segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Aquecer os ânimos com "Ed Wood"

No sábado passado, houve cinema ao ar livre em Lisboa, cortesia do MOTELX que, como tem sido habitual, prepara sempre uma sessão de projeção gratuita inserida no Warm-Up antes do início oficial do festival. Este ano, o filme escolhido foi Ed Wood de Tim Burton, que faz agora vinte e cinco anos e que se insere na celebração dos sessenta anos de Plan 9 From Outer Space, que também tem um lugar reservado na programação da edição deste ano, com uma sessão agendada para o próximo domingo, dia 15. 


Ed Wood (1994) é considerado por muitos o melhor filme de Tim Burton. A trama leva-nos diretamente para a trapalhada que foram os filmes do realizador Edward D. Wood Jr. e as peripécias que se deram durante as filmagens de, por exemplo, Glen or Glenda, A Noiva do Monstro e, claro, o tal Plan 9 From Outer Space

Já se sabe que filmes inspirados em realizadores de filmes maus tornam-se quase sempre interessantes. Veja-se o mais recente caso de The Disaster Artist (2019). E conseguem ser também boas comédias! Este Ed Wood não falha ao entregar a dose certa de humor. O protagonista, tal como foi na vida real, é um moço otimista que está orgulhoso dos seus projetos, mesmo quando tudo se transforma num autêntico caos, seja por falta de financiamento por parte dos produtores ou até pela morte do seu grande protagonista, Bela Lugosi, aqui interpretado por Martin Laundau, que foi vencedor de um Óscar de Melhor Ator Secundário em 1995, precisamente pela sua prestação neste filme. 


Johnny Depp lidera um elenco cheio de estrelas e consegue tornar o ridículo sublime até com as suas expressões, ainda sem a grande pitada de Jack Sparrow que só anos mais tarde viria a tornar-se na sua imagem de marca, dando até a sensação de que todos os filmes de Depp depois de Os Piratas das Caraíbas continuam a ter uma presença forte da figura do pirata – no andar, por exemplo. Esta é uma fase diferente de Depp, numa personagem que parece assentar-lhe que nem uma luva, ainda que num ambiente um pouco diferente daqueles a que até então estaria habituado. De notar que esta foi a segunda “parceria” entre Depp e Burton, depois de Edward Mãos de Tesoura em 1990, numa lista que continua a aumentar cada vez mais. 

O modo como o filme apresenta Hollywood sugere uma crítica aos tempos em que tudo decorre: vemos Hollywood como um sítio sujo onde os artistas têm apenas um tempo de antena passageiro e depois passam a ser esquecidos para sempre. Esse é o caso de Bela Lugosi, cuja carreira foi sendo apagada depois da sua prestação em Drácula (1931), chegando a ser considerado “velho” pelos olhos daqueles que Ed Wood tentava convencer a produzir os seus filmes, e também o de Vampira, que nunca se viu feliz no seu trabalho e cuja carreira também caiu em desuso depois de ser despedida. 


Este é um filme que a brincar consegue também levar a uma reflexão sobre o papel do artista enquanto criador ou simples individuo e que também é capaz de mostrar a arte de fazer cinema em pleno, ainda que com todos os momentos bizarros que tornaram Edward Wood icónico. É um filme divertido e inteligente, que consegue animar quem conhece a história real do realizador, mas também quem nunca ouvi falar deste que é considerado um dos piores realizadores de sempre. 
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações. Vi na criação deste espaço o local ideal para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto.

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