domingo, 15 de setembro de 2019

"Midsommar" em análise

Ari Aster é um realizador que rapidamente soube elevar a fasquia em si mesmo. Depois do enorme sucesso que foi o seu primeiro filme, Hereditário, que foi extremamente controverso, é natural que exista uma grande ansiedade à volta de Midsommar, a sua nova “obra-prima”, que também rapidamente se conseguiu tornar num marco do folk horror. Foi igualmente com críticas díspares que este filme chegou agora ao nosso país, com uma antestreia especial no festival MOTELX, apresentada pelo próprio realizador. 


Logo no início somos apresentados a Dani (interpretada por Florence Pugh), uma jovem rapariga que vê a sua vida mudar por completo depois de passar por um grande trauma. É neste seu momento de ansiedade que começa a perceber que não pode contar minimamente com o apoio do seu namorado, Christian (Jack Reynor). No entanto, quando este lhe sugere uma viagem até à Suécia para visitar uma comunidade tradicional e viver o solstício de verão em pleno, esta decide ir, de modo a tentar libertar-se da sua vida caótica. Só que o que estará prestes a vivenciar vai mudar o seu modo de ver e de sentir para sempre. 

Os primeiros minutos do filme apresentam-nos a Dani de um modo rápido, mostrando apenas o estado em que esta se encontra e demonstrado que a sua relação com Christian está de má saúde. É quando se dá um determinado acontecimento na sua vida, mesmo antes dos créditos iniciais, que ficamos a sentir que há algo que merece ser melhor explicado. E, assim, ficamos a aguardar ansiosamente que o filme volte a pegar nesse tema, de modo a aprofundá-lo melhor… Só que isso não acontece. 


É quando Dani e companhia chegam à pequena e distante vila sueca que o filme começa a mudar, assumindo um pacing mais lento e tonalidades pastel, em contraste com as cores escuras que se destacaram nos momentos iniciais. Visualmente, nota-se logo a beleza daquele lugar, todo um cenário montado de raiz. Neste aspeto, é irresistível não sentirmos uma certa vontade de voar para ali, ainda que previamente seja óbvio que coisas estranhas podem começar a acontecer a qualquer momento. 

Não tarda muito a que comece a haver um pouco de “ação” (se assim podemos chamar) relacionada com as tradições daquela comunidade, que, naturalmente, são excêntricas aos olhos do grupo de estrangeiros e também aos do espectador. Admito que, tendo visto Hereditário e sabendo o que podia esperar da mente de Ari Aster, pensei que me ia sentir desconfortável a ver determinadas sequências, mas, infelizmente, isso não aconteceu e senti-me apenas indiferente. Por outro lado, na sessão houve pessoas que até acharam piada a determinados momentos, levando várias gargalhadas a soar em uníssono na sala. Dito isto, é inevitável não notar que talvez haja aqui algum humor derivado do inusitado de várias sequências e do facto de as tradições daquela comunidade serem tão “diferentes”. 


Ao longo da trama existem vários momentos cantados e com danças, mas mesmo assim senti que algumas sequências estavam demasiado silenciosas, sem nenhuma banda sonora a soar e isso levou-me a sentir um tanto desconfortável – o que, acredito, é um dos grandes objetivos do filme, mas também não o senti em pleno, apenas nos momentos de silêncio. De acordo com Ari Aster, a sua director’s cut terá mais momentos “musicais”, então ficarei a aguardar por isso, pois também senti uma certa falta de momentos mais agitados. 

Como já referi, a personagem de Dani é aquela que apresenta um background mais sólido, ainda que alguns aspetos tenham ficado em aberto. É curioso ver o modo como esta começa por se apresentar como uma personagem bastante instável e depois passa a adaptar-se ao ambiente no qual está agora inserida. Neste ponto, a sua relação com Christian é mais expressiva e vemos o modo como os dois tentam superar determinados obstáculos ou simplesmente tropeçam neles levando a um desfecho um tanto agridoce. Se durante o primeiro ato do filme Dani era vista como uma louca, é interessante notar o seu crescimento enquanto personagem e destacar o modo como se torna mais sólida a partir do momento em que encontra um “ombro amigo”.


Admito que as minhas expectativas para este filme estavam para além de elevadas depois de ter sido tão agradavelmente surpreendida com Hereditário. Talvez este seja o motivo que me levou a sentir uma certa desilusão, mas tenho de dizer que senti que a história era demasiado simples para algo tão longo. Muitos momentos da comunidade sueca não acrescentam nada à narrativa e existem apenas para tentar tornar tudo mais awkward. Os momentos iniciais parecem distantes de tudo o resto, pois apenas são retomados em parte. O tema principal do filme vai-se desenvolvendo e destacando-se ao longo dos minutos, mas não ficará um pouco aquém de tudo aquilo que este filme podia ter apresentado? Dito isto, não posso dizer que não gostei do filme: na verdade levou-me a sentir que estamos perante uma visão completamente nova no cinema. Apenas senti que podia ter sido algo melhor, com uma narrativa mais intensa e com momentos ainda mais constrangedores.

7/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

6 comentários:

  1. Não vi o filme. Motivo pelo qual não me é dado fazer qualquer comentário, sobre a sua ou não boa qualidade!

    O que nada me impede é de desejar-lhe uma boa tarde de Domingo Joana Grilo.

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  2. Não conhecia o filme, e não estou muito certa de que faça o meu género, mas não digo que não o veja uma vez que surja a oportunidade! :)
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    1. Este é de um género muito específico, então só recomendo se estiveres com o espírito virado para algo assim diferente! 😛

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  3. Não conhecia o filme, mas achei a premissa interessante. Pena que não tenha explorado tanto os aspetos que mencionaste

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    1. De qualquer modo, não deixa de ser um filme interessante e diferente! 😊

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