. Mas desde o momento em que pisou o território hollywoodesco em 2017 com Fate of the Furious, parece que o seu olho para a coisa mudou, e agora é como se a sua carreira estivesse a cair aos poucos. Não sei se a culpa do filme estar assim é completamente dele ou não, mas espero que este volte a tomar rédeas e o rumo que este estava a seguir em 2015.

Para um filme que eu nem sequer antecipava, MIB foi uma desilusão ainda maior que X-Men. Desinteressante e apoquentado, acho que este acaba por ser a maior desilusão que irá sair durante o resto do verão, que “ainda agora” começou. Sendo este um filme sci-fi, onde há lugar para inúmeras originalidades, é apenas um filme preguiçoso e banal que só mostra desinteresse em querer algum tipo de inovação, transmitindo esse mesmo desinteresse ao espectador.

4/10