terça-feira, 5 de novembro de 2019

À conversa com o realizador Paulo Carneiro

Na passada semana fomos ver o filme Bostofrio, où le ciel rejoint la terre, o primeiro do realizador Paulo Carneiro. Imediatamente fomos levados da pequena sala do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) para aquela aldeia transmontana e ficámos a conhecer várias das pessoas que por lá habitam e os seus modos de vida. É esta a essência deste filme, que se apresenta em formato de documentário, contado por capítulos. No final da sessão, estivemos à conversa (de um modo muito informal, atenção, e sem grandes rodeios) com o Paulo. 


Uma ideia com que ficámos durante o filme é que Paulo foi muito bem recebido por todos aqueles que aceitaram conversar com ele; em determinados momentos, este aparece mesmo em casa das pessoas, o que faz com que também nós, enquanto espectadores, também entremos naqueles espaços privados. No entanto, as diferenças entre o realizador e as pessoas que aparecem são notáveis: seja no modo de falar, na maneira de vestir ou até na óbvia diferença de idades; é quase como se este parecesse um forasteiro, numa terra que tão bem conhece. A nossa conversa começou precisamente por aí: perguntámos ao Paulo como é que as pessoas reagiram quando contou que queria fazer um filme. “Eu estive em Bostofrio um ano antes de fazer o filme. Eu costumava ir lá. As pessoas que estão no filme conhecem-me. Um ano antes estive lá durante um mês com uma câmara e tinha a ideia de que podia fazer um filme sozinho: só eu com uma câmara. Mas depois percebi que sozinho não ia conseguir, por questões técnicas e estéticas. Era complicado, até com o som e as questões do microfone e da distância, o modo como eu filmo. Mas de qualquer das formas estive lá um mês, porque é uma espécie de forma de viver num outro tempo, sem internet, rede de telefone… Achei que fazia sentido para entender a ambiência e pensar em como podia filmar aquilo. Fiz estes testes de câmara, mas depois comecei apenas a passar os dias a andar de um lado para o outro, pelos campos, a falar com as pessoas, ver o gado, etc. Mas nunca confrontando as pessoas com as perguntas que levanto durante o filme, pois essas só abordo aqui pela primeira vez”. 

A ideia de Bostofrio não surgiu somente com o objetivo de ir para o grande ecrã. Na verdade, é muito mais pessoal que isso. “Antes de existir cinema na minha vida já eu tinha estas dúvidas [sobre o seu avô], então por isso é que pensei em fazer o filme, para responder a todas estas questões que eu tinha”, disse-nos Paulo. No entanto, sendo este um tema sensível, nota-se pela reação das pessoas apresentadas no filme que foram realmente apanhadas de surpresa. Também o próprio realizador é, em determinados momentos, perante algumas das respostas que são dadas. “Eu sei que a presença da câmara limita sempre, mas para mim era uma forma de me confrontar através da câmara, porque estou presente em frente à câmara e também não sei qual será a minha reação quando estou a ser filmado. Mas sempre pus uma barreira para nunca julgar, digam as pessoas o que disserem. Há ali um ou dois momentos no filme em que eu acho que me salta a tampa, por questões pessoais, como é óbvio. Pus essa barreira de não julgar as pessoas, até porque sabia que podiam dizer mal da minha avó, da minha família… Acaba por fazer parte da construção do filme. As pessoas foram confrontadas com aquelas questões apenas naquele momento, mas já sabiam que eu ia fazer um filme. Sabiam que era qualquer coisa sobre o meu avô, mas nunca desenvolvemos. Quando, antes das filmagens, começavam a falar sobre esse assunto eu ia embora”. 


Apesar de tudo, a ideia de fazer um filme não teve um grande impacto na população da pequena aldeia: “Reagiram com naturalidade. Até porque há uma distância da câmara. É o som que acaba por dar uma maior presença. É uma coisa que me interessa trabalhar e que tenho vindo a desenvolver. No fundo, numa aldeia como esta, as pessoas são trabalhadoras, trabalham ali. Desvalorizaram um bocado, mas está tudo bem, está tudo certo. Faz sentido, é o trabalho deles. Nós também não ocupávamos muito tempo e as pessoas querem-me bem. Já éramos amigos e havia sempre aquela coisa de nos receberem com chouriços, alheiras, antes de filmar… Mas sem darem grande importância, pois a vida deles é aquela”. 

Nota-se, precisamente, em vários momentos que “as pessoas são trabalhadoras”, pois somos levados para o campo onde temos acesso ao modo como estas se sustentam. “É um filme um bocado iconográfico”. Precisamente sobre isso, algo que achámos curioso é o modo como a paisagem é apresentada, nomeadamente no que toca à presença dos animais (vacas, galinhas, cães), em momentos muito passageiros que nunca desviam a atenção do tema principal do filme. “Apesar de tudo, há uma coisa que eu acho muito importante: o filme não se perde no exotismo da ruralidade. Ou seja, eu filmei, mas isso não me interessava porque era uma coisa natural para mim. Sempre que fui a Bostofrio havia ovelhas, vacas… Então acho que fazia sentido estarem ali. Eu filmei, mas não filmei muito. É algo que está presente, não dá para tirar. Não há uma acentuação nisso, mas claro que há esse lado iconográfico e isso continua a mostrar que este é um lado de Portugal que ainda não deixou de existir, ao contrário do que muitas pessoas pensam”. 


Em relação a um lado mais técnico, questionámos o Paulo, essencialmente, acerca do som. Este é um filme em que o som provém de sítios distantes: por exemplo, a determinado momento temos uma paisagem da serra, com Paulo a caminhar bem longe, mas ouvimo-lo a gritar como se este estivesse num primeiro plano. Quisemos saber como foi, então, o processo de captação de som. “O som é todo direto. Os diálogos são todos em direto, não há nada dobrado. Se foi difícil… O que acontece é que nós metíamos os microfones, depois íamos filmar outra pessoa e voltávamos. Os microfones eram bons e claro que depois há um trabalho de pós-produção. Mas o som direto foi realmente importante. As pessoas tinham lapelas e existia também um microfone stereo para filmar o ambiente, que também é direto. Por vezes havia interferências, que tínhamos de arranjar sempre. O diretor de som era muito bom. Claro que há alguns efeitos, mas isso está relacionado com os empurrões que queremos dar ao espectador”. 

Para terminar, fizemos a grande questão ao Paulo: “sentes-te mais completo agora?”. “Claro que foi importante para mim, porque há uma série de coisas que eu não sabia e descobri quando estava a fazer o filme. Ofereci o Bostofrio ao meu pai, que teve bastantes dificuldades, mas conseguiu oferecer uma vida tranquila a mim e à minha irmã. Sempre pensei em oferecer-lhe o filme e isso foi uma questão importante. E, claro, a nível de identidade o filme vale um bocado. É importante para nós conhecer as nossas origens e as pessoas que acabam por ter influência nas nossas vidas. O facto de o meu pai não ter sido perfilhado teve influência no modo como nos tratou e educou. Andamos todos à procura de saber quem somos e nesse caso o filme ajudou-me imenso. Agora é preciso saber o que o público vai achar”. 


Já não falta muito para saber a opinião do público, pois Bostofrio chega aos cinemas esta quinta-feira, dia 7 de Novembro, e vai trazer várias sessões especiais por todo o país, com a presença do realizador e de alguns convidados. Aqui segue a lista: 
  • 7 de Novembro às 19:15h no Cinema City Alvalade – com a presença de Paulo Carneiro e Andre Valentim Almeida (realizador, montador do filme e professor universitário) e Margarida Leitão (realizadora e professora universitária); 
  • 8 de Novembro às 22:15h no Espaço Nimas - com a presença de Paulo Carneiro e Manuel Mozos (realizador de "Cinzas e Brasas"), conversa moderada por João Pedro Bénard (produtor e ator); 
  • 9 de Novembro às 18:30h no Teatro Municipal do Porto - com a presença de Paulo Carneiro e Ricardo Vieira Lisboa (crítico de "À Pala de Walsh", programador e realizador); 
  • 10 de Novembro às 19:00h no Cinema City Leiria - com a presença de Paulo Carneiro e Alvaro Romão (realizador leiriense e assistente de realização); 
  • 11 de Novembro às 19:15h no Cinema City de Alvalade - com a presença de Paulo Carneiro e Francisco Louçã (economista e político); 
  • 12 de Novembro às 19:15h no Cinema City de Alvalade - com a presença de Paulo Carneiro e Tiago R. Santos (argumentista), conversa moderada por Pedro Florêncio (realizador e professor universitário); 
  • 13 de Novembro às 19:15h no Cinema City de Alvalade - com a presença de Paulo Carneiro e João Pedro Vala (crítico literário), conversa moderada por Renata Ferraz (investigadora, atriz e cineasta); 
  • 13 de Novembro às 21:30h no Cinema Charlot (Auditório Municipal de Setúbal) - com a presença de Paulo Carneiro no final da sessão para conversa com o público;

Sinopse: Numa aldeia remota no interior de Portugal, um jovem realizador quebra a lei do silêncio para desenterrar a história dos seus avós. Bostofrio é composto por uma série de entrevistas, tão íntimas quanto divertidas, nas quais é o próprio realizador que se implica na ação e questiona os habitantes (muitos deles, seus familiares) sobre quem era, e como era, o seu avô. Nesta investigação, que simultaneamente observa os gestos do trabalho enquanto puxa pela língua das gentes, levanta-se o véu de uma ruralidade ainda cheia de segredos e meias verdades.


A nossa análise ao filme já está disponível aqui!
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

2 comentários: