quarta-feira, 5 de junho de 2019

"X-Men" do início à Fénix

Foram muitos os anos que passaram e a Marvel, simplesmente, não tinha nenhuma identidade no mundo cinematográfico. Já se tinha visto o homem (ou semelhante) a voar com uma capa e cuecas vermelhas, e já tínhamos ficado com medo de nos cruzarmos com morcegos na rua durante a noite (ou com vontade de rir incontrolavelmente), mas mal se via teias de aranha ou escudos patriotas. Houve tentativas para tal, havendo um Homem-Aranha japonês e um pequeno filme do Capitão América – até o Quarteto Fantástico teve o seu primeiro filme na mesma altura – mas todos tinham o mesmo desfecho que qualquer outro titulo da Marvel: eram medíocres ou horríveis até mais não. Assim do nada, em 2000, salta um “pequeno” nome ao ouvido das pessoas: X-Men, um novo filme que adaptava uma das mais amadas equipas de super heróis da banda desenhada de sempre. Claro que, tendo em conta o histórico da Marvel, ninguém esperava que isso fosse apenas o início do que viriam a ser duas décadas de filmes da Marvel, onde a escala de qualidade aumenta filme após filme, seja X-Men ou não. E isso sim, é um dos maiores louvores que se pode dar a este franchise que já dura desde então, apesar de ter tido imensos altos e baixos desde que começou, sendo isso que estou aqui a fazer agora, a recapitular tudo o que se passou de maneira a poupar-vos tempo (de não verem os filmes horríveis) e prepararem-se para o último filme do universo X-Men produzido pela 20th Century Fox, pois estes, presume-se, teriam um reboot na sua nova casa, a Disney



X-Men (2000) 

Foi aqui onde, basicamente, a era da Marvel começou. O filme começa com imagens do Holocausto, onde vemos uma criança a ser afastada da sua família, sendo que esta começa a demonstrar os seus poderes magnéticos. E, logo a seguir, nos “dias de hoje” seguimos para a perspetiva de Rogue, uma adolescente que acaba de descobrir os seus poderes: não pode ser tocada, fisicamente, por ninguém, senão rouba-lhes a vitalidade. E a partir daí surge a questão: devem estes seres… mutantes… ter o mesmo direito que as pessoas normais, humanas? É uma narrativa esperta, que segue os fundamentos em que as bandas desenhadas de X-Men sempre se basearam, e os filmes sempre abordaram após esta introdução. Também nos dão a conhecer as facetas mais adoradas dos mutantes: Jean Grey, Storm, Cyclops, Sabretooth, Toad, e aqueles que toda a gente adora, pois foram as personagens que tiveram mais desenvolvimento ao longo da série, Magneto, Charles Xavier, e Wolverine. 

O filme, infelizmente, não envelheceu bem e já começa a sofrer imenso com o seu pacing e algum mau, e notável, CGI, sendo que as pessoas que o vejam recentemente e ainda não o tinham visto antes tenham mais problemas em ver de uma ponta a outra, mas vale a pena, mesmo assim, para ter uma ideia de onde tudo arrancou. E, a partir daí, tudo se torna mais fácil (de ver).


X2 (2003) 

X2 começa com logo com um bang, mostrando mais confiança com o material que está a ser usado, numa das melhores cenas que a série tem até hoje, que é Nightcrawler a infiltrar-se na Casa Branca, numa tentativa de matar o Presidente, visto que o mundo continua a achar os mutantes uma ameaça para a raça pura humana. A partir daí, infelizmente, o filme não faz nada para tentar superar esse momento. É como se quisessem apenas usar o fator “wow” o mais rápido possível para depois não terem mais nada que sobressaia tanto. Mas que não seja por isso que X2 seja um recuo em relação ao filme anterior, pois o pacing, a história, as lutas e os efeitos especiais tiveram um grande melhoramento. Este acaba por ser mais pessoal e direto a Wolverine que aos X-Men, mostrando as suas origens, talvez por terem percebido que era a única personagem que, no fim do primeiro, era a que as pessoas tinham mais curiosidade em ver no ecrã que qualquer outro membro da equipa, mas acaba por preparar as personagens para o confronto final que estava por vir a seguir, e que às vezes, com o sacrifício de Jean, é preciso deixar alguém para trás de maneira a ultrapassar outros desafios.


X-Men: The Last Stand (2006)

A partir daqui já se começa a ver o decline da coisa… não só da série, mas provavelmente também dos realizadores da série até agora (há quem vá entender esta piada). Após Bryan Singer sair para realizar o Superman Returns para a Warner, Brett Ratner subiu a bordo para realizar este terceiro filme - filme esse que foi o primeiro, pelos fãs tanto da banda desenhada como dos filmes, que começou a trazer controvérsias, como juntar duas das melhores storylines dos X-Men numa simples narrativa, sendo ambas imensamente importantes para as personagens, merecendo, cada uma, apenas uma adaptação fiel por filme e não uma amálgama que não sabe em que história se focar. Para além do icónico momento que virou meme na internet (para quem não sabe, perguntem ao Juggernaut), e um incrível momento com Magneto perto da batalha final, e ainda um casting perfeito para a personagem de Beast, o filme mal tem uma ponta por onde se pegar, mesmo sendo histericamente divertido em partes de se ver, tornando-os um dos - mas não o, pois esse vem já já a seguir - piores filmes da série. 


X-Men Origins: Wolverine (2009)

Falando em filmes que muita gente gostaria de esquecer… principalmente Ryan Reynolds. Origins é, para além de considerado o pior da série, também um dos piores filmes de super-heróis de sempre. Talvez seja um bocado exagerado chamar-lhe isso, mas somos capazes de ver o porquê de tal, pois são capazes de tornar a história de Logan, apesar de fiel nalguns momentos, tonta, e afeta ainda várias personagens que já tinham sido introduzidas em filmes anteriores ou outras que estavam por vir (Deadpool, conhecem?). E não é só na história que falham, pois o CGI é tão mau, principalmente nas garras de Wolverine, que faz parecer algo lançado em 2000. Honestamente, se o filme se tivesse focado apenas naquilo que nos foi mostrado na introdução e créditos de abertura, o filme seria mil vezes mais interessante do que aquilo que acabou por vir. Daí ninguém falar sobre isto, daí ninguém se lembrar sequer da sua existência. Daí a Fox ter desistido por completo da ideia de fazer um filme de origem por personagem, daí terem optado por…


X-Men: First Class (2011) 

Isto foi como se fosse, literalmente, um voltar à estaca 0, voltar às origens de “tudo” o que conhecemos de X-Men, contando-nos as origens dos principais mentores da escola dos mutantes, Charles Xavier e Eric Lhensherr, e é onde o filme, certamente, mais brilha, pois as interpretações de James McAvoy e Michael Fassbender neste filme são das melhores que a franchise teve até à data. Tendo em conta o enorme decline em qualidade que a série já estava a ter, este acabou por ser uma grande surpresa para os fãs, e até para a própria crítica. Mas que mais se podia esperar de um realizador como Matthew Vaughn, que já provou mais do que uma vez que este estilo de filmes é a sua praia? É um filme que facilmente consigo aconselhar a ver, mesmo que salte à frente todos os que saíram até esta altura, pois não segue a influência dos mesmos, sendo uma prequela. Foi também aqui onde uma desconhecida atriz, agora incrivelmente irritante, chamada Jennifer Lawrence, começou a aparecer mais no estrelato, tal como Nicholas Hoult.


The Wolverine (2013)

Agora voltamos às sequelas. Este continua a história de Logan, mas logo após os acontecimentos de X-Men 3. Neste filme vemos a personagem a tentar encontrar-se outra vez, após perder a pessoa que amava nos seus braços, em terras japonesas, pois um velho soldado japonês, agora milionário, que Wolverine tinha salvado na guerra, conseguiu encontrar uma maneira de o livrar da sua maldição de metal. É um filme bastante diferente do que se podia esperar de X-Men, não só por ser milhares de vezes melhor que o Origins, mas também por começar a utilizar a personagem como a besta violenta pelo qual era conhecida na banda desenhada, mas não ao ponto de tornar o filme numa enorme chacina. É um filme que deixa o espectador preparado para o capítulo final da trilogia da personagem, mas deixemos isso para o fim. O que há ainda de tirar do filme é que o Logan perde as garras de adamantium no final, só para depois lhe voltarem a ser devolvidas por Magneto, numa cena eliminada em…


X-Men: Days of Future Past (2014) 

Aqui Bryan Singer volta a pegar na sua criança, e é a partir daqui que a narrativa/timeline dos filmes se vai tornar uma confusa barafunda, deixando a questionar no fim o que é que é canon ou não nos filmes anteriores, mas pressupõe-se logo que nada o é (à excepção de First Class, pois este, narrativamente, continua a servir como sequela a esse filme). O mundo foi tomado por completo por Sentinels, que já exterminaram a maior parte dos mutantes e, também, dos humanos, pois estes conseguiam perceber quais iam acabar por ter descendentes mutantes, deixando a espécie à beira da extinção. A única maneira de salvar o mundo é voltando atrás no tempo, e só Logan, graças às sua regeneração, o pode fazer, pois quando Kitty Pride o faz, a pessoa que é projetada para o passado começa a morrer aos bocados, piorando conforme a distância entre o passado e o futuro. Este é o exemplo do qual o X3 devia ter tomado, focando-se apenas numa das melhores histórias já contadas dos X-Men, invés de condensar várias num só argumento. É ainda uma das entradas mais maduras e emocionais da série, especialmente tendo em conta a altura em que a narrativa se passa e o que a maior parte das personagens já passaram, principalmente Charles Xavier, que mal parece ter vontade de viver. Com o elenco de luxo, dando todos interpretações excelentes que já andavam a faltar há algum tempo, e ainda um dos melhores momentos desde o X2, desta vez com Quicksilver, Days of Future Past é ainda hoje visto como uma das melhores entradas na série, como também um dos melhores filmes de super heróis de sempre. 


X-Men: Apocalypse (2016)

A série estava a ir demasiado bem para seu gosto, e Apocalypse provou isso, pois aqui sofreu um pequeno entrave. O filme não é mau de todo, não é nada comparável a X3 ou Origins, mas o filme tinha muito por que viver, especialmente tendo em conta a personagem vilã que iam utilizar. Continuando a história de Days of Future Past, na timeline do passado, vemos o Deus dos Mutantes, En Sabah Nur, a acordar de um sono de milhares de anos, para descobrir que a sua raça não era a dominante, sendo a dominada. E é, infelizmente, este o pouco desenvolvimento que o mutante mais poderoso de todos tem: querer matar os humanos só porque a raça dele não é a superior. Ou seja, bastante semelhante a qualquer outro vilão da série. O que é muito mau, tendo em conta quem o vilão é, um dos mais intimidantes que já surgiu na banda desenhada. E a interpretação de Oscar Isaac, que é possivelmente um dos melhores atores a trabalhar hoje, acaba também por ser bastante amarga e monótona, pois tem tanta maquilhagem em cima que mal se percebe as suas emoções. A melhor parte deste capítulo é ver a mudança de Eric, Magneto, e os seus esforços para continuar a tentar viver livre, pois este agora é um fugitivo do governo, e as consequências dos seus atos, sendo uma das cenas mais traumáticas das entradas todas. O filme ainda nos introduz as novas encarnações de personagens já antigas, como de Storm, Stephen Summer, Jean Grey e Nightcrawler, mas estes também têm pouco que fazer senão aparecerem todos juntos na luta final. Quicksilver volta a aparecer e este, novamente, rouba o espetáculo todo em apenas uma cena. Fora disso, o filme decepcionou um bocado a sua fanbase por ficar um pouco aquém das expectativas. 


Logan (2017) 

É aqui que a série morreu para muitos, e compreende-se o porquê. Não só acaba as arcs das personagens que viram crescer há quase duas décadas, como também é uma conclusão perfeita para uma série que já não precisa de ir para mais lado nenhum no futuro. Sim, vai haver este Dark Phoenix esta semana, que não é sequela a este filme mas sim a Apocalypse, mas será mesmo necessária? Anyway… Logan é, de longe, o filme mais perfeito que este franchise tem. Tem mesmo de tudo, desde as excelentes interpretações de Hugh Jackman e Patrick Stewart, um argumento forte, uma banda sonora electrizante acompanhada por uma desolada cinematografia… Logan é quase um western moderno, e Logan foi o cowboy apanhado acidentalmente pelo meio do ambiente em que ele próprio está a tentar sobreviver. É a entrada mais emocionante de todas, mas aqueles que viram estas personagens crescer estes anos todos, ou cresceu com elas, são os que mais são afetados durante esta dura, derradeira e crua viagem de Wolverine. Não digo que quem não seguiu a série do início ao fim que não vá gostar do filme, pois como stand alone serve perfeitamente (desde que conheça, no mínimo, as personagens e de onde elas vêm), mas é um filme que atinge mais o alvo se a pessoa já estiver dentro da viagem após vários anos de acompanhamento.


Sim, há outros dois filmes de X-Men de que podia falar, mas não acho que sejam para aqui chamados pois são algo completamente diferente e fora do lote original, fazendo até piadas contra ele. São filmes que podem experienciar completamente à parte dos X-Men

Para mim foi um prazer crescer com o VHS do X-Men original e agora chegar ao Blu-ray do Logan. Não teve o mesmo impacto para mim que, digamos, o Homem-Aranha, pois este último era muito mais apelativo para alguém da minha idade na altura, mas sempre foi algo que gostei de acompanhar até agora, e certamente muitos outros fãs sentem o mesmo. Vai agora tudo chegar ao fim com Dark Phoenix, um filme que ninguém (penso eu) acha que vá ser algo de especial, especialmente tendo em conta todo o mau marketing, refilmagens e confusões pelas quais o filme já passou até hoje (tal como The New Mutants). A esperança pode ser mínima de ser um bom filme, mas espero que, pelo menos, seja um bom adeus a estes vinte anos de acompanhamento. 
SOBRE O AUTOR

Apreciador, e colecionador, de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man de Sam Raimi.

2 comentários:

  1. Tenho de te dizer que nunca senti assim grande vontade de ver um filme dos X-Men, mas que até estava curioso com a Fénix Negra. Até ter visto as críticas que divulgaram hoje. Acho que vou continuar sem ver X-Men. Talvez veja o Logan!

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    1. Não és a primeira pessoa que me diz isso, e é completamente normal. A Joana nunca viu X-Men para além do Logan, que, tal como ela diz, já é um excelente filme por si só, mas sentiu-se muito aborrecida ao ver o original. Se quiseres começar, tenta com o First Class, e vê a partir da ordem de lançamento a partir daí, pode ser que gostes mais. Se tiveres curiosidade em ver o resto, força!

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