domingo, 14 de abril de 2019

"Resident Evil 2" (2019), o antecipado remake

Mais vale tarde do que nunca, algo que se aplica não só a mim – visto que o jogo saiu em janeiro e só agora é que o consegui jogar e acabar – mas também à Capcom, que demorou mais de década e meia (a contar desde que o primeiro remake para a Gamecube saiu, não a contar desde 1998) para lançar o remake de uma das sequelas mais aclamadas de uma das séries mais bem citadas dentro do survival horror: Resident Evil 2.


Admito, desde já, que nunca segui a série por completo. Sim, sabia da sua existência, mas os jogos, visto sendo de terror e eu na altura ser ainda uma mera criança, passaram-me completamente ao lado. O primeiro contacto que tive com a série foi apenas um pequeno demo que tinha saído para a PS3 do Resident Evil 6, demo que achei muito bom – fãs de RE, não me matem já, estou a explicar apenas como me comecei a cruzar com a série, peço desculpa se foi com o pé esquerdo!! – mas nunca cheguei a comprar para jogar por mim mesmo – vêm? podem acalmar-se agora.

Pouco tempo depois (poucos dias antes de comprar a PS4), já andava a comprar os jogos – sim, comprar jogos antes de comprar a consola, quem nunca? – e deparei-me com um pack: Resident Evil Origins Collection, que inclui o Resident Evil HD Remaster e o Resident Evil 0 HD Remaster, e estava a um preço que parecia uma pechincha. Como estava com vontade de revisitar clássicos gaming, não vi razão para não aproveitar. E quando comecei a jogar… perdi-me por completo. Não sabia o que fazer, nem por onde me virar, o que presumo foi o que aconteceu a muitos na altura em que foi lançado. E não me coloquem a falar dos controlos que estão completamente datados, algo que me irrita imenso – e não irritou nada no caso do Silent Hill, por exemplo, com controlos um pouco semelhantes. Coloquei-o logo de lado e pus-me a jogar Alien: Isolation, algo de que não me arrependo. Mais um pequeno fast forward, e consegui finalmente deitar as mãos ao jogo que, de certa forma, reinventou a fórmula de RE: Resident Evil 7. E esse sim, joguei de uma ponta à outra e adorei, o que me deu vontade de voltar a pegar no jogo “original”, mas foi, novamente um fracasso – peço mil desculpas. Até aproveitei as grandes promoções da PSN e comprei as edições clássicas do RE 2 e Nemesis, visto que não os tinha, e mal lhes peguei à custa disso, estando agora a “apodrecer” na PS3… Até que a Capcom decide lançar o remake do Resident Evil 2 e, epá, que jogão!


Usando a mesma engine que o antecessor, os gráficos são de deixar água na boca – tive de usar esta pun depois daquela abertura, peço desculpa, outra vez. Todo o edifico da RPD, que outrora fora um museu, está incrivelmente detalhado e cheio de locais memoráveis. Memoráveis, não só porque somos obrigados a passar por eles milhares de vezes, seja para resolver puzzles ou fugir de zombies, mas também porque são todos facilmente distinguíveis uns dos outros. Facilmente memorizamos as suas localizações e sabemos onde é mais seguro entrar ou qual o trajeto mais rápido para chegar do ponto A ao B. Mas, presumo que isso já não seja novidade nenhuma, pois Resident Evil já foi outrora conhecido pelos seus ambientes e espaços claustrofóbicos.


Outros detalhes também favorecidos com a RE Engine são os dois protagonistas favoritos da série, Leon e Claire, que têm um look igual ao jogo original, mas com um toque mais moderno e seguindo um pouco o estilo facial que entradas mais recentes introduziram às personagens, e as criaturas, desde zombies completos ou desmembrados a Lickers inquietantes e sanguinários. Visto que agora o jogo utiliza uma câmara over the shoulder introduzida no Resident Evil 4, torna muito mais fácil aos jogadores novos cruzarem-se e dispararem seja contra o que for que estiver em seu redor, algo que fãs dos jogos originais não favoreceram ao início, pois a surpresa do não saber o que está ao virar da esquina foi completamente esquecida... Mas não na totalidade. A sensação de surpresa continua presente no jogo. A maneira como o edifício está construído e iluminado é, por vezes, um problema, pois torna-se muito escuro em certos corredores o que torna difícil de ver mesmo com a lanterna, impedindo de perceber se algo se está a aproximar. E aqui aqueles que jogarem com headphones têm uma certa vantagem, pois há nas definições uma opção para colocar um som ambiente 3D, o que torna a jogabilidade mais imersiva permitindo distinguir de onde vêm as criaturas, tornando as decisões de quais caminhos são mais fáceis de seguir. Denoto que nem todos os zombies fazem barulho, continuando com sustos nas suas mangas, principalmente os Lickers.

A vantagem desta funcionalidade é também útil a certa altura da campanha: quando o impiedoso Tyrant Mr. X aparece para apagar qualquer vestígio da nossa existência. Tê-lo a perseguir tanto a Claire como Leon durante parte do jogo torna a experiência completamente diferente daquela a que já nos estávamos a habituar, pois agora é preciso ter todo o cuidado necessário e saber por completo por onde se pode ou não fugir, pois não há como lutar com ele senão fugir – ou tirar-lhe o chapéu da cabeça, por diversão. É uma experiência que já não se sentia desde Alien: Isolation, pois ele é uma força que nos segue seja para onde for, ou está já no local onde precisamos de ir e serve como barreira protetora. E, assim que ele nos começa a perseguir, uma espécie de tema específico para ele começa a tocar e torna a perseguição extremamente palpitante e cheia de tensão.


Os puzzles, algo que me parece constante na série, continuam muito bem presentes neste, e a dificuldade varia tanto pela exploração e leitura devida da maior parte dos ficheiros encontrados na esquadra e pela nossa própria burrice. Pode haver puzzles tão simples quanto olhar para uma ou duas secretárias ao lado de um cadeado e ter lá as respostas ou pistas para resolver, como puzzles que demoram quase um terço do jogo, ou seja, alguma paciência, para que possam ser resolvidos, o que é normal pois a curiosidade para saber o que está lá dentro é sempre grande. Muitos dos cadeados valem a pena abrir, pois podem conter materiais que podem ser usados para combinar com as armas ou para criar munições, mas muitas delas acabam por ser deixavas na caixa de armazenamento. Por isso é preciso ter sempre atenção ao que precisam ou não, o que poupar ou gastar, pois nunca se sabe o que pode ser preciso usar no futuro. 


Para os indecisos que não sabem qual campanha escolher, entre Leon e Claire, eu penso que é um bocado ela por ela no que diz respeito a dificuldade. Tendo começado o jogo com Leon, eu achei a campanha um bocado complicada. Complicada no mesmo sentido que o Resident Evil 7 foi complicado: implica muita exploração e controlo de material no jogo para se saber o que fazer ou resolver. E, após concluir a campanha de Leon, fui imediatamente jogar com a Claire, pois tinha ouvido rumores de que a campanha dela era mais complicada e que tinha mais escassez de munições ao início. Eu achei o contrário, provavelmente porque comecei com o Leon e já sabia mais de metade das coisas que precisava de fazer para completar a campanha, apesar de esta ser diferente e ter alguns locais inexplorados na campanha de Leon. Também achei que as armas dela eram muito mais poder de fogo que as de Leon, matando, por exemplo, um Licker com apenas um tiro de uma granada, tanto de fogo como de ácido. A única desvantagem que vi na Claire em comparação a Leon é que a maior parte das suas armas e munições acabam por ocupar a maior parte do inventário.

A minha conclusão: podem tanto começar com o Leon como podem começar com a Claire, pois as histórias e trajetos são ligeiramente diferentes um do outro, muito menos a dificuldade. Ambas têm os seus desafios e problemas, uns mais difíceis que outros, mas assim que acabarem uma e começarem outra, esses problemas tornam-se incrivelmente fáceis de resolver e têm mais noção do que podem fazer, tornando a campanha muito mais rápida, cortando-a a metade. 


Posso não ser um grande fã da mecânica original a que os fãs de longa data de Resident Evil já estão habituados, mas estes últimos têm definitivamente mais para contar – no meu caso – que os que já me tentei aventurar e jogar. Tendo já adorado o Resident Evil 7, penso que este o supera. Pode não conter um visual mais creepy e amarelado, como que se fosse todo vomitado, horrivelmente nojento, mas tem duas personagens mais facilmente memoráveis, que têm momentos de paz, tranquilidade, e até tempo para mostrar algum afeto e carinho pelo meio de toda a confusão e corrida para a sobrevivência. Desde os twists ao infame Tyrant a perseguir-nos diabolicamente até nos locais que achamos mais seguros, ou ambas as desafiadoras boss fights finais, Resident Evil 2 é certamente mais uma grande adição ao género de survival horror, que a própria franquia criou, dando a vantagem para as novas audiências de poderem experimentar o terror que foi jogá-lo em 1998, trazendo também essa velha audiência de volta para mais uma merecedora viagem nostálgica pela esquadra de Raccoon City

9/10
(jogo passado na Playstation 4)
SOBRE O AUTOR

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

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