terça-feira, 6 de agosto de 2019

"A Lancheira" e os sentidos de Ritesh Batra

Chega esta semana a algumas salas de cinema o filme Fotografia do realizador indiano Ritesh Batra. Pareceu-me, então, a altura ideal para trazer para aqui o primeiro filme longa-metragem de Batra, A Lancheira (2013). Não sei quanto a vocês, mas eu gosto quando um filme me transmite uma sensação de conforto. Senti isso também com o Paterson de Jim Jarmusch, por exemplo. São filmes que contam histórias simples, mas de um modo convincente que soa natural, quase como se qualquer um de nós pudesse passar pela mesma situação. No caso de A Lancheira, temos uma importância especial dada aos sentidos e isto acrescentado a uma história bela é capaz de tornar o filme ainda mais especial e único. 


A trama transporta-nos para Mumbai e apresenta-nos Ila, uma mulher que todos os dias prepara uma lancheira que depois será entregue ao marido através de um serviço de entregas de lancheiras que nunca falha. Ou, pelo menos, assim é dito, pois determinado dia a lancheira de Ila vai parar à secretária de Saajan Fernandes, que se delicia com a comida feita por ela. Assim começa um ciclo de entregas, a partir do qual os dois começam a comunicar por bilhetes, começando assim uma amizade e também uma paixão, até porque o marido de Ila pouca importância lhe dá e a mulher de Saajan já tinha falecido. 

O destaque dado neste filme aos cinco sentidos é extraordinário, levando-nos a sentir o que as personagens sentem, especialmente no que toca ao olfato, ao paladar e à visão, que, neste caso, podem ser imediatamente associados à comida. 


O filme inicia-se com Ila a preparar a lancheira e vê-la cozinhar é delicioso – em todo o sentido da palavra. É quase possível sentirmos o cheiro das especiarias e imaginarmos o odor dos refugados que paira na sua cozinha. O olfato torna-se muito importante, até porque a primeira coisa que Saajan faz quando abre a lancheira é cheirar o seu conteúdo e logo aí percebe-se bem que é do seu agrado, através da sua reação. Depois segue-se o paladar, também de uma grande importância, pois às vezes o cheiro engana, mas este não é um desses casos. Primeiro temos Ila a provar a sua receita e a temperá-la o melhor possível; de seguida temos Saajan a deliciar-se. Por sua vez, a visão também tem um papel importante na receção da comida por parte de Saajan, até porque como se sabe “os olhos também comem” e, verdade seja dita, a lancheira de Ila é capaz de nos deixar a salivar, pois tem tudo muito bom aspeto e uma fantástica apresentação. A visão, enquanto sentido, também se encaixa bem no momento em que Saajan vê Ila pela primeira vez e entende logo como é a sua correspondente, simplesmente pela perceção que tem dela através da observação da sua figura e dos seus comportamentos inquietos enquanto este o aguarda ansiosamente. 


Como já referi, a história é simples e centra-se nos desencontros, seja da lancheira ou dos protagonistas. Mas o que a torna especial é o modo como é contada, sem cair em clichés e sendo capaz de transmitir também uma cultura diferente através das comidas, costumes, trajes, rotinas, enfim. Na verdade, neste filme Ritesh Batra consegue levar-nos numa breve viagem para Mumbai, tal como também fez no seu filme mais recente, Fotografia, sobre o qual falarei em breve num outro artigo. Percebe-se que o seu modo de contar esta história está também associado a um carinho que tem pela sua própria cultura. 

Se não estão familiarizados com a obra de Batra, ou até mesmo com filmes indianos, não posso deixar de vos recomendar este filme, pois tenho a certeza que qualquer pessoa é capaz de encontrar aqui uma quietude e uma beleza única.
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

6 comentários:

  1. O cinema indiano é celebrado anualmente aqui em Macau.
    Um país que ainda não conheço.
    Acontecerá um dia.
    Bjs

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    1. Com a ajuda destes filmes, sempre ficamos a conhecer um pouquinho! 😊

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  2. Gostei muito do texto e fiquei com vontade de juntar à lista. Se continuar assim, terei de reservar um mês completo apenas para o cinema (risos)

    Beijinhos

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  3. Vou anotar a tua sugestão. Parece-me maravilhosa *-*

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