terça-feira, 2 de abril de 2019

Retrospectiva de Satoshi Kon

Perfect Blue, Millennium Actress, Tokyo Godfathers e Paprika são os nomes dos quatro únicos filmes que Satoshi Kon realizou no auge da sua curta carreira (falecendo em 2010), e são filmes que normalmente não alarmam ninguém a não ser aqueles que tanto adoram filmes anime ou aqueles ávidos cinéfilos que pesquisaram “onde poderá Christopher Nolan ter ido buscar influências para o seu filme Inception?”, ou “filmes anime hitchcockianos”, ou apenas “quais os melhores filmes anime de sempre?”, para encontrarem estes títulos e mergulharem numa cinematografia psicótica, emocionante e psicadélica como a de Satoshi Kon.


Também é normal que, sabendo o quão escasso o mercado desse género é em Portugal, estes filmes passem por cima das cabeças de muita gente, apesar de que, em tempos, alguns dos seus filmes já tiveram fama no festival português Fantasporto, e dois ou três filmes já terem sido lançados em home video, para nunca mais serem vistos nos catálogos das distribuidoras nacionais (tanto Lusomundo – sim, a velha Lusomundo - como Sony, apesar de este ultimo ainda ter lançamentos no estrangeiro para os seus dois últimos filmes com legendas em português). 

Por isso, para quem é fã e soube que haveria uma retrospetiva em homenagem ao realizador Satoshi Kon no festival da Monstra deste ano, onde eu me incluo, começou-se logo a fazer uma espécie de festa subconsciente semelhante àquela vista em Paprika, com uma parada gigante animalesca e infantil em sintonia, não só porque haveria a possibilidade de ver quatro dos melhores filmes anime alguma vez feitos na tela grande, mesmo depois de já ter visto repetidamente em casa, como sabia que a retrospetiva iria dar a conhecer este realizador a quem nunca tinha ouvido falar do mesmo, e visto que todas as sessões da retrospetiva estavam de basicamente sala cheia é porque esta teve um merecedor sucesso.


Perfect Blue, o seu primeiro filme, com um prémio do Festival Fantasporto, é um dos seus mais hipnóticos. Com animação feita pela Madhouse (tal como os seus outros filmes), já se pode esperar visuais de alta qualidade. Tem um look semelhante a um sonho, pois a maior parte dos cenários são bastante brancos, e penso que isso ajuda o espectador e perceber onde ou como se está a passar a narrativa: se o que está a acontecer é real ou não. É um thriller que põe em causa a sanidade da nossa protagonista, e, ao mesmo tempo, a do espectador, estando este obrigado a estar de olhos bem abertos para perceber e apanhar todos os detalhes que levam à progressão da narrativa, para que não seja enganado – mas, infelizmente, é enganado na mesma, e o filme fá-lo brilhantemente nas suas revelações, como que um estalar de dedos para avisar que “já passou, relaxa… ou não”, tornando-o bastante hitchcockiano na sua brilhante execução. A banda sonora é também muito catchy, o que é normal tendo em conta que a protagonista começa o filme como uma cantora pop, mas as músicas não são catchy ao ponto de se tornarem irritantes, sendo até agradáveis de se ouvir. 

Para aqueles que gostaram do filme Black Swan (2010) de Darren Aronofsky, aqui terão algo semelhante a nível de história, por isso é dos filmes que mais recomendo ver da filmografia do realizador, mas não aquele que acho aconselhável ver em primeiro, pois é um dos seus mais complexos e chocantes.


Millennium Actress – A Chave da Vida – assim chamado cá em Portugal durante o seu lançamento em DVD – é o seu segundo filme, e é um que conta a sua história de uma maneira bastante diferente da normal. É contado por uma velha atriz que, à medida que a conta, vemos através dos olhos das personagens que interpretou ao longo da sua vida, - e, para os atentos, serão premiados com várias referencias a filme das décadas de 40 a 60 do cinema japonês -, e nós, os espetadores, estamos lá para a ajudar a levantar e a continuar sempre que possível, ou para questionar a lógica do que se está a passar – sim, há duas personagens que são como nós, espetadores, que seguem a atriz de um lado para o outro enquanto descobrem a essência da vida dela, e o mistério por detrás da simples chave que lhe é entregue no inicio do filme. É, certamente, um filme bastante mais soft em comparação com o seu anterior, tendo momentos que deixaram muitos a rir e outros sem perceber o motivo da piada, e cenas muito emocionantes que podem deixar qualquer um em lágrimas, mas é a sua originalidade que, de facto, torna o filme muito memorável e não uma espécie de “bio pic fictícia e genérica” que já estamos habituados a ver.


Em Tokyo Godfathers – Os Padrinhos de Tóquio, Satoshi continua a fazer algo mais leve, apesar de ser tematicamente mais duro que o Actress. Tokyo Godfathers segue três sem-abrigo que, numa véspera de Natal, encontram um recém-nascido no meio da rua, e enquanto um decide ficar com ele pois vê-lo como um milagre de Natal, os outros tentam procurar os verdadeiros pais da criança, sempre acompanhados ao som da de Beethoven. Apesar de uma trama aparentemente séria, abrangendo temas desde a homossexualidade e a maneira como os sem-abrigo são vistos pela comunidade japonesa, o filme arranja maneira de contornar a seriedade das situações e torna-os humorísticos, tanto verbalmente como visualmente – pelas expressões faciais extravagantes de algumas personagens ou apenas com pequenos momentos que acontecem no background - mas não ao ponto de ridículo, é um humor humano e natural e nada forçado, sendo apenas utilizado para nos identificarmos mais com os protagonistas, que por si já têm histórias trágicas. É um filme que, mesmo contendo aquela mensagem típica de Natal em relação aos milagres que acontecem pura e simplesmente por ser essa época, pode ser visto e revisto noutra altura qualquer do ano, tendo o mesmo efeito emocional.


E, finalmente, chegamos ao filme pelo qual este realizador ficou mundialmente conhecido. Paprika, o filme que muitos dizem ser a principal fonte de inspiração para o aclamado filme de Christopher Nolan, Inception, apesar de este nunca ter confirmado tal inspiração, ou negado. É o último filme que Satoshi Kon teve a oportunidade de fazer, lançado logo depois de este concluir a série Paranoia Agent, que aconselho vivamente a ver caso queiram completar a bibliografia deste maníaco (no melhor dos sentidos). É um filme visualmente desigual, sendo ainda mais subconsciente e psicadélico que Perfect Blue, e, contrariamente ao mesmo, menos obscuro e aterrorizante, e mais colorido e vibrante. É um filme, no entanto, muito confuso, e pede a completa atenção do espectador, que, se não o fizer, perder-se-á por completo no mundo encantado de Paprika, por isso nem me darei ao trabalho de tentar explicar do que se trata o filme: experienciem vocês mesmos sem saber do que se trata, pois a história até envolve desvendar um mistério. Paprika é, sem dúvida, visualmente, um dos filmes mais originais que alguma vez vi, e só por isso o vale a pena ver e a sua banda sonora também é bastante energética, o que ajuda a deixar-nos levar pela viagem psicadélica e surrealista dos protagonistas.


A ideia de fazer uma retrospectiva por parte da MONSTRA dedicada a este realizador foi uma ideia de génio, pois foi assim possível apreciar o trabalho multifacetado e incrível que este realizador nos ofereceu na sua pequena mas inspiradora carreira, permitindo que este chegue às nossas salas, ficando essas cheias de espectadores nas quatro sessões, desde novos a velhos, curiosos ou já conhecedores, mostrando o como este realizador fez um excelente trabalho que continuará a influenciar gerações por vir.
SOBRE O AUTOR

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

14 comentários:

  1. Ainda não conhecia, parece ser ótimo esses filmes anime!

    O Planeta Alternativo

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    1. Acredita que valem bem a pena ver, nem que seja uma vez (ou várias, se quiseres analisar detalhadamente filmes como Perfect Blue ou Paprika, que merecem imensa atenção)!

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  2. O mundo anime é mesmo algo que me passa ao lado, ao longo da vida devo ter visto só 2 ou 3 filmes, se tanto!
    --
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    1. Se quiseres começar a ver, aconselho-te a ver algo do género de A Viagem de Chihiro ou O Castelo Andante... De certo que desses vais gostar!

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  3. Não sou grande fã deste género de filme.
    Mas fiquei curiosa com o filme de Christopher Nolan.
    Beijinho

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  4. obrigado :D

    confesso que não sou grande apreciador do género :D

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    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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    1. Há sempre espaço para qualquer um no género anime. Normalmente apenas dizem "ah, não gosto porque são coisas de japoneses, são violentos e estúpidos e bla bla bla", mas muitos enganam-se! Aconselho a ver nem que seja o Tokyo Godfathers deste realizador, pois é facilmente adorado, isto se tiveres algum interesse em ver, claro!

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  5. Oie Diogo =)

    Não conhecia esse anime, mas achei a premissa dele bem interessante. Vou procurar para assistir.

    Beijos;***
    Ariane Reis | Blog My Dear Library.


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    1. São vários animes, um para cada gosto diferente! Espero que gostes!

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  6. Confesso que pelo que li, não fiquei fã!
    Mas é bom existir iniciativas diferentes destes nichos cinematográficos :)

    https://aritateixeira.blogspot.com/

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