domingo, 6 de outubro de 2019

"Maya" em análise

O sexto filme de Mia Hansen-Løve, por ela escrito e realizado, é uma pequena carta de amor à vida. Maya leva-nos numa viagem entre Paris e a Índia, onde a dinâmica da mudança de cenários contribui para uma experiência cinematográfica intensamente rica culturalmente. 


A trama começa por nos apresentar Gabriel Dahan, um homem na casa dos trinta anos que era repórter de guerra e foi mantido como refém na Síria. É depois de uma experiência traumática que este decide viajar até à Índia, país onde viveu na infância e que lhe traz boas recordações. O seu padrinho mora em Goa e é dono de um hotel. Quando Gabriel o visita, conhece Maya, uma jovem curiosa que é sua filha e que se tornará muito especial para Gabriel durante os seus meses de estadia. 

Neste filme, Mia Hansen-Løve entrega-nos um lado da Índia que não costuma ser levado para o grande ecrã muito frequentemente. É algo exótico e fresco, ainda que o calor dos dois protagonistas seja capaz de se sentir a uma longa distância. A paisagem natural é introduzida de um modo sublime, sem parecer forçado, pois é apresentada, na sua maioria, em gesto de intercalação durante as viagens de mota de Gabriel e de Maya, dando a oportunidade ao espectador de também viajar por aquelas mesmas estradas. 


A construção das personagens merece todo o destaque ao falar deste filme. Os momentos iniciais do filme pretendem precisamente apresentar a dose certa de informações sobre a vida do protagonista. Só assim somos capazes de desfrutar a sua viagem, pois conseguimos entender as suas motivações. A experiência traumática por ele vivida deixou marcas físicas – como é demonstrado nos primeiros frames – e, claro, psicológicas, que só conseguem ser curadas quando este encontra paz em si mesmo e naquilo que o rodeia. Já Maya é apresentada como uma jovem interessada pelo mundo e pelas pessoas. É a sua maneira de agir que leva Gabriel a encontrar nela um apoio, uma amiga e algo mais. O jeito ingénuo da rapariga contrasta com a perseverança do ex-repórter, mas com as suas diferenças nenhum deles deixa de ser uma personagem forte e facilmente conseguimos criar empatia com ambos. 

A experiência de Gabriel nunca deixa de ser relembrada. Este filme não esquece o seu início, como tantos outros tendem a fazer, deixando pontas soltas e transmitindo que a personagem recuperou com facilidade. Numa determinada sequência, a meio da noite Gabriel acorda com sussurros a chamar o seu nome. Podemos pensar: será que a voz era de Maya ou seriam apenas vozes na sua mente, os tais fantasmas que o assombram? 


Infelizmente, por alguns momentos senti que os diálogos soavam superficiais. Aliás, por melhor dizer, soavam muito simples. Mas questiono-me se a maioria de nós não vive a dizer frases simples e sem grandes significados. Mesmo assim, gostaria que algumas sequências tivessem tido falas mais aprofundadas, com mais significado. Ainda que Gabriel tenha dito logo no início que não é bom com palavras e sim com gestos e lá nisso o filme é capaz de transmitir muitos sentimentos. 

Por fim, não posso deixar de fazer uma breve observação que me parece ser bastante coerente. Durante o meu visionamento, notei algumas semelhanças entre este filme e o Chama-me Pelo teu Nome (2017) de Luca Guadanigno. São semelhanças a nível da estrutura e da experiência das personagens e não tanto relacionadas com a história. Vários momentos são idênticos, mas Maya traz uma vida própria e uma viagem nova. Por isso, esta observação serve mais para recomendar o filme a quem gosta da obra-prima de Guadanigno (e não só, obviamente). 


Maya revelou-se, para mim, uma surpresa e uma prova de que uma boa apresentação das personagens consegue levar a um resultado agradável. Este filme é uma autêntica viagem e uma busca por um refúgio. É uma fuga aos aspetos negativos do passado e ainda assim um regresso às origens. Mia Hansen-Løve fez aqui um trabalho extraordinário.

8/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

6 comentários:

  1. Fiquei bastante curiosa! Tenho mesmo que ver este filme *-*

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    1. Com a tua pão de forma, tenho a certeza de que vais adorar esta viagem! 😛

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  2. Ficámos mesmo muito curiosos. A verdade é que temos um gosto imenso por conhecer outras culturas e assim é uma excelente forma de o ficar a saber...

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    1. Ainda que este filme seja francês, dá muitas "vibes" de filme indiano. E se gostam de conhecer outras culturas, não posso deixar de vos recomendar cinema indiano. Ultimamente tenho ficado agradavelmente surpreendida com alguns que tenho visto. Vejam, por exemplo, "Fotografia" de Ritesh Batra!

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  3. Não estava sabendo desse filme, achei bem legal.
    A história é bem boa e interessante :)

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

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