domingo, 21 de abril de 2019

"O Príncipe do Egipto" a rebobinar

Chocolates, chocolates e chocolates. Três palavras que são facilmente associadas à Páscoa, pois é certamente uma altura em que gostamos de abusar nos doces. Apesar de nós, aqui na Companhia, sermos alvo dessas guloseimas, eu fico feliz por uma outra razão não tão ortodoxa. Sendo uma época religiosa, aproveito-a (sempre) para rever, ou sozinho ou em família, um dos meus filmes de animação favoritos, que vejo a ser desvalorizado cada vez mais com o passar dos anos: O Príncipe do Egipto, o filme que a Disney nunca quis fazer, e que deve estar arrependida por isso até hoje – o que, por um lado me deixa feliz, pois acho que a Disney acabaria por tornar esta história algo que nunca foi: infantil.


Sim, há outros filmes nesta altura que gosto sempre de rever que tenham temas religiosos. Ben-Hur e Os Dez Mandamentos, ambos com Charlton Heston, são duas das minhas escolhas principais. Mas, visto que a minha infância foi passada à volta da VHS de um dos primeiros filmes da Dreamworks, eu facilmente me viro para ela, onde tenho sempre um maior impacto emocional desde o início ao fim da película. E não, não é apenas uma desculpa para fugir aos quase 240 minutos de duração que os outros dois filmes têm, pois eu não tenho dificuldade nenhuma em ultrapassá-las. Aliás, para muitos seria mais fácil escolherem ver o filme de Heston por ser o eterno clássico da história de Moisés, mas que não seja por isso que a adaptação animada da história seja esquecida. Ambos são filmes distintos, apesar de terem a mesma história.


Eu prefiro a versão dobrada por razões nostálgicas, mas isso não é motivo para não dar um grande valor ao elenco de voz de luxo que a Dreamworks arranjou para dobrar esta peça, que vai desde Val Kilmer a Ralph Fiennes, Michelle Pfeiffer, Sandra Bullock, Jeff Goldblum, e muitos outros, algo que, tendo em conta que era 1998, foi um feito muito grande e ambicioso para se conseguir, visto que ainda estávamos numa altura em que a animação ainda não era muito valorizada, sendo apenas direcionada para crianças. Mas, olhando para a época, reconhece-se que filmes como este e A Princesa Mononoke, entre outros, começaram a dar lugar a filmes de animação mais mainstream e adultos do que era habitual. 

E com filmes adultos, quero dizer que este filme, apesar de parecer ter um ar mais subtil e infantil para que as crianças pudessem compreender, conta uma importante história e é corajoso o suficiente para mostrar imagens questionáveis e perturbadoras. Muitas podem até ser passadas despercebidas: a épica abertura que mostra a dor e sofrimento do povo hebreu ao som de uma orquestra, enquanto, ao mesmo tempo, todos os bebés estão a ser assassinados; é um bom exemplo que passa despercebido, pois apenas se entende em certos momentos rápidos. Para nós, com uma idade mais adulta e conhecedora, sabemos o que se passa, e apanhamos um choque maior do que as pequenas crianças que estão atentas ao salvamento da personagem principal do filme. Outro momento assim diria ser a cena da praga final, a maior praga de todas, com o fim de tirar a vida a todos os primogénitos das famílias. Esta cena é bastante subtil e sabe que não pode mostrar diretamente o que é suposto, mas mostra com outros simbolismos e imagens assombrosas que, lá está, são mais facilmente entendidas por um alvo mais velho que o mais novo. 


Escusado seja dizer que esta é mais uma das brilhantes bandas sonoras já compostas por Hans Zimmer. Dando especial destaque ao tema “The Burning Bush”, Hans consegue facilmente mostrar, sonoramente, momentos de desespero e momentos de fé, que acompanham ou sorrateiramente ou estrondosamente as imagens que vemos. 
Os outros temas compostos e cantados são também um bom acompanhamento para a narrativa, mas nada no filme consegue igualar a sua abertura, que é muito possivelmente um dos melhores excertos de animação que a Dreamworks alguma vez conseguirá fazer. Nessa cena também mostram um excelente trabalho de edição sonora, que pode passar despercebido por muitos. Se tomarem alguma atenção, percebem que o som das vozes do povo sobe e baixa conforme a distância que estes têm da câmara, ou dos deuses, ou dos mais altos, algo que mostra alguma dedicação feita na pós-produção. 

Mas, com pena minha, o que vejo a degradar conforme os tempos é a animação CGI que usaram para completar alguns momentos flexíveis de animação. Mas todas as cenas animadas com apenas desenhos à mão estão ainda hoje soberbas e distintas de qualquer outro filme de animação, algo de se esperar tendo em conta que mais de 350 pessoas trabalharam arduamente para o conseguir. Utilizando um estilo semelhante àquele que associamos facilmente à cultura egípcia, a animação consegue capturar a essência da cultura, seja pela sua grande escala, demonstrando a vasta cultura antiga e os seus longos desertos, a coisas mais simples como apenas as simples expressões das personagens, que se conseguem alterar em frações de segundo, algo que provavelmente não conseguiria ser feito se fosse em live action


Tendo-o visto enquanto crescia, não tinha a mínima noção do impacto que o filme acabaria por ter em mim muitos, mas muitos, anos depois. Seja com as pequenas imagens que estão nos cantos e que são fáceis de passar despercebidas, ou mensagens que ficaram por perceber, mas que estavam presentes desde o início, o filme terá sempre algo de novo para se apanhar e compreender. O Príncipe do Egipto é, e com alguma razão, um dos melhores filmes de animação de sempre, e é por ser um filme que acaba por se tornar muito mais do que algo feito por um estúdio que apenas faz conteúdo direcionado para apelar a crianças mais novas, deixando pequenas sementes em cada um de nós, jovens ou graúdos, que acabam por crescer, e levam-no de geração em geração, da mesma maneira que esta intemporal história se espalhou pelo mundo.

Um pequeno aparte: o Príncipe do Egipto tem ainda uma prequela de que pouca gente ouviu falar, pois foi o único que a Dreamworks lançou diretamente para vídeo, chamado José: O Rei dos Sonhos. Apesar de não ter a mesma qualidade e proporções épicas que a história de Moisés, principalmente por ter um budget muito mais pequeno, é um filme que vale a pena ver, mesmo que seja apenas para ouvir o tema “Better Than I”, ou “Sabes Melhor Que Eu” por cá, pois deve ser o ponto mais alto do filme.
SOBRE O AUTOR

Apreciador, e colecionador, de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man de Sam Raimi.

10 comentários:

  1. Que tengas un buen día, hoy ha sido muy bueno leerte.
    FELIZ PASCUA.
    HAPPY EASTER.

    http://geeky-freeky.blogspot.com
    seempiternal.blogspot.com

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  2. obrigado :D
    eheheh isso da cama por acaso já sabia. aliás, sempre foi uma das maiores preocupações da minha mãe :D

    não conhecia, mas parece ser bem giro :D

    NEW OUTFIT POST | NEW MYSELF IS OUT NOW!!
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  3. Nunca vi o "Príncipe do Egipto". Deve ser muito interessante. Mas por altura da Páscoa também gosto de ver o Ben-Hur e Os Dez Mandamentos.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    Respostas
    1. São mesmo filmes excelentes para a época!
      Tenha uma boa semana!

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  4. Deve ser um filme lindo, não acredito que nunca assisti! Vou correr atrás. :)

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