sábado, 2 de novembro de 2019

"Bostofrio" em análise

Chega na próxima quinta-feira, dia 7 de Novembro, aos cinemas mais um filme falado em português, mas desta vez com um sotaque transmontano: Bostofrio, où le ciel rejoint la terre, o primeiro do realizador Paulo Carneiro, que nos leva para as terras da sua família à procura de respostas para questões sobre o seu passado, mais concretamente sobre o seu avô. 


A narrativa divide-se em doze capítulos que funcionam como um puzzle. É a partir de simples questões relacionadas com o seu avô que se desenvolvem conversas com os habitantes de Bostofrio, cujas palavras acabam por se conectar, constituindo uma história contada através da oralidade – que, como toda a tradição oral, nem sempre deixa os habitantes de acordo. Paulo, que naquela aldeia maioritariamente preenchida por uma população idosa mais parece um forasteiro, serve de elo de ligação e, por isso, em vários momentos aparece a dirigir-se a vários locais e a ir ao encontro das pessoas, com quem tem conversas espontâneas que nem sempre seguem o caminho que este deseja. 

Nesta sua viagem, não só ficamos a conhecer as respostas às suas perguntas - ainda que vagamente pois resultam apenas das memórias de familiares e amigos, transmitidas oralmente durante décadas -, mas, acima de tudo, somos levados para um território remoto, que nos dias de hoje já é quase inimaginável. É notável a dicotomia presente no filme, a começar logo pelo subtítulo où le ciel rejoint la terre, que estabelece uma divisão entre o céu e a terra, como se estes se unissem apenas naquela aldeia. Mas, acima de tudo, é o contraste entre o passado e o presente que mais se destaca nas variadas conversas aqui apresentadas, que acentuam ao máximo as mudanças, até mesmo naquela aldeia tão longe de todas as evoluções tecnológicas. Neste ponto, é curioso refletir sobre o impacto que algumas áreas do saber tiveram no modo de pensar acerca daquilo que vai para além do conhecido. A história do avô de Paulo acaba por servir apenas de mote – para o realizador é uma descoberta pessoal sobre a história da sua família, claro - para que o espectador vá para além das conversas, revelando não só as gentes de Bostofrio, mas também as suas tradições de um modo tão genuíno que quase nos faz sentir em casa. 


O facto de as conversas acontecerem nos mais diversos lugares ajuda-nos a compreender melhor o modo de vida das pessoas da aldeia. Não há um limite de espaço. Invés disso somos transportados até ao campo, onde as pessoas são apanhadas a meio do trabalho; ou vamos até às suas casas, onde estas contam as suas histórias sentadas entre mantas e lareiras improvisadas. De qualquer modo, sente-se um certo conforto na abertura com que as conversas se desenrolam, até porque Paulo respeita os seus “entrevistados”, não sobrepondo a sua voz à deles e deixando a conversa fluir, mas talvez também porque as pessoas estão num território que tão bem conhecem. 

O trabalho de fotografia é luminoso e amplo. No caso dos planos de paisagem, por momentos existem pequenos pormenores, que, ainda sendo passageiros, contribuem para aumentar a beleza do filme de um modo natural - há vacas a pastar, cães a ladrar, galinhas a cacarejar -, mas a atenção dada é apenas momentânea, não correndo o risco de se afastar do objetivo do filme. Acontece que estes são elementos reais e contribuem para a autenticidade no modo como se apresenta Bostofrio. Por sua vez, também o trabalho de som é de destacar, pela sua nitidez, mesmo quando as conversas ocorrem longe do local de filmagem. 


Este é um daqueles filmes que tem uma alma muito própria. É uma viagem até à aldeia isolada de Bostofrio e é uma homenagem às pessoas; não só aos familiares de Paulo, mas ao que nos torna humanos: a nossa capacidade de comunicar, de agir, de sentir. É um documentário diferente, mas cheio de franqueza e sentimento.

8/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

8 comentários:

  1. Oi Joana, tudo bem?
    A trama não me chamou a atenção, mas achei a fotografia linda!
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

    ResponderEliminar
  2. Não estava sabendo desse filme ainda, mas parece ser muito bom!
    Gostei :)

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

    ResponderEliminar
  3. Confesso que ainda não conhecia.
    Beijinhos
    http://virginiaferreira91.blogspot.com/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Só começou a ser mais divulgado agora na semana de estreia.

      Eliminar