quarta-feira, 27 de novembro de 2019

"O Farol" em análise

O novo filme de Robert Eggers, realizador do aclamado The VVitch (2015) – que foi a sua primeira longa-metragem -, era, certamente, uma das estreias mais aguardadas da 13ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival, que terminou no domingo passado. O Farol, protagonizado por Willem Dafoe (que foi um dos convidados e esteve presente no Centro Cultural Olga de Cadaval) e Robert Pattinson, encheu a casa em ambas as sessões em que foi transmitido.


A premissa é muito simples. Temos dois homens, um faroleiro e o seu assistente, que são enviados para um farol onde passarão as quatro semanas seguintes. Só que devido a uma tempestade, essa duração inicial acaba por prolongar-se, fazendo com que os dois comecem a afastar-se cada vez mais do resto da humanidade.

Este é um filme muito ambicioso, seja na sua narrativa ou pelo simples facto de arriscar pela diferença, que começa logo pela tela em 1.19:1 e por ser a preto e branco, nunca caindo no erro de se tornar escuro, pois apresenta um trabalho de luz bem pensado. Este simples facto leva-nos a viajar no tempo e no espaço; imediatamente somos transportados para aquele farol no meio de nenhures e começamos a sentir que também a nossa vida está a perder cor, assim como a dos protagonistas. A sensação de medo, solidão e de enfraquecimento perante os fenómenos da natureza é facilmente acentuada por esta escolha cinematográfica.


Também a acentuar a dinâmica do mar e a incerteza que começa a tomar conta dos protagonistas está a banda sonora arrepiante composta por Mark Korven, que é tão inesperada quanto soberba. É gritante e nota-se que muitas vezes tem o objetivo de dar um abanão ao espectador, pois também este começa a fugir, por vezes, à realidade e a confundi-la com o sonho.

Existe um desfoque entre os limites, precisamente, do que é real e do que não é. Muitas vezes é difícil identificar o que está realmente a acontecer às personagens, pois o estado de espírito destes varia de um modo tão repentino que dificilmente teremos respostas para muitas questões. Naquele farol em que o tempo parece não passar, estes dois homens tanto discutem e sentem repúdio um pelo outro como começam a dançar de um modo hiperativo enquanto se embebedam ao máximo, quebrando todas as regras daquela profissão. As alterações de humor são rápidas e é durante essas transições que surgem os maiores conflitos na mente dos protagonistas, que começam a entrar no reino da fantasia e a atrair a loucura derivada do isolamento.


Com uma premissa tão simples, é preciso dizer que os atores também carregam um grande peso do resultado do filme. Willem Dafoe entrega uma personagem suja e sem maneiras, com diálogos difíceis com dialetos e que soam a poesia. Robert Pattinson, para além disso, é aquele que tem de adaptar as suas reações a algo que não existe e que tem a tarefa de levar o público a imaginar o que este vê sem que essa coisa alguma vez apareça. É bom que quando chegar a época de prémios estes dois nomes não sejam esquecidos, pois conseguem brilhar, sem que se ofusquem um ao outro.

Ainda que a história possa parecer pouco arriscada, O Farol é mais uma excelente longa-metragem da autoria de Robert Eggers, que apresenta aqui mais um filme pensado ao pormenor (desde os cenários ao estudo do modo de vida dos faroleiros). A acompanhar, as grandes performances e o argumento bem escrito elevam-no ainda mais, resultando num raio de luz em tempos que parecem sombrios no que toca a entregar algo diferente e arriscado no Cinema.

8/10

Willem Dafoe foi um dos convidados desta edição do Lisbon & Sintra Film Festival (LEFFEST) e esteve presente na primeira sessão de O Farol, onde conversou acerca do modo como Robert Eggers o convidou para fazer parte deste filme, a sua preparação e a relação com o colega Robert Pattinson, com quem nunca tinha trabalhado anteriormente. Aqui segue um vídeo da parte inicial da conversa.



SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

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