quarta-feira, 10 de julho de 2019

"The Night of The Hunter" (1955) a rebobinar

Já se passaram quase 64 anos desde que a obra prima de Charles Laughton foi lançada originalmente, para críticas que levaram o ator a nunca mais ter o mesmo cargo outra vez. Foi durante esses 64 anos que o filme começou a ter cada vez mais valor, passando de um filme desgostado para um dos filmes mais aclamados de sempre, tendo até 99% no Metascore (quando 1% até faz falta...). No passado sábado tivemos a oportunidade de ver o filme em película original de 1964, que foi o ano em que saiu cá, em 35mm, na Cinemateca. Não foi a primeira vez que o vi, pois eu já o tinha visto, considerando-o um dos meus filmes favoritos, mas revê-lo numa tela no seu formato original foi algo completamente mágico.


O filme começa como um conto de fadas, com uma música encantada, seguida por uma senhora a contar uma história a várias crianças... Para logo depois termos uma cena onde pequenas crianças encontram um corpo estendido no chão, presumindo-se ser o de uma falecida mulher, seguindo em seguida para o nosso antagonista, que nos conta tudo em que acredita em poucos minutos, seja pelas suas próprias palavras ou pelo incrível trabalho cinematográfico. Esta personagem é o Pregador Powell, interpretado por Robert Mitchum. Esta personagem, por muitos reconhecida como um dos maiores vilões já vistos no cinema, é como uma encarnação do diabo que se esconde atrás da cruz de Cristo. E o filme não tem medo de o mostrar, ou insinuar, que ele assim o é, especialmente com tudo o que faz ao longo do filme, com a ajuda de um excelente trabalho de luz e câmara que o sobressaem ainda mais, tornando a maior parte das suas cenas mais intensas, até mesmo quando ele está simplesmente a cantar, marcando a sua presença.


As crianças, por vezes, podem não dar as melhores das representações. São crianças, e sempre foi difícil lidar com elas durante gravações – o que foi com o caso de Sally Jane Bruce, que mal sabia o que fazer, tendo vários gritos do próprio realizador durante as filmagens (e muitas das reações dela a esses gritos acabaram por ficar no filme, mas como reações a Powell). Lillian Gish, no entanto, dá uma excelente interpretação como uma segunda figura maternal às crianças, mostrando que nem todos os adultos são figuras que devem ser temidas. O resto do elenco, inclusive a mãe das crianças, fazem um bom trabalho de representar o tempo em que se passa a narrativa, mas não tenta criticá-la a níveis extremos. Pode ao início ser exagerada, mas entende-se bem que era algo natural naquele tipo de ambiente e mentalidade, seja por acharem que as mulheres sozinhas não tinham como sustentar uma família sozinha, por exemplo. São temas que, se fossem abordados num filme em 2019, teriam, de certeza problemas do “politicamente correto” ou ataques feministas por rebaixarem, de certa forma, o papel da mulher. 


Tal como já falei acima, a cinematografia do filme é soberba, e a utilização de luz é brilhante – pun intended -, algo que não devia ser um espanto visto que Laughton trabalhou no teatro, facilitando-lhe a criação dramática visual de qualquer cenário, especialmente com a ajuda de sombras.

A cena a meio do filme, que se passa num rio, está muito bem conseguida, e dá ao espectador uma tranquilidade imensa que já era precisa desde que Mitchum surgiu para atormentar a pobre família, seguida ainda por uma suave banda sonora que nos arrasta pela foz. Mas esses momentos acabam assim que se houve “Leaning on the Everlasting Arms”, uma música que devia ser como uma canção de embalar é usada para o terror das crianças, e do espectador, sendo hipnotizante ao ponto de deixar alguém em transe, mostrando o quão atmosférico o filme é. 


The Night of the Hunter é um filme que até pode ser considerado terror, especialmente para quem toma atenção à cinematografia, pois dificilmente se esquecerão do momento em que Powell canta a cavalo enquanto as crianças tentam descansar, após uma longa fuga, num palheiro. Com uma excelente, e única, realização de Laughton, um dos melhores e mais reconhecidos vilões do cinema e muito mais, o filme provou ser mais do que se dizia na altura em que foi lançado, continuando a ser uma das maiores influências do film-noir e de filmes de suspense já feitas.
SOBRE O AUTOR

Apreciador, e colecionador, de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man de Sam Raimi.

8 comentários:

  1. Também fui ver à Cinemateca no sábado! É um dos meus filmes favoritos!

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    1. É mesmo um filme excelente! Ainda estou a ponderar se vou ver o The Searchers na sexta feira.

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  2. Já há alguns anos que não vou ver filmes às casas de cinema, que ainda existem algumas em Portugal. Vejo alguns filmes na televisão. Esse filme não sei se o já vi. Se o já vi não me lembro quando. Mas pelo que li deve ser um bom filme!

    Tenha uma boa tarde de Quinta-feira Diogo Correia.

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  3. Que demais!
    Eu não conhecia esse filme, acredita? Hahaha
    Aqui também tem Cinemateca e agora tem o Cine Passeio, que é um cinema de rua muitoo legal :)

    https://www.heyimwiththeband.com.br

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