sábado, 17 de agosto de 2019

"Era uma vez em... Hollywood" em análise

É com elevadas expectativas que o nono filme de Quentin Tarantino chega ao nosso país, ou não tivesse este recebido uma ovação que, segundo consta, durou sete minutos em Maio no Festival de Cannes. Era uma vez em... Hollywood era um filme aguardado por vários motivos: por ser do realizador que é, por ter um elenco cheio de estrelas e por prometer uma história diferente, mas baseada em factos verídicos. 


A trama leva-nos imediatamente para os anos sessenta em Los Angeles e apresenta-nos Rick Dalton, um ator que se sente fracassado, e o seu duplo, Cliff Booth. Se por um lado temos Rick, que sonha em ser um ator reconhecido, pelo outro temos Cliff, que apenas faz os possíveis para que Dalton consiga atingir os seus sonhos, tornando-se não só no seu duplo, mas numa espécie de assistente sempre pronto para o ajudar, seja para o ir buscar aos estúdios num final de dia de filmagens ou para reparar algo na sua casa. As diferenças entre ambos são notáveis, essencialmente pelo modo como vivem e pensam, apesar da semelhança física. Mas, para além destes dois, há uma outra personagem que se destaca, ainda que pareça viver num mundo diferente, mas que é paralelo: Sharon Tate, um dos pontos verídicos que este filme apresenta (juntando-se também outros nomes reais como o seu marido Roman Polanski, Jay Sebring, Bruce Lee, Steve McQueen, entre tantos outros e, claro está, Charles Manson). Sharon Tate aparece como a vizinha rica de Dalton; aquela que tem tudo aquilo que ele quer, mas que parece ser difícil de alcançar. 


Logo desde os primeiros segundos do filme é fácil entender que a dupla Dalton e Booth é o centro do jogo. São apresentados como duas personagens em crescimento, que são aprofundadas cada vez mais à medida que os minutos vão passando. É curioso ver o modo como esse crescimento é feito no caso de Dalton, sendo que temos vários momentos em que o vemos a atuar para os seus filmes e é engraçado vê-lo a falhar e a sentir-se frustrado de seguida – com isto quero dizer que é ótimo ver a representação de Leonardo DiCaprio a interpretar alguém que também é ator e falha várias vezes (uma dupla representação, portanto?) - até atingir um ponto em que começa a sentir-se melhor com o seu trabalho. 

Já nas sequências de Cliff Booth, interpretado por Brad Pitt, somos levados para as ruas de Los Angeles e é aí que o filme vence ao entregar uma certa nostalgia, com ruas repletas de luzes néon, espaços antiquados e figurinos feitos à medida. É através de Cliff Booth que também temos acesso ao lado hippie do filme, que no final se cruza com o plano inicial de Quentin Tarantino de apresentar uma história relacionada com o assassinato de Sharon Tate - ainda que o melhor seja ir de mente aberta e sem ideias fixas para o que possa acontecer. 


A verdade é que o filme parece perder-se durante muito tempo, permitindo que cada personagem deambule como qualquer outra pessoa fora do ecrã. É possível que haja o sentimento de que o filme está a seguir vários caminhos que não levarão a lado nenhum, seja por existirem muitas personagens com pouca importância ou por vários momentos resumirem-se a apresentar as prestações de Dalton. No final, tudo se liga de um modo interessante, mas é inevitável, mesmo assim, que algumas personagens existem apenas para tornar possível o objetivo final do filme. E penso que este é o caso de Sharon Tate (interpretada por Margot Robbie), que não brilha e que se apresenta mais como uma personagem secundária com pouco conteúdo, pois nas sequências em que aparece pouco faz, pelo menos até aos momentos finais do filme. Neste aspeto, e reconhecendo que ela não é a protagonista da história, lamento que a sua personagem não tenha sido melhor trabalhada. 

Como já referi, o filme leva-nos a mergulhar pelas ruas de Los Angeles em 1969 e é capaz de nos levar para outros tempos. Em grande parte, a nostalgia aqui presente funciona muito bem pois existem várias referências que ajudam a tornar o filme – e as personagens – mais reais, desde músicas a passar na rádio a nomes de filmes e de atores escritos em grandes cartazes. Inclusive existem algumas sequências de montagens que colocam os próprios atores deste filme noutros mais antigos e, assim, resultam em momentos cómicos agradáveis de digerir. 


Era uma vez em... Hollywood tem uma duração de 161 minutos, mas parece passar realmente rápido, pois, ainda que o pacing seja lento, há sempre algo de novo a acontecer (os tais caminhos diferentes que o filme segue). É delicioso sentirmos este filme a tomar conta da nossa atenção. Depois no final, temos algo diferente de tudo o resto, que realmente faz jus ao nome “era uma vez”. Não considero que este filme seja “típico” do Tarantino, mas considero que é uma espécie de “conto de fadas” como atualmente já não se fazem e por isso consegue transmitir um sentimento único.

8/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações. Vi na criação deste espaço o local ideal para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto.

9 comentários:

  1. Particularmente detestei tanto Kill Bill , me trás uma lembrança tão ruim ( vi o filme com uns 8 anos), que nunca mais quis assistir algum filme do Tarantino, mas agora estou interessada em ver esse filme, gostei da análise e do blog.
    www.verdeveggie.blogspot.com.br

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    1. Penso que este é um pouco diferente dos outros filmes do Tarantino... Obrigada pelo comentário! 😊

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  2. Tenho alguma curiosidade em relação a este filme :)

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  3. Foi com expetativas elevadas que fui ver este filme a apanhei uma grande deceção. O filme tem duas excelentes interpretações (DeCaprio e Pitt) que se completam e é sobretudo à base destas personagens que o filme se aguenta. A personagem de Margot Robbie (que interpreta Sharon Tate e não Sharon Stone como indicado 4 vezes na crítica) é completamente vazia. O realizador limita-se a colar pedaços da vida dos protagonistas sem qualquer fio condutor. O ambiente de LA do final dos anos 60's está lá, as músicas também mas falta algo mais. Três cenas a reter: a do achincalhamento do Bruce Lee, a da pequena atriz a elogiar o trabalho de Rick Dalton e a célebre cena final da mortandade. Tarantino já fez muito melhor (que saudades de Os Oito Odiados ou Sacanas Sem Lei).

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    1. Ups... Obviamente que é Sharon Tate. Foi um erro derivado do sono que passou despercebido aquando da releitura do artigo. Obrigada, Luís. Já está corrigido.

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    2. É um lapso perfeitamente compreensível a aceitável tanto mais que estamos mais familiarizados com a Sharon Stone do que com a Sharon Tate (felizmente).

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