quarta-feira, 11 de setembro de 2019

"Amazing Grace" em análise

Em 1972, a rainha do soul Aretha Franklin, que então já era bastante reconhecida na indústria musical, decidiu fazer algo diferente do resto da sua carreira: gravar um álbum ao vivo numa igreja baptista em Los Angeles, acompanhada pelo coro comunitário da Califórnia conduzido pelo maestro Alexander Hamilton e com o apoio do reverendo James Cleveland. Esse álbum, denominado Amazing Grace, viria mais tarde a ser considerado um dos melhores do género do gospel. A verdade é que este momento não ficou apenas gravado em áudio, mas também em vídeo, pois a sessão, como tinha sido anunciado previamente, seria filmada para realização de um filme por parte da Warner Bros. Acontece que devido a problemas técnicos, o filme nunca chegou a ver a luz do dia… Até agora. 


Para fazer as filmagens, a Warner contratou o realizador Sydney Pollack que certamente não estava habituado a fazer algo para além de dramas e por isso contou também com o apoio de Joe Boyd, que no momento não serviu de grande ajuda a Pollack que caiu num erro que levou à dessincronização entre som e imagem. Um erro que nem Alexander Hamilton, perito em lip-sync, conseguiu resolver. Este foi o primeiro motivo que levou ao adiamento do lançamento deste filme. No entanto, o segundo motivo é o principal: Aretha Franklin nunca quis que este filme fosse lançado, pois não gostou do resultado, que, segundo ela, apenas a tornava numa celebridade e que era incapaz de transmitir o sentimento da música que ali se cantava. 

Como se sabe, Aretha Franklin faleceu no ano passado e ainda que primeiramente a chegada deste filme possa parecer desrespeitosa para com a sua pessoa, a verdade é que o resultado que aqui temos é uma pequena obra-prima se olharmos para ela com olhos do passado. 


O que Alan Elliott realiza neste filme é uma interessante colagem de imagens do arquivo que em tempos foi destinado à Warner Bros. A sessão musical decorreu durante duas noites que aqui são apresentadas linearmente, com exceção para alguns momentos em que são intercaladas, certamente por o arquivo original já não estar completo. Este filme não é, certamente, o Amazing Grace que poderia ter sido na altura, mas resulta num documentário dinâmico que é capaz de nos transportar diretamente para a New Bethel Baptist Church em Janeiro de 1972. 

Entende-se bastante bem a euforia de todos aqueles que estiveram presentes na sessão, no entanto o som não consegue ter poder suficiente para nos levar a sentir o mesmo que eles. Os problemas técnicos que tanto foram receados por Boyd na altura continuam a ser notáveis, pois o som não consegue ter um impacto suficientemente forte para nos deixar com uma vontade louca de cantar, bater o pé e saltar da cadeira freneticamente. Na verdade, a própria voz de Aretha parece ficar muito aquém daquilo que foi, o que é uma pena. 


Em termos de imagem, o filme parece uma gravação caseira feita por alguém inexperiente. Mas considero isto, que poderia noutro caso ser um aspeto negativo, muito interessante, pois ajuda a sentir uma maior proximidade com aquilo que estamos a ver – quase como se tivéssemos a ver uma filmagem feita por um conhecido, por exemplo. 

É também curioso ver o modo como tudo é apresentado: desde as caras centralizadas capazes de transmitir sensações intensas ao foco nas feições suadas de Aretha enquanto canta e encanta um público entusiasmado, no qual até se encontra um muito jovem Mick Jagger a deixar-se levar pelos ritmos desta música religiosa. O modo como os pequenos pormenores foram filmados leva a um resultado diferente que marca pela positiva. 


Este documentário pode não ter sido do agrado de Aretha, mas tenho a certeza que vai agradar a muita gente, especialmente a todos os que gostam de reviver outros tempos, neste caso através da música. Recomendo o filme a quem seguiu a carreira da rainha do soul (que, certamente, encontrará aqui motivos para gostar ainda mais da artista), mas também a quem nunca ouviu uma única música sua, pois, verdade seja dita, o filme deixa-nos com vontade de conhecer toda a sua carreira.

7/10 ⭐
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações. Vi na criação deste espaço o local ideal para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto.

14 comentários:

  1. Embora não tenha acompanhado a sua carreira com a máxima atenção, vou querer ver :)

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  2. Deve valer a pena só por ouvir Aretha.

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    1. Infelizmente, acho que o som podia estar melhorzito. Mas sim!

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  3. Ainda não conhecia mas fiquei curiosa.
    Beijinhos
    http://virginiaferreira91.blogspot.com

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  4. Onde é que eu assino o comentário da Magui??

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  5. Oi Joana, tudo bem?
    Como não tenho muito interesse em gospel nem na cantora, acho que essa produção não é pra mim.
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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  6. Conheço o álbum, mas não sabia da história do filme.
    Foi uma cantora notável e ainda hoje a gosto de ouvir.
    Joana, um bom resto de semana.
    Beijo.

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    1. Fica, então, a recomendação do filme! Um bom final de semana para si!

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  7. Joana,
    Aretha Franklin foi uma dessas pessoas ímpares que nascem para lutar, perseverar e brilhar.
    Bela homenagem em sua postagem.
    Beijos!!!

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    1. Muito obrigada, caro Douglas. Fica a recomendação do filme!

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