segunda-feira, 28 de outubro de 2019

À conversa com a equipa de "Mutant Blast"

O cinema português está a passar por uma fase maravilhosa, não só devido a uma maior quantidade de filmes a estrear, mas essencialmente por uma grande diversidade de géneros. Eu sei que já falamos aqui sobre o Mutant Blast desde Maio, mas volto a realçar: este é um filme completamente diferente no panorama cinematográfico nacional. A sua estreia em salas de cinema deu-se, finalmente, no passado dia 17 de Outubro. Depois de duas antestreias concorridas no Porto e em Lisboa, o realizador, elenco e ainda o produtor Lloyd Kaufman da TROMA fizeram uma espécie de “digressão” em várias sessões especiais. A primeira foi precisamente nessa quinta-feira, no Cinema do Colombo em Lisboa, onde estiveram presentes o realizador Fernando Alle, os atores Pedro Barão Dias e Joaquim Guerreiro, e, claro, o fundador da TROMA e a sua esposa Pat Swinney Kaufman, com quem estivemos à conversa. 



Para começar, quisemos saber como foi a experiência de fazer o Mutant Blast. “O Mutant Blast foi uma experiência incrível. É um filme sobre amizade e isso aconteceu por detrás das câmaras; todos se uniram para fazer este filme e houve um grande espírito de equipa. Eu, sinceramente, ainda não consegui processar o que sinto agora com o processo de fazer o Mutant Blast porque sinto que ainda não saiu. O filme estreou hoje e temos ainda muito trabalho pela frente para promover o filme e só daqui a umas semanas é que conseguirei processar tudo aquilo que aconteceu, mas acho que o filme já provou o que tinha a provar. Já foi selecionado para imensos festivais de qualidade e foi um ano incrível”, disse-nos Fernando Alle. Joaquim Guerreiro descreveu-a como “fantástica! Maravilhosa! Foi uma experiência única que eu não estava à espera aos meus 53 anos. Talvez esperasse isto aos 30, mas penso que veio na altura certa”, acrescentando que sempre esteve preparado para fazer as suas duas personagens, o TS-504 e o TS-347, “só tive de esperar que elas surgissem, que surgisse algum realizador com esta visão, como o Fernando Alle, que no mundo dele fizesse um filme como este e que me procurasse para fazer uma personagem deste género”. Já Pedro Barão Dias disse que “toda esta experiência tem sido incrível. O concretizar de um sonho porque eu sempre amei cinema. Sempre foi a minha vida e poder fazer parte de um mundo que, ainda por cima, envolve zombies, que é outra paixão, envolve comédia, nonsense… Isto tem tudo a ver comigo! Sem grandes tretas, a verdade é que poder ter tido a honra de receber um prémio de melhor ator por ter feito um filme destes... Isto para mim é que é a cena! É isto que faz valer tudo. Toda esta experiência tem sido incrível. Ainda não acabou. Ainda só estamos na semana de estreia e eu só estou a projetar o meu futuro de 48 em 48 horas, porque eu estou a absorver este presente todo. E este presente está a ser fantástico. Não há palavras…”. 

A Companhia Cinéfila com Joaquim Guerreiro, Fernando Alle e Pedro Barão Dias na estreia do Mutant Blast.

O filme viajou bastante antes de regressar a Portugal, cerca de um ano depois de ter tido a sua estreia no MOTELX 2018. Passou por vários festivais nos mais diversos cantos do mundo e, como Pedro Barão Dias contou, foi merecedor de um Prémio de Melhor Ator e também de Melhor Argumento no Fantaspoa. Será que essa recepção nos festivais, tendo sido tão positiva, vai ter alguma influência aqui no público português? “Eu espero que a recepção que tem tido nos festivais faça com que os portugueses apostem neste filme, que é muito diferente. Agora em Novembro vai estar no Festival de Leeds, onde vai ser exibido também o novo filme do Martin Scorsese e do Terrence Malick. Está com companhia de peso. E eu espero que os portugueses vejam isso como uma garantia de que o filme realmente tem qualidade”, disse-nos Alle. 

A estreia de Mutant Blast no Colombo contou com a presença de uma parte do elenco e da equipa de produção.

Este filme é uma verdadeira surpresa. Se nos primeiros minutos parece que o seu tema principal vão ser os zombies (experiências científicas que deram para o torto!) e uma espécie de exterminadores, a determinado momento começam a aparecer determinadas personagens que alteram o rumo da história. Jean-Pierre, a lagosta gigante, e o grupo de Carlos são exemplos perfeitos disso, pois através dos seus diálogos levam-nos a refletir. Quisemos saber como Fernando Alle teve a ideia de transmitir algumas ideias ligadas ao ambiente num filme deste género. “Eu não quis dar uma mensagem dessas neste filme, mas ele acaba por ter algumas mensagens um pouco ambientalistas porque as minhas ideias fluíram no meio da escrita do argumento. Eu simplesmente acho que não fazia sentido pregar uma mensagem se não estivesse a fazer as pessoas rir. Eu não quero distrair as pessoas e levá-las a ficar contra o filme por pensarem que lhes está a ser imposta uma mensagem. Mas quando isto é feito através de momentos cómicos, a pessoa nem pensa nisso quando acontece, mas sim apenas no final quando reflete sobre isso”. 


Como acompanhamos o filme já há uns meses, percebemos que o caminho para chegar aos cinemas não foi propriamente fácil. Pedro Barão Dias, para além de ter interpretado o protagonista Pedro, também contribuiu para a sua distribuição nos cinemas com a Alright Creative Studios. Quisemos saber os motivos que o levaram a assumir tantos papéis na história do Mutant Blast. “Foi tudo pela grande amizade que eu tenho com o Fernando e pelas necessidades que começaram a surgir, porque o Fernando queria ser um one-man-show, mas a determinada altura eu também quis ajudá-lo, porque eu precisava do meu realizador on set com noites dormidas. Ele chegava ao set só com duas horas de sono e isso é um bocado contraproducente. Então eu disse-lhe que ia editar o filme com ele e depois comecei a ver que ele precisava de ajuda na produção, então decidi também ajudá-lo e mesmo também a nível criativo, dar-lhe dicas e essas coisas. E agora na questão da distribuição. Nós amamo-nos e acreditamos tanto neste filme... Eu até costumo dizer que este é o filho biológico dele e o meu filho adotivo. Então decidimos levá-lo para bom porto e distribuí-lo o melhor que conseguíssemos e esforçamo-nos ao máximo para que tivesse sucesso”. 

A máscara do Toxic Avenger, um autêntico ícone da TROMA.

Claro que também quisemos questionar o próprio fundador da TROMA, Lloyd Kaufman, acerca do motivo que o levou a apoiar este filme. O que este viu no realizador Fernando Alle? Acompanhado pela sua esposa Pat Swinney Kaufman, tivemos uma resposta bastante completa e sincera. “A Pat e eu conhecemos o Fernando num festival de retrospetiva da TROMA em Espanha, talvez há mais de dez anos. E o Banana Motherfucker estava no festival e achámos hilariante. Foi uma grande surpresa que o Fernando fosse fã da TROMA. Depois quando fizemos o Return to Nuke ‘Em High, o Fernando pagou o seu próprio bilhete para os EUA para trabalhar connosco no filme. Todos gostaram dele; não era apenas um excelente cineasta, mas também uma ótima pessoa. Então quando ele teve esta ideia, o meu parceiro Michael Hertz decidiu apoiá-lo com algum dinheiro. Depois, felizmente, o Governo Português também decidiu apoiar. E assim surgiu este primeiro filme português de horror moderno”. Pat enalteceu: “o que vimos nele foi que era muito talentoso, divertido e já tinha feito um filme terrífico, o Banana Motherfucker, e também o Papá Wrestling. Essa combinação e o facto de ele ser tão trabalhador e confiante foi o suficiente para decidirmos apoiá-lo”. No final, ambos acrescentaram que “o Mutant Blast é um filme divertido e tem efeitos muito bons e também um tema ambiental. Então é interessante para a juventude, porque é artístico, com temas sérios, bons diálogos, boas interpretações. É ótimo! E com um baixo orçamento! Agora estamos entusiasmados por os portugueses finalmente terem a oportunidade de o ver. Quase todas as pessoas que já o viram adoraram e as críticas foram ótimas”. Em formato de piada, disseram ainda que “o Toxic Avenger é um grande fã do Mutant Blast, assim como outros amigos da TROMA, como o Filipe Melo e o António Raminhos, que também estiveram envolvidos no nosso mais recente filme, Shakeaspeare’s Sh*tstorm”. 

A Companhia Cinéfila com Pat Swinney e Lloyd Kaufman.

Infelizmente, a estadia de Mutant Blast nos cinemas já está perto do fim, deixando de estar em exibição já na próxima quinta-feira. Então, resta-nos deixar aqui breves incentivos para que o vejam enquanto é possível. Pedro Barão Dias recomenda-o como sendo “inovador, nunca foi feito nada assim em Portugal. Mas também a quantidade de festivais internacionais em que o filme esteve e os prémios que recebeu lá fora mostraram-nos que também é inovador a nível internacional. Portanto, apostem no filme, arrisquem. Eu tenho a certeza de que vão sair da sala de cinema contentes e divertidos, porque o filme é isso mesmo: uma viagem fantástica que vos vai deixar bem dispostos”. Joaquim Guerreiro disse que “este é daqueles filmes que, como o meu pai dizia antigamente, «contado não tem graça, só vendo». É um filme único, pioneiro, divertido. É hilariante do princípio até ao fim, apesar de ser um filme de terror. Tenho muito orgulho de fazer parte de um projeto destes e é um momento muito bem passado. Um filme muito bem feito, com muito profissionalismo, sobre amizade… Feito com muito amor. Acho que as pessoas devem ver por isso mesmo”. Fernando Alle diz que “o público português tem mesmo de apostar neste filme, que é muito diferente e já tem a sua qualidade comprovada. Tem sido aclamado pela critica internacional e tem de fazer sucesso para termos coisas novas e vermos mais realizadores a fazerem filmes de ação, de ficção científica…”. Por fim, Pat Swinney Kaufman, entusiasmada, disse-nos que “é explosivo”!

Aqui seguem, agora, as nossas conversas com Fernando Alle, Pedro Barão Dias, Joaquim Guerreiro, Lloyd Kaufman e Pat Swinney Kaufman em vídeo...



SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

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