sábado, 25 de maio de 2019

"A Guerra dos Tronos": desfecho apressado ou planeado?

Já passou uma semana desde que o tema composto por Ramin Djawadi tocou pela última vez. Oito anos e oito temporadas depois do seu início, A Guerra dos Tronos acabou e nem todos os que entraram no jogo pela conquista do trono conseguiram sobreviver para partir a roda. Passou-se uma semana e provavelmente estão a pensar que este artigo já vem tarde; antes pelo contrário, chegou apenas agora pois sei que só assim seria capaz de o escrever sem grandes remorsos. É verdade que o episódio final não alcançou as minhas expectativas e ficou muito longe de o fazer. Considero que foi um dos episódios mais fracos da série, mas já tocarei nesse ponto. Neste artigo vou apenas fazer uma breve reflexão sobre tudo o que aconteceu, mas não apenas no último episódio, pois penso que é essencial falar também no penúltimo, que estabelece uma ponte direta difícil de ultrapassar. Aviso que, naturalmente, tudo o que se segue tem spoilers.


A oitava temporada foi a mais curta da série, sendo composta por apenas seis episódios. Ainda que alguns tenham cerca de oitenta minutos, não apresentam o suficiente para que deixemos de ter a ideia de que tudo foi apressado ao máximo – sensação essa que, pessoalmente, já andava a sentir desde a temporada passada. David Benioff e D. B. Weiss sentiram que não podiam prolongar a história por mais tempo e optaram por uma temporada rápida, na qual tudo corre com uma enorme fluidez, mas deixando uma ponta solta aqui e acolá. 

Depois da grande batalha contra os mortos, que teve o seu momento épico quando o Rei da Noite foi morto por Arya Stark, a grande questão que pairou no ar foi: a série andou durante oito temporadas a dar ênfase a uma personagem que depois morre de uma maneira tão simples? E, ainda que tenha gostado desse episódio em particular (apesar de ter sido extremamente escuro), isto foi apenas o início da resolução de vários problemas num modo simplificado. 


Chegou, então, a vez de mais um grande momento chegar ao ecrã; um que tinha sido prometido há muito tempo e que era aguardado com uma enorme curiosidade: o confronto entre Daenerys Targaryen e Cersei Lannister. Claro está, o início foi sobressaltado, com Cersei a capturar a fiel amiga de Daenerys, Missandei, e a decapitá-la em frente à “mãe dos dragões”. Mas o pior estava para vir e teve os seus indícios neste mesmo episódio. 

Chega, então, “The Bells”, o penúltimo episódio, no qual primeiramente vemos Daenerys a condenar Varys, a “aranha”, por traição, numa sequência que até foi bem realizada e que levou a uma morte que fez bastante sentido. No entanto, a frieza de Daenerys já se andava a destacar demasiado e atingiu finalmente o seu ápice, levando-nos a conhecer o seu lado de “rainha louca” (tal como o seu pai). O sonho pelo poder subiu-lhe por completo à cabeça e, de facto, já há muito tempo que esta apenas queria o trono. Mas ainda que os sinais estivessem presentes (talvez já desde a morte do seu irmão Viserys), o modo como este seu lado começou finalmente a ser mais explorado foi bruto e fez com que a personagem perdesse um pouco a sua credibilidade. É depois quando esta decide queimar a cidade de King’s Landing que temos a mudança total da sua personalidade e Daenerys torna-se em tudo aquilo que não queria ser, alguém pior que Cersei, uma verdadeira “rainha das cinzas”. 


Por sua vez, como consequência dos atos de vingança de Daenerys, King’s Landing começa a cair aos pedaços, levando a um dos desfechos mais infelizes da série. Ora, de facto o confronto entre Daenerys e Cersei tinha sido prometido, mas depois pouco disso vemos. 

A morte de Cersei e de Jaime deixa-me com pensamentos dúbios. Se por um lado acho que foi um desfecho infeliz para duas personagens que tiveram um enorme crescimento ao longo das temporadas – com destaque para Jaime, que parecia ter mudado por completo, tornando-se numa das personagens mais acarinhadas, até porque ninguém o conseguia realmente odiar depois do que este fez a Bran -, por outro sinto que foi um desfecho emocional e belo, especialmente depois de ter visto a cena de Tyrion a remover os tijolos de cima dos irmãos, que se encontram abraçados tal como vieram ao mundo. Não se cumpriu a profecia de que Cersei seria morta pelo irmão mais novo (a não ser que a entendamos como culpa de Tyrion por ter estado do lado da mulher que causou a sua morte), mas cumpriu-se o desejo de Jaime de morrer ao lado da mulher que ama. 


Já a morte de Daenerys, pareceu-me ser completamente anti-climática, dado o longo percurso da personagem, mas foi simbólica, tendo o cuidado de mostrar que esta nunca conseguiu realmente sentar-se no trono, apesar dos seus grandes esforços. Depois da sua morte, tivemos mais um momento que achei interessante: quando Drogon queima o trono, ou como forma de castigar os homens de modo a que estes nunca mais se voltem a sentar nele, ou, creio eu ser uma alternativa mais poética, por reconhecer que a sua “mamã” tinha ido longe demais por apenas querer governar nele sentada. 

A resolução da morte de Daenerys levou, claro, Jon Snow e Tyrion a serem considerados traidores. Então, deu-se a reunião dos senhores e senhoras mais poderosos dos Sete Reinos, de modo a que se chegasse a um consenso acerca do destino desses dois. A meu ver, esta reunião foi um tanto estranha, pois começou com um tom de sarcasmo (por parte de Edmure Tully) que não encaixou bem e foi também demasiado pacífica, tendo em conta que todos os presentes lutaram durante anos pelo poder e decidiram quem seria o novo rei com demasiada facilidade. 


Admito que a escolha de Bran para rei dos Seis Reinos (pois o Norte continua independente, por escolha de Sansa Stark, a nova “Rainha do Norte”) me surpreendeu naquele momento, pois penso que a personagem nunca teve tanto impacto quanto devia. Veja-se, por exemplo, aquando da morte de Hodor: todos falaram de Hodor, mas nunca ninguém falou de Bran ou de tudo o que lhe tinha acontecido até aí. Bran sempre foi visto como o rapaz que caiu da janela, apesar de todos os seus poderes. E depois, repare-se, foi Bran que insistiu com Sam para que se contasse a verdade a Jon Snow. Mas para quê? Para que serviu Jon ser, afinal, um Targaryen se depois no final foi enviado para o sítio dos bastardos? Por outro lado, é de notar a presença de um corvo no cartaz da primeira temporada da série, apoiado no trono ao lado de Ned Stark – será, então, que o final de Bran já estava planeado desde início? 

No final, temos o “pacote dos Stark” a sobreviver ao jogo, com Bran e Sansa a governar, Arya a partir em busca do desconhecido (que me parece ter sido sempre o seu destino) e Jon Snow a partir novamente para a Patrulha da Noite, apenas para depois ultrapassar a muralha para as terras dos Selvagens.


Penso que o final da série não foi o agridoce que nos foi prometido. A aceleração dos acontecimentos não nos deu tempo para digerir tudo o que se estava a passar. Ainda assim, trouxe alguns desfechos que, depois de alguma reflexão, conseguem tornar-se interessantes. Talvez o motivo pelo qual todos estejamos tão insatisfeitos seja porque as coisas não correram como queríamos e isso acaba por ter a sua quantia de surpresa.
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

8 comentários:

  1. Olá, Joana! Parabéns pela excelente postagem ("Guerra dos Tronos acabou e nem todos os que entraram no jogo pela conquista do trono conseguiram sobreviver para partir a roda.")
    Um ótimo domingo, Joana. Beijo. Pedro

    ResponderEliminar
  2. Excelente publicação, Joana. Basicamente tenho a mesma opinião do que tu em quase tudo.
    Se a 7º temporada foi acelerada, esta estão meu Deus e acho que esse foi o maior problema, porque lá está, não nos deu tempo de digerir tudo. Quanto ao final, à primeira vista há coisas que não me fazem sentido, mas depois até acabo por perceber que até tinha de ser assim. Por exemplo, a morte da Cersei que tu enumeras, quando vi o episódio fiquei do tipo "só isto?", mas tendo em conta o último, a reação do Tyrion faz um certo sentido.
    No entanto, é óbvio que há algumas pontas soltas, mesmo em relação ao Bran e então o facto de o Jon ser Targaryen e não terem explorado isso? Foi como se ele continuasse a ser o Snow.
    Só sei que acabou e mesmo não tendo gostado tudo, é uma das melhores séries de sempre e da qual vou ter saudades :p
    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, Mary!
      O facto de esta última temporada ter sido fraquinha não apaga os episódios excelentes que tivemos nas outras. Continua a ser uma grande série e será sempre uma das minhas favoritas! 😛

      Eliminar
  3. Como a essa guerra não assisti,
    penso que a não devo comentar
    por desconhecer aquilo que não vi
    mas, para bom domingo lhe desejar
    nada me impede de passar por aqui!

    Belo texto, gostei de ler, Joana Grilo, tenha uma boa tarde!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um excelente domingo para si também, caro Eduardo! E obrigada por mais uma visita! 😄

      Eliminar
  4. Tenho visto/ouvido alguns comentários no sentido de ter sido um desfecho apressado. Como não acompanho a série, não tenho qualquer ponto de referência. Mas adorei o teu ponto de vista, muito bem fundamentado!

    ResponderEliminar