sexta-feira, 22 de novembro de 2019

"Doutor Sono" em análise

No final do passado mês de Outubro chegou aos cinemas a mais recente adaptação cinematográfica de um livro do Mestre do Horror, Stephen King: Doutor Sono, sequela de The Shining. O problema de ser uma sequela começa por uma decisão: seguir o filme ou o livro? As mudanças na história foram, desde logo, confirmadas pelo realizador Mike Flanagan, no entanto o próprio King referiu que tinha gostado do filme, mesmo sendo do conhecimento do público que este nunca foi fã do filme de Stanley Kubrick. Esta análise chega apenas agora por um simples motivo: eu acabei de ler o livro do Doutor Sono na semana passada e não queria ir ver o filme sem antes terminar de o ler. Dito isto, aqui vamos nós para uma análise, onde vou tentar evitar grandes comparações com a obra literária – isso ficará para um artigo futuro. 


A trama passa-se vários anos depois dos acontecimentos de The Shining e temos um Dan Torrance adulto a seguir os passos do pai: está no fundo do poço, sem trabalho, casa e, para piorar, é um alcoólico toxicodependente. É quando chega a Frazier que encontra Teenytown, uma pequena cidade onde vai encontrar um emprego perfeito como condutor de um pequeno comboio. À medida que Dan tenta melhorar o estado da sua vida, começa a receber o contacto de Abra, uma jovem rapariga que, tal como ele, possui o “brilho”. Só que Abra acaba por ficar em sarilhos quando o seu “brilho” a atraiçoa e apresenta Bradley Trevor, um rapaz que joga baseball, que está a ser assassinado por um grupo que se proclama como o Nó Verdadeiro e que se alimenta de crianças especiais como Abra. Rose, a Cartola, a líder do grupo, sente a presença de Abra e, a partir daí, persegue a rapariga, que precisará da ajuda de Dan para a proteger e acabar com o Nó Verdadeiro. 

Este é um filme que conta com cerca de duas horas e meia de duração, o que, previamente, deixou-me um tanto assustada, tendo em conta que a última adaptação de Stephen King nos cinemas, IT – Capítulo 2, sofreu do problema de ter uma longa duração e demasiado do livro que podia ter sido facilmente excluído do filme. Durante a primeira parte de Doutor Sono também senti isso. Na verdade, estava a ver ali muitas sequências do livro a serem relatadas tal e qual. É o caso do momento inicial de Dan com Deenie na cama, que me pareceu desnecessário assim que percebi que o essencial desse momento estava a ser esquecido – teria tido importância se tivesse sido retomado no final, assim como acontece no livro, mas deste modo pareceu-me que existia apenas para aterrorizar um pouco os espectadores. Já na segunda parte (leia-se “depois do intervalo”), a narrativa acelerou-se em demasia, prestando pouca atenção a alguns momentos e vendo na morte de algumas personagens o melhor modo de resolver problemas que de outro modo resultariam em pontas soltas. 


A determinada altura, comecei a ouvir as pessoas que estavam sentadas na fila da frente a questionarem entre si: “estás a perceber alguma coisa?”. Bem, isto levou-me a pensar se alguém que não leu o livro ia entender alguns momentos do filme. Pois se em determinadas alturas apenas se segue o filme de Kubrick, noutros momentos é mesmo o livro que prevalece e acredito que aí há algumas coisas que ficaram por explicar, pois são abordadas apenas à superfície, pois entende-se que perto do final a única intenção é levar-nos de regresso ao Overlook. 

O grande “erro” de Kubrick foi ter alterado o final de The Shining. E digo grande erro porque aqui temos a “consequência”, se assim podemos chamar, disso mesmo. Como é que se recria o Hotel Overlook que vimos no filme de 1980, com todas aquelas assombrações? Por momentos estamos perto do mesmo resultado, mas não é a mesma coisa, apesar dos esforços em trazer os mesmos planos e fotografia. É notável que a sequência final tem mais o objetivo de trazer uma certa nostalgia Kubrickiana do que propriamente fazer sentido na história. Neste aspeto, é interessante rever alguns dos fantasmas que assombraram Danny na sua infância, mas até as suas figuras parecem exageradas, o que nos leva mais a sorrir por estarmos a ver esta tentativa do que propriamente ficarmos arrepiados. 


Admito que mesmo não tendo acertado em cheio nas sequências do Overlook, fiquei surpreendida com alguns planos bastante criativos que foram sendo apresentados, nomeadamente quando Abra fazia “girar” o mundo. Achei absolutamente incrível uma das sequência em que temos Dan a deslizar pelo chão num desses momentos – penso que até está num dos trailers. Também achei interessante o momento em que Rose, a Cartola, viaja pelo mundo em busca de Abra. 

Falemos, agora, das prestações… No geral, gostei bastante de ver os protagonistas do filme a interagir entre si, mas admito que em alguns momentos achei que os diálogos soavam um pouco forçados. Fora isso, que não é culpa do elenco, tenho de dizer que algumas escolhas de casting assentaram que nem uma luva: Ewan McGregor brilha (literalmente) como Dan Torrance, especialmente naquela fase inicial em que a vida não lhe corre nada bem e em que este volta a cruzar-se com uma sanita (olá, Trainspotting?); Rebecca Ferguson para mim é a grande estrela, mas não me admira, tendo em conta que já no livro também foi a vilã Rose que me conquistou por ser uma personagem tão forte e persuasiva, por isso gostei bastante de ver que as suas principais características, tanto físicas como psicológicas, foram mantidas. A jovem Kyliegh Curran, a Abra, também teve um excelente desempenho. 


Não posso dizer que não gostei do filme, mas certamente achei que algumas escolhas no argumento não foram as melhores. Entendo que é difícil continuar o legado deixado por Kubrick e ao mesmo tempo seguir a obra literária, mas gostava que tivesse havido um maior equilíbrio entre ambos, em vez de termos uma primeira parte claramente mais ligada à obra literária e uma segunda que vê o regresso ao Overlook como o seu principal objetivo.

6/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

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