terça-feira, 1 de outubro de 2019

"Yao" em análise

Penso que posso dizer que o cinema Francês tem algo especial que os típicos filmes de Hollywood não têm. É uma visão diferente de ver as coisas e de mostrar sem grandes produções e de um modo genuíno. Yao é o nome do mais recente filme francófono a chegar aos cinemas, realizado por Philippe Godeau e protagonizado pela dupla Omar Sy e Lionel Louis Basse. 


Começamos por ser vagamente apresentados a Seydou Tall (interpretado por Sy), um famoso ator francês que viaja para Dakar para promover o seu novo livro. Depois temos o jovem Yao (Basse) de treze anos, que vive numa aldeia no norte do Senegal, e que está disposto a uma longa viagem de quase 400km para conhecer o seu ídolo, Tall. Comovido com a admiração do jovem, o ator decide, então, embarcar numa aventura com o objetivo de levar Yao novamente para casa, depois de todos os esforços que este fez para o ver. Só que esta será uma viagem que se revela mais pessoal do que Tall ao início podia imaginar. 

O filme não se poupa a variar nos seus cenários, mostrando paisagens muito diversificadas de modo a transmitir a dinâmica e a distância da viagem que separa o Dakar e o Senegal, levando-nos por estradas poeirentas e pelas ruas caóticas das variadas cidades africadas que são visitadas. As fortes tradições das várias populações também são mostradas com todas as crenças a elas associadas, levando o filme para além da ficção e tornando-o mais real. Só pelo valor paisagístico e cultural já vale a pena ver Yao, pois todo ele é uma grande apresentação de novos lugares e culturas bastante diferentes da nossa, às quais Tall também não está habituado, pelo que este até é tratado por “branco” num momento cómico, levando a uma reflexão sobre a multiculturalidade. 


A banda sonora do filme tem em mente o local onde toda a trama se localiza, lembrando um clima quente e danças agitadas, com alguns ritmos de maracas, mas infelizmente não consegue destacar-se o suficiente. Em compensação, existe um momento interessante ao som da música “Three Little Birds” de Bob Marley que instala uma metáfora com a sua letra e as personagens e leva a uma espécie de premonição da conclusão da viagem. 

A dupla Omar Sy e Lionel Louis Basse é capaz de transmitir uma empatia muito forte, pois têm uma relação quase paternal. Ainda que as suas personagens sejam muito diferentes, a vontade de saber mais sobre cada um prevalece, levando, também, a uma grande viagem de descoberta pessoal e emocional e a uma capacidade enorme de calçar os sapatos do outro, de modo a tentar ver com uma nova visão, até porque no final o filme explora o conceito de identidade e é sobre uma busca por aquilo que nos deixa felizes. Infelizmente, as restantes personagens que vão surgindo parecem ser mal aprofundadas, deixando algumas pontas soltas cuja resolução fica à mercê do espectador. 


Yao resulta num filme agradável de se ver e capaz de nos levar instantaneamente numa longa viagem pelos caminhos africanos. É pena que a banda sonora e alguns aspetos da narrativa não tenham sido mais bem explorados. Ainda assim, vale muito a pena ver, seja pelos protagonistas ou pela história ternurenta e energética.

7/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

4 comentários:

  1. Vou levar esta sugestão, parece-me que vou gostar :)
    Excelente crítica, Joana!

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  2. Uma viagem longa por estradas de terra, lamacentas no tempo da chuva e empoeiradas no tempo seco. Bela paisagem africana, dá mais qualidade e beleza ao filme.
    Estive em Moçambique cerca de 30 meses e em Angola 7 anos. Angola maravilhoso pais aquele, a Baia de Luanda é um encanto.

    Tenha uma boa noite Joana Grilo.

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    1. Talvez um dia venha a conhecer esse encanto. Por enquanto, só viajo para África através dos filmes... Continuação de uma boa semana para si!

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