segunda-feira, 24 de junho de 2019

"Yesterday" em análise

Devo começar por admitir que sou um fã bastante… casual dos Beatles. Eles têm várias centenas de músicas produzidas, mas nem metade delas eu devo ter ouvido ou sequer conheço. Mas, a ideia deste filme deixou-me curioso, especialmente tendo em conta a equipa por trás do mesmo: Danny Boyle como realizador e Richard Curtis como argumentista. Sim, isto soa tão agridoce a mim como deve soar a quem conhece o trabalho de ambos, pois são trabalhos muito diferentes um do outro, sendo que um tem trabalhos mais realistas e negros, o outro tem trabalhos românticos e feel good que a maior parte das raparigas gostam de apreciar. Eu gosto da maior parte dos filmes dos Beatles, sendo que A Hard Days Night é o meu favorito, tendo Yellow Submarine logo atrás, e estava à espera que este filme não ficasse muito atrás desses dois clássicos.


Devo dizer que não acho a realização de Danny Boyle e o argumento de Richard Curtis a melhor mistura de todas, pois parece haver uma difícil convergência de ideias a serem mostradas no ecrã. Como um simples diálogo sobre personagens, enquanto estas andam, a ser filmado com vários cortes, mas sempre com um dutch angle. São marcas que fazem logo reconhecer um filme de Danny Boyle, mas não me parecem as mais apropriadas para este género de filme. E isso acaba por afetar a maneira como as coisas passam do papel para o ecrã, pois enquanto até podem estar bem na folha, acabam por não estar tão bem no filme. E a ideia de que, durante o apagão, várias coisas tinham desaparecido da história do planeta podia ter sido muito melhor explorada, talvez até mostrando as várias maneiras em que outras personagens, como a personagem principal, ainda se lembram das mesmas, e o porquê. Da mesma maneira que o filme parece tentar colocar razões ou explicações para se recordarem ou esquecerem-se de certos elementos de várias canções dos Beatles a mais de metade da duração, que não fazem sentido considerando tudo o que já se passou.


Apesar de haver interpretações bastante sólidas, a do protagonista acho que foi a que acabou por ficar mais ao lado. Pode talvez não ser culpa dele, mas do argumento, visto que algumas das personagens têm diálogos maus, ou apenas tomam decisões parvas para levar a história adiante e se sentir alguma perda com as ações das mesmas. Isto reflete-se principalmente na personagem de Lily James, que a certo ponto se vê num triângulo amoroso. Outras personagens acabam por se tornar apenas desnecessárias para a história, sendo utilizadas maioritariamente para running gags que, honestamente, nem sequer têm muita piada, especialmente quando arruínam momentos que seria suposto serem sérios. Essas cenas podiam ter sido todos cortadas e presumo que a história integral do filme ainda estaria intacta.


A nível de edição sonora é que o filme não encanta nem espanta. Visto ser, em parte, um musical, acho que podiam ter feito um melhor trabalho no que diz respeito ao som, ou terem aproveitado melhor as músicas dos Beatles, visto serem a maior fonte de inspiração musical para o protagonista e outras personagens. Menos cortes entre diálogos também ajudariam a manter a estabilidade do filme. Se este tivesse um feeling semelhante a Trainspotting, seria mais apropriado, mas como é algo bastante sóbrio - o que é estranho não haver, sequer, uma sequência com ácidos num filme dos Beatles - não vejo a necessidade de ir cortando constantemente entre cenas. E outra coisa bastante distrativa é a maneira como são introduzidos os nomes das cidades ou locais onde as personagens estão, pois utilizam um CGI bastante manhoso e acriançado. 


Yesterday não é um filme mau, de todo. Tem algum charme e carisma, mas acho que se perde quando a criatividade de duas mentes bastante divergentes se juntam na realização e argumento. Se fosse, por exemplo, Richard Curtis a realizar e escrever, que é o que acontece na maior parte dos seus filmes, penso que este teria o efeito que parece que tenha tentado adquirir, uma pequena homenagem, ou reimaginação, dos tempos da Beatlemania em todo o mundo, misturado com um pequeno romance, talvez, mais relevante, invés de desnecessário. Ou, se fosse Boyle a realizar, teríamos algo mais realista (ou surrealista) de como a falta de existência de Beatles afetaria o mundo musical do nosso Planeta. Tem alguns momentos de comédia e algumas interpretações boas, mas não é nada de memorável ou que dê sequer vontade de revisitar. Há apenas um único momento no filme que, penso, surpreenderá imensas pessoas - tendo-o feito até a mim – pois é algo realmente inesperado, mas, fora disso, o filme acaba por ir a territórios genéricos que não o diferenciam da maior parte das comédias românticas que já vimos algumas vezes. Vê-se uma vez, aquece, mas fica na prateleira, arrefecendo.

6/10
SOBRE O AUTOR

Apreciador, e colecionador, de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man de Sam Raimi.

6 comentários:

  1. I would like to see it. Maybe this upcoming weekend.

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  2. Sou fã dos Beatles mas não conhecia este filme até ter visto a anunciar na televisão. Apesar dos aspetos negativos que aqui referes, vou querer ver na mesma e depois passarei por aqui para dizer se concordo contigo ou não. Abraço!

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