sábado, 28 de setembro de 2019

"Variações" em análise

Demorou, mas finalmente fomos ver um dos dois filmes portugueses que têm andado na berra ultimamente: Variações, realizado por João Maia e protagonizado por Sérgio Praia. Seguindo a onda de biopics, com o sucesso de Bohemian Rhapsody e Rocketman lá fora, também nós aqui em Portugal tivemos direito a um filme do género, mas, claro, mais pequeno na sua realização, ainda que a qualidade seja mais do que suficiente para alcançar os calcanhares destes dois acabados de referir. 


O filme começa por transportar-nos para a infância de António Ribeiro, através de pequenos flashbacks. Este início é fundamental para enaltecer o quão diferente Variações era naquele tempo, pois somos introduzidos às suas raízes numa aldeia rica em tradições e depois à medida que a narrativa vai avançando percebe-se que António se desapegou daquele lugar (mas sempre mantendo-o no coração) e ganhou influências pelo mundo fora, levando à modificação da sua persona, mas sempre mantendo-se fiel a si mesmo. Neste aspeto, é de destacar que o modo como vários acontecimentos são apresentados foi pensado para construir da melhor maneira a personagem principal, apresentando o seu crescimento de um modo fidedigno e inteligente. 

À medida que o protagonista vai viajando, somos também levados a conhecer novos locais, através de um estilo de cinematografia capaz de transmitir tudo o que rodeia o protagonista de um modo que acentua a diferença dos lugares por onde este vai passando. Destaco os momentos em que este regressa à sua aldeia natal, onde somos rodeados pela natureza e sentimos toda a calma daquele sítio em contraste com as sequências em discotecas, repletas de luzes desfocadas. 


Sérgio Praia é o ator que interpreta António Variações e consegue fazê-lo brilhantemente, tendo, para além de uma caracterização capaz de o tornar extremamente idêntico, adquirido todos os gestos do artista, tornando a sua representação muito respeitável. Neste filme, e ao contrário do que infelizmente aconteceu em Bohemian Rhapsody, é o próprio ator que canta e, ainda que as diferenças entre a sua voz e a de Variações sejam notáveis, este é capaz de transmitir na melodia toda a essência que o cantor na altura queria transmitir nas suas canções, pelo que não é difícil adaptarmo-nos à sua voz e rapidamente sentimos que estamos a ver e a ouvir o próprio Variações. 

Percebe-se bem que o centro das atenções do filme é apenas Variações e infelizmente algumas personagens secundárias vêm e vão sem que se note muito a sua falta. É o caso de Rosa Maria, a personagem interpretada por Victoria Guerra, que consegue espalhar o seu charme, mas torna-se vazia na narrativa, pois o seu objetivo aqui é apenas acentuar algo sobre o protagonista que é do conhecimento público. 


Neste momento resta-me apenas destacar a qualidade das caracterizações, que nos levam a viajar para o tempo em que a trama tem lugar. O guarda-roupa é muito elaborado e não se pouparam a diversificá-lo ao máximo, pois vemos o protagonista sempre com roupas muito diferentes e fiéis às originais. A qualidade dos cenários também é de realçar, pois tudo foi adaptado de modo a ficar o mais idêntico possível ao que se vivia na altura. 

Variações é um filme que é capaz de ir para além da música e da figura, introduzindo-nos a aspetos importantes de António e o modo como este lidava com algumas situações na sua vida. A construção da sua personagem é, por si só, suficiente para que este filme seja um orgulho nacional, mas, felizmente, não se fica só por aí, pois apresenta também uma história (que é, no máximo possível, verídica) bem estruturada e momentos musicais inesquecíveis – como é o caso das sequências no Trumps.

8/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

7 comentários:

  1. Quero tanto ver o filme... mas não tenho tempo xD

    ResponderEliminar
  2. Gostei muito de ver o filme. Fiquei com uma imagem bonita de Variações (a que guardava da infância era a de um homem estranho, que se vestia de uma maneira esquisita!!!). Tive pena que algumas das canções mais emblemáticas não tivessem figurado no filme. Mas não dava para tudo, não é?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade! Mas, mesmo assim, ainda deu tempo para mostrar alguns bons êxitos!

      Eliminar