terça-feira, 13 de agosto de 2019

Então, e o segundo pequeno-almoço?

É estranho para mim pensar que durante os meses de vida deste espaço ainda não houve um único artigo relacionado com O Senhor dos Anéis. Na verdade, este nome nunca ressoou aqui. Nem uma única vez! Penso, então, que finalmente chegou a hora. Claro está que falar de tudo aquilo que está relacionado com este universo iria levar a um artigo tão longo que certamente ninguém iria querer lê-lo, a não ser que fosse também um grande fã. Então, por agora vou limitar-me a escrever algumas palavras sobre os filmes de O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel (2001), As Duas Torres (2002) e O Regresso do Rei (2003), todos eles realizados por Peter Jackson e, claro, inspirados na obra literária de J. R. R. Tolkien. 


A história começa por nos levar para o verdejante Shire, onde somos apresentados a uma comunidade de hobbits. Bilbo Baggins, o tio de Frodo Baggins, já está a envelhecer e não consegue mais carregar um fardo que o tinha acompanhado durante grande parte da sua vida. Por esse motivo, decide que está na hora de partir e vê o momento ideal para isso no final da sua grande festa de aniversário, na qual também o feiticeiro Gandalf estará presente. É depois da partida de Bilbo que Gandalf informa Frodo de que agora é a vez dele de transportar o grande fardo que durante muito tempo atormentou Bilbo: tratava-se de um anel muito poderoso, capaz de invocar as trevas e de levar a grandes guerras, mostrando o pior dos homens. “Um anel a todos governar”. Frodo fica, então, encarregue de destruir o anel, mas para isso contará com uma Irmandade disposta a ajudá-lo, formada por um anão, Gimli, um elfo, Legolas, um homem, Boromir, e por aquele que é o verdadeiro rei, Aragorn. E, claro, também Gandalf será fundamental nesta jornada, assim como mais três hobbits que partem com Frodo: Sam, Merry e Pippin. Pelo caminho da destruição do anel, todos encontram grandes obstáculos, desde o feiticeiro maléfico Saruman, “servo” de Sauron, a grandes guerras para combater os orcs e, claro, também temos Gollum, uma criatura mesquinha que vive obcecada pelo poder do anel, pois foi o seu possessor antes de Bilbo, e que fará de tudo para impedir que Sam e Frodo o destruam. 


É verdade que este é um resumo injusto para tamanha obra-prima, mas é difícil transformar tudo em breves palavras, pois falamos de três filmes com mais de três horas cada, inspirados em três livros que também não são pequenos. O Senhor dos Anéis está repleto de personagens importantes e vindas de diferentes comunidades e locais que vão surgindo. Algo curioso é perceber que ainda que Frodo seja o verdadeiro protagonista da história, é impossível considerá-lo o único protagonista, pois todas as personagens são apresentadas com um tempo de antena idêntico e todas elas têm uma voz própria. Nos filmes, as mudanças de plano não hesitam em transmitir os sentimentos de cada uma. Por exemplo, quando algo acontece podemos ter um plano da reação de Aragorn, sem falas, mas suficiente para perceber o que lhe vai pela mente. Isto é essencial para entender a personalidade de cada um, mas faz com que a atenção dada aos detalhes aumente. A verdade é que o tempo de duração dos filmes podia ter sido muito menor, mas são estes pequenos pormenores que fazem a diferença. 


A história vai sendo contada com uma alternância dos pontos de vista. Um espectador atento não terá um mínimo problema a seguir a narrativa, mas o mesmo não poderei dizer de alguém que deixe de prestar atenção. Este é um mundo muito complexo. Como já disse, existem muitas personagens e todas elas acabam por estar conectadas. Ou seja, se a determinado momento a Irmandade separa-se, indo Frodo e Sam para um lado e os restantes para outro, é porque todos eles apenas têm meios diferentes para chegar a um objetivo. É, por isso, de extrema importância não perder o rumo à meada e perceber onde cada um se localiza. Para tornar isso mais fácil, existem sempre personagens às quais é dada uma maior atenção em cada novo sítio que é apresentado. Assim sendo, o melhor modo de situar a narrativa é associar os locais a uma cara. Por exemplo, Théoden e Éowyn a Rohan, Denethor a Minas Tirith (Gondor), Saruman a Isengard. 


Existem duas coisas que se destacam nestes filmes, para além da história, das caracterizações, das personagens e, claro, das prestações fantásticas de cada ator; refiro-me à cinematografia e à banda sonora. Começando pela cinematografia, o que há a dizer? Desde os momentos iniciais do primeiro filme, somos imediatamente levados para a Terra Média. Entramos no filme. O facto de muitas sequências terem sido filmadas ao ar livre, essencialmente em localidades da Nova Zelândia (e isto incluí o próprio Shire, mais especificamente a pequena vila de Hobbiton), torna tudo mais plausível. Nestes momentos, a direção de fotografia é deslumbrante e, depois, com a maravilhosa banda sonora composta por Howard Shore temos um resultado estrondoso. É interessante notar nas alterações que tanto a cinematografia como a banda sonora vão tendo à medida que a história vai decorrendo. Se no início em que tudo é alegre temos cenários mais luminosos e acordes entusiastas, lá para o final do primeiro filme e início do segundo começamos a ter uma maior escuridão a entrar em cena, com uma banda sonora com acordes mais assombrosos e cenários e movimentos de câmara mais caóticos. À medida que as personagens vão perdendo a esperança, tudo escurece, mas quando estes ganham uma maior coragem tudo volta a iluminar-se novamente. 


Dito isto, gostava apenas de fazer algumas pequenas anotações. Os filmes datam do início deste século e tanto estes como os próprios livros de Tolkien já foram por várias vezes criticados por terem poucas personagens femininas, principal motivo pelo qual nos filmes de O Hobbit (2012-2014) temos Tauriel, uma personagem élfica que não consta na obra literária. Ora, estamos numa altura em que, dizendo muito honestamente, vários filmes querem impor uma presença feminina forçada (veja-se o caso do remake de Ghostbusters de 2016, por exemplo). Com isto em mente, quero dizer que ainda que a história de O Senhor dos Anéis não tenha tantas mulheres quanto homens, esta apresenta personagens femininas com uma grande presença, como é o caso da corajosa Arwen, da lendária e bela Galadriel e, claro, da destemida Éowyn. O terceiro filme apresenta um exemplo excelente de como é possível apresentar uma personagem feminina sem rebaixar os homens (que, infelizmente, é o que muitos filmes têm feito), especialmente com a sequência em que Éowyn derrota o Witch King, na qual se dá o seguinte diálogo (aqui em excerto do roteiro): 
Witch King: [taking Eowyn by the throat] You fool. No man can kill me. Die now. 
[Merry stabs the Witch King from behind; the Witch King shrieks and falls to his knees. Eowyn rises and pulls off her helm, her hair falls down over her shoulder] 
Eowyn: I am no man. 
[she thrusts her sword into the Witch King's helm and twists; he shrieks and implodes] 
Este tornou-se num dos momentos mais icónicos do Cinema e, claro, Éowyn é um dos grandes exemplos de strong female character, sem clichés ou frases forçadas. Atenção a isso, futuros cineastas! 


Seguindo ainda o exemplo de Éowyn, quero também mostrar o meu agrado no que toca à construção das personagens. Como é óbvio, a influência dos livros nos filmes é muito forte (e ainda bem), por isso é interessante ver que nenhuma personagem se transforma de um momento para o outro. Cada qual vai crescendo à medida que vai aparecendo, sendo que não é de um minuto para o outro que Éowyn decide ir para a guerra ou que Gollum se torna mau. É necessário um pano de fundo para todas as transformações e a narrativa soube apresentar isso muito bem, não havendo pontas soltas e nada por resolver. 


Desta vez, vou ficar-me por aqui, mas ainda fico com muito por escrever, ou não estivesse eu a falar sobre os meus filmes (e livros) favoritos! Não vos quero maçar com um artigo longo em demasia, mas fica a promessa de que O Senhor dos Anéis vai passar a ser um tema mais recorrente por estas bandas, até porque se avizinha uma nova série relacionada com este universo...
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

14 comentários:

  1. Olá, Joana!
    Graças a estas tuas excelentes postagens fico um pouco atualizado sobre o cinema, o que é muito bom.
    Uma ótima semana, Joana.
    Um abraço.
    Pedro

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  2. Ah, o que dizer sobre uma das maiores trilogias literárias e do cinema....
    Sempre achei o Sam mais protagonista do que o Frodo, principalmente falando com relação aos livros. Mas acho que é porque tenho um pouco de birra com o ator. Porém a qualidade dos filmes é enorme, em todos os aspectos. Me lembro da primeira vez que o assisti ainda criança. Fiquei maravilhada e começou aí o meu amor pelos livros de fantasia.

    Abraço,
    Parágrafo Cult

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    1. Eu também concordo que o Sam tem mais direito a ser protagonista, mas oficialmente é o Frodo. Em relação aos livros, não concordo que o Sam tenha mais notoriedade, sinceramente... 😛

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  3. Confesso que não é muito a minha praia...

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  4. Vou escrever algo que vai chocar... e a partir deste momento, fazer de mim um ET...

    Nunca vi nenhum dos filmes...

    MAS... como sempre, gostei muito dos seus textos, um trabalho absolutamente extraordinário

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    1. Não me choca, especialmente tendo em conta a duração de cada filme!

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  5. Nã0 sou grande fã desse género, mas tenho mesmo que dar uma oportunidade :)

    Beijinhos
    novo blog: http://danielasilvaoficial.pt

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    1. Aconselho a não veres se não tiveres interesse... É um género muito restrito!

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  6. Nunca vi O Senhor dos Anéis. E, confesso, nunca me puxou muito a fazê-lo :o

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  7. Palmas palmas. Adorei! Tive de abrir o post mal vi o título. Ainda que em português não pude deixar de ouvir "What about second breakfast?" Também eu adoro LOTR e O Hobbit. Gostei sobretudo da tua anotação sobre o papel das mulheres que são soberbas sem nunca rebaixar os homens. LOTR é a minha saga preferida e a banda sonora de Howard Shore é magnífica. Please, continua a escrever sobre o tema :D
    Beijinho ❤
    EVENING BREEZE

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    1. Muito obrigada pela comentário! De facto, eu ia escrever mesmo "What about second breakfast?", mas sempre que possível prefiro escrever os títulos em português! Prometo que teremos mais artigos sobre "O Senhor dos Anéis"! 😛

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