quinta-feira, 24 de outubro de 2019

À conversa com o realizador Jorge António

No dia 8 deste mês deu-se, na Livraria Linha de Sombra na Cinemateca Portuguesa, o lançamento do DVD do filme Outros Rituais Mais ou Menos de Jorge António, um documentário que acompanha a encenação da coreógrafa Ana Clara Guerra Marques juntamente com a Companhia de Dança Contemporânea de Angola. Aproveitámos o momento para conversar um pouco com o realizador sobre as dificuldades que o cinema angolano ultrapassa neste momento, problemas de distribuição dos seus filmes em Portugal e novos projetos.


Começámos por questionar como vai o mercado cinematográfico em Angola e se este está melhor em comparação com o português. Jorge António, que costuma passar mais tempo no país africano, respondeu-nos que nunca deixa de acompanhar o cinema nacional, especialmente porque é membro da Academia Portuguesa de Cinema e também da Associação Portuguesa de Realizadores (APR). Por esse motivo, tem a obrigação de ver os filmes na altura dos prémios da Academia, quando todos os membros têm de votar. Admitiu ainda que consegue ir acompanhando os novos lançamentos através de notícias e entrevistas. “Vou acompanhando. Acho que houve algumas alterações que foram positivas, ainda que haja outros sistemas que precisam de ser alterados. Mas isso é a luta das associações com as políticas dos governos, de quem está nas direções. Não se pode dizer que o cinema português, de um modo geral, esteja pior. Acho que há coisas que estão muito bem e que, em termos de projeção internacional, a imagem do cinema português continua muito bem há anos, com os principais festivais a premiar filmes portugueses”, disse-nos. “É curioso que alguns filmes que estrearam recentemente tenham uma relação com o público e a vontade do público de ver filmes portugueses e com temas nacionais. É o caso destes dois últimos, Variações e A Herdade. As pessoas foram ao cinema e tiveram o que eu acho que devia ser o público normal. Não é preciso uma campanha extraordinária para atrair as pessoas ou ter um canal de televisão com grandes campanhas. De repente as pessoas foram ver o filme, porque tem um tema português, é bem filmado. Isso parece-me que pode ser, de alguma forma, um sintoma de mudança dessa relação com o público”. 

Lançamento do DVD do filme Outros Rituais Mais ou Menos com a presença do realizador Jorge António, de Mário Tendinha, da coreógrafa Ana Clara Guerra Marques e de alguns bailarinos da Companhia de Dança Contemporânea de Angola na Livraria Linha de Sombra.

Por sua vez, “em relação a Angola, aí sim, acho que a situação mantém-se na mesma, ou até pior, porque continua a não haver uma estratégia do governo para apoio ao cinema. Com a crise que se instalou desde 2015/2016 não há dinheiro para nada, muito menos para apoiar o cinema. Os filmes dos jovens realizadores carecem de algum sentido, de trabalho na sua estrutura narrativa, nos argumentos, são filmes de série Z, com poucos recursos, a imitar modelos de outros sítios, sem criatividade. Se houvesse alguma criatividade, alguma proposta, poderia ser interessante, mas não existem muitas ideias novas nesses filmes. Os realizadores, digamos, mais consagrados, também só obtém os fundos de co-produção. Têm de vir a Portugal e a verdade é que nos últimos anos também aumentou a concorrência, no sentido em que há mais pessoas a filmar, novas gerações, até porque o digital e os canais de televisão conseguem abrir outras portas. Há mais gente a filmar e há pessoas com talento e ideias e outras vão sendo ultrapassadas, naturalmente. Como fazer um filme em Portugal ou noutro sítio como Angola é uma coisa sazonal, uma pessoa faz um filme de cinco em cinco anos, não é um trabalho anual. Se calhar essas pessoas com a idade também vão fazendo outras coisas e vão deixando os filmes, vão deixando essa tentativa de procura de financiamento. Eu nunca tive essa procura de financiamento para fazer os filmes… Por isso Angola não é exemplo neste momento e eu acho que vai demorar algum tempo até o ser; tem de haver uma política do governo e um Ministro da Cultura com orçamento, pessoas com ideias a quem confiar dinheiro para fazer um filme, tem de haver uma projeção internacional, uma série de coisas que o cinema angolano não consegue ter. Exceção feita, obviamente, a uma pessoa que eu gosto e apoio que é um realizador angolano chamado Mário Bastos, que tem uma produtora chamada Geração Oitenta, onde fazem coisas profissionais, porque ele está preparado. Acabou agora uma longa-metragem e está a preparar uma outra. Eu acho que ele é o que tem mais possibilidades de transparecer esse contacto de produção com os filmes e é realmente o que tem mais formação e ideias, e a produtora dele, que são jovens talentosos também”.


Com toda esta dificuldade relacionada com o cinema em Angola, a nossa próxima questão tornou-se óbvia: então porquê continuar a fazer filmes com uma temática africana em vez de fazer algo com um tema português? “Essa pergunta é interessante, mas é fácil de responder. Ao mesmo tempo, tu vives num sítio e as ideias que tu tens têm a ver com a tua realidade. Eu não posso estar em Angola a ter ideias para um filme que se passa aqui em Portugal. Porque as ideias que tenho são histórias locais. Obviamente que tenho projetos que se passam cá e têm temáticas de cá, mas ainda não comecei a trabalhar nisso. Nos últimos anos é mais fácil, é mais objetivo, eu estar lá com ideias locais daquilo que conheço, dos contactos que estabeleço. E por outro lado isto também provoca do ponto de vista de estratégia de produção uma coisa curiosa que é que eu posso montar, apesar de tudo, co-produções com projetos de temática angolana, como são os meus documentários, e sendo portugueses posso sempre estabelecer essa ponte entre produções de dois países e ter fundos dos dois países”.


Em 2017, estreou nos cinemas nacionais o filme A Ilha dos Cães, o mais recente de Jorge António. No entanto, em Angola foi proibido nas salas comerciais. “O filme estreou em Abril de 2017 e em Agosto havia eleições para o novo presidente angolano... Acontece que a NOS enviou uma cópia do filme para Angola com uma nota a dizer que talvez o filme fosse mais interessante em Angola, porque é feito em Angola e com atores angolanos. E a resposta que veio de lá foi que acharam que o publico angolano não ia compreender o filme e a temática, num momento de conjuntura social com eleições, podia provocar alterações nas escolhas do público, por isso acharam melhor não exibir o filme. Eu tenho este relatório na minha posse, porque quando os jornalistas escreveram sobre isto, e saiu nos jornais, perguntaram ao responsável e afinal o filme não estreou porque não tinham salas disponíveis. Ou seja, não disseram a verdade e eu tenho comigo esse relatório da ZON em que eles mentem. É muito interessante, porque eles não viram o filme, viram o trailer. Ele com base num trailer de dois minutos disse que aquele filme podia ser prejudicial para o momento que vivíamos e que o público angolano não o ia compreender. Claro que depois toda a gente já viu o filme em Angola, porque quando se proíbe alguma coisa torna-se o objeto mais apetecível. Então toda a gente quis ver o filme e acabámos por fazer sessões privadas. E depois, passado uns meses, os canais da TVCine, que também passam em Angola, transmitiram o filme e toda a gente viu; desde manhã até à noite qualquer pessoa podia ver. Há sempre este poder e alguém que acha que sabe o que vai acontecer e na realidade a pessoa que decidiu isso, e o que acho triste e chocante, não só não viu o filme como achou que era só brancos a bater nos negros o tempo todo e o filme não é sobre isso”.


Na verdade, o filme passou mesmo por várias vezes nos canais TVCine por cá. No entanto, nunca foi lançado em DVD. Procurámos entender o motivo, até porque este filme apresenta a última prestação de Nicolau Breyner. “Sinceramente, a NOS não tratou muito bem o filme porque a única coisa que eles diziam era que filmes com negros não vendem em Portugal. Parece que é uma coisa recorrente, porque as televisões fazem a mesma coisa. Isto foi interessante, porque quando era para promover o filme a única pessoa que eles queriam era o Ângelo Torres, porque estava a passar uma novela com ele e por isso era reconhecido. Para além dele, o único que podia vender o filme era o Nicolau e já tinha falecido, então eles acharam que o podiam promover como sendo «o último filme do Nicolau Breyner». Aprendi imenso na produção d'A Ilha dos Cães. Por isso, do DVD não sei mesmo. Falei com a produtora e eles disseram «pois vamos ver, talvez no Natal»… Aquelas desculpas do costume… Aprendi imenso em todo este plano de produção. Mas agora acabamos a tournée e eu volto para Luanda e depois regresso em Fevereiro, precisamente por causa de projetos novos e nessa altura, se não sair até Fevereiro, eu peço à produtora que me deixe ser eu a fazer, porque eu gosto destes objetos. Sou dessa geração…”. 


E por falar em DVDs, Jorge António contou-nos uma história curiosa sobre outro dos seus filmes: O Miradouro da Lua. “O Miradouro da Lua tem duas edições em DVD esgotadas. Já tem duas capas diferentes. Depois d'A Ilha dos Cães, numa conversa com o anotador Paulo Guilherme, que também foi o anotador d’O Miradouro da Lua, disse que foi uma pena que se tenha perdido quase tudo o que foi filmado durante O Miradouro da Lua, em 1991, antes das primeiras eleições de Angola, uma época complicada. E ele disse-me «mas não se perdeu, eu fiz cópia para mim» e eu «como?». Então ele tinha em várias VHS, que estavam há vinte e cinco anos fechadas, cinco horas de material das filmagens d'O Miradouro que nunca tinham sido vistas. Estávamos a preparar um filme de vinte e cinco minutos, condensar as cinco horas, para fazer uma nova edição em DVD do filme, quando de repente, no Verão, passei por cá e telefonam-me do ANIM, o arquivo, a perguntar se estava interessado em fazer uma cópia digital d’O Miradouro da Lua. A cópia que eles têm lá é nova em 35mm, foi feita há dez anos mas está impecável. Então eles queriam a cópia digital para comemorar os trinta anos d'O Miradouro da Lua daqui a dois anos. Uau! Eu ia tendo uma apoplexia… Porque o Miradouro já vai fazer trinta anos. Aí o caso mudou de figura; fazer uma cópia digital, um blu-ray, pegar nos tais materiais do making of que ninguém viu e fazer uma festa, uma sessão aqui na Cinemateca. Trigésimo aniversário e faço uma sessão em Luanda, convida-se a equipa! E é isto que está previsto para O Miradouro da Lua, se esperarem mais dois anos, haverá uma box com fotografias e coisas várias… É giro, não é? Óbvio que é mau para mim, que já passaram trinta anos…”.


Para terminar, quisemos conhecer os novos projetos do realizador. “Eu neste momento tenho uma grande produção a acontecer. Estamos a trabalhar, eu sou o produtor executivo da primeira longa-metragem de animação do José Miguel Ribeiro, que é um projeto que se chama Nayola, baseado num conto do Mia Couto. Estamos em produção desde 2014, com financiamento de quatro países e oitenta desenhadores, vai ser em 2D e a produção efetiva arrancou agora em Outubro. Esse é um projeto que temos andado a trabalhar um bocado na sombra porque o cinema de animação é assim. Eu digo «arrancou agora», mas só vai estar pronto daqui a uns quatro anos. Quatro anos a fazer desenhos em equipas de quatro países. Para além disso, eu estou com o Virgílio Almeida a acabar dois guiões nossos, um projeto que eu já tinha e que estamos agora a encontrar um caminho; chama-se Sombras e no fundo tem a ver com refugiados, guerra da Rússia com a Ucrânia e que acaba em Portugal. Eu gosto particularmente de temas que nos sejam sensíveis, que sejam sociais, políticos, não mero entretenimento, digamos assim. Mas há sempre um lado fantástico, de série B, como A Ilha dos Cães, eu gosto de temas fortes. E o outro também é forte, um projeto que se chama Dias de Chuva, sobre um tema pouco falado no cinema português que é a guerra colonial e os traumas pós-guerra. Neste caso temos um personagem de setenta anos que perdeu tudo por causa da ida para a guerra. É mais uma forma de falar sobre um passado que já pouca gente fala, até porque já há gerações que acham que a guerra foi há muito tempo, mas não, ainda existe quem sofra por causa dos traumas que os pais e avós têm da guerra colonial. O Dias de Chuva é sobre isso. E vamos tentar procurar financiamentos, talvez em 2021 já haja alguma coisa. Então quando o Miradouro celebrar trinta anos, lanço um novo filme. Se bem que quando te dedicas à produção da Companhia de Dança Contemporânea achas sempre que tens tempo para conciliar as duas coisas, mas é impossível. Quando achas que tens tempo para escrever percebes que há nove meses que não tocas num projeto teu e sentes necessidade de organizar melhor 2020. Em Fevereiro já tenho na agenda ficar aqui um mês a ter reuniões e a fechar guiões.”
SOBRE O AUTOR

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

2 comentários:

  1. Tenho de me ir atualizar em relação à obra deste realizador, pois não o conheço, mas gostei de ler a entrevista. Deixou-me curioso.

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    1. Infelizmente, aqui em Portugal é difícil encontrar filmes deste realizador ... Não há mercado, como se costuma dizer 😢

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