sábado, 30 de novembro de 2019

Os quarenta anos de "The Wall" dos Pink Floyd

… que começa aqui. 

É difícil de perceber, talvez, numa época de Beatlemania, o que é que as pessoas viram numa banda “estupidamente” experimentalista e complexa como os Pink Floyd. Mas, de alguma maneira, todos aqueles graves sons eletrónicos que tocavam atraíram inúmeras pessoas, culminando no sucesso que ainda hoje se vê nos números de álbuns vendidos. No entanto, ninguém poderá negar que foi nos anos 70 que esta banda esteve no seu auge. Em 10 anos, lançaram 4 dos álbuns mais importantes do rock progressivo: Dark Side of the Moon em Março de 73, Wish You Were Here em Setembro de 75, Animals em Janeiro de 77, e, finalmente, The Wall. Este último fora lançado há exatamente 40 anos, no dia 30 de Novembro de 1979, podendo até ser considerado o último álbum dos Pink Floyd – visto que, após o lançamento do álbum, a banda basicamente acabou.


Falando em coisas sérias agora: eu comecei a ouvir Pink Floyd muito cedo, por volta dos 11 de anos de idade, apanhando, por acaso, enquanto fazia zapping, o filme do The Wall no antigo canal da MGM. Para aquela idade e altura na minha vida, ninguém acharia que aquilo me fosse dizer alguma coisa. Mas, na verdade, fez. Pode não ter sido logo na altura, mas eventualmente descobri que eu próprio tinha uma “wall”, identificando-me com o protagonista da história, Pink. Não digo que tive um pai que morreu na Segunda Guerra Mundial, mas aquela vida assemelhou-se demasiado à minha. Já estou a entrar em conversa de psicólogo, por isso não vale a pena usar o meu latim para falar dos meus problemas, sejam atuais ou de infância. 

O álbum é conceptual e, apesar de este ter sido criado como uma espécie de resposta aos fãs que não tinham comportamentos adequados nos concertos da banda, baseia-se integralmente na vida de Roger Waters (e, em parte, de Syd Barrett também), personificando-se na figura de Pink. Durante o mesmo faz-se uma longa viagem no tempo, começando no presente e na situação atual da personagem, que depois começa a refletir acerca da sua infância e como é que começou a construir uma parede metafórica à sua volta de maneira a impedir-se de se magoar cada vez mais graças às pessoas que se foram aproximando dele, ou estiveram mais presentes, durante a sua vida, voltando, mais de meio álbum depois, à sua vida atual e à conclusão do épico.


Para muitos pode ser difícil ouvir o álbum do uma ponta à outra devido ao quão cru este pode ser. Sente-se a dor e cria-se alguma empatia para com a personagem que seguimos a jornada. Para esses que assim o enduram, temas como Comfortably Numb ou Another Break In The Wall Pt. 2 não são meras músicas clássicas do rock que tem dos melhores solos de guitarras de sempre ou o melhor grito contra os estudos jamais feito. É como quando uma pessoa ouve Wish You Were Here e ouve mais do que os acordes da guitarra do David Gilmour, relacionando-se com a letra emocional  Esses encontram o sentimento por detrás de cada verso. São esses que, no fim, se sentem como o Pink, e no fim aprendem (ou não, talvez) uma lição. Não que este álbum tente dar alguma desde o início, mas pelo menos uma espécie de moral é capaz de ser retirada do mesmo. 

Este álbum, crescendo com ele, abriu-me os olhos para muitas coisas. Coisas essas que carrego ainda hoje comigo. Muitos perceberão o que eu quero dizer, muitos dirão apenas “pretensioso”. Sim, não vou negar que este, em parte, é pretensioso. Também não vou negar que há músicas de entre as 26 que facilmente se podem passar à frente por serem um bocado mais lentas ou “versamente” pouco interessantes. Pode, até tornar-se cansativo no fim. Mas, penso que seja uma viagem bem recompensada no fim. Ao ponto de haver até um filme, realizado por Alan Parker, lançado em 1982, e que está actualmente na pequena lista de filmes cotados com 4/4 pelo famoso crítico Roger Ebert. É um perfeito guia visual psicadélico, com material extra incluído, que ajuda uma pessoa a mergulhar ainda mais na mente de Roger Waters. Infelizmente não há muitas maneiras, ou formatos, para conseguir apreciar o filme no seu melhor estado, tendo este sido lançado pela última vez em DVD há mais de uma década, e não há nenhuma remasterização feita desde então, pelo menos a nível sonoro, que é o principal fator que o mesmo necessita.


O legado do álbum continua com o passar do tempo, e Roger Waters assegurou-se disso: mal a queda do muro de Berlim ocorreu, este e um longo grupo de artistas dos anos 80 apareceram, a 21 de Julho de 1990, para dar um concerto a comemorar o evento. E, duas décadas depois, começou uma tour para encerrar, de vez, a sua “wall”, e esta, que decorreu de 2010 a 2013, acabou por se tornar na tour de um artista a solo mais rentável de todos os tempos, superando a Rainha do Pop

Isto acaba por provar o quão grande foi o impacto que este álbum teve nas pessoas. A mim, inclusive. O álbum acaba por se tornar numa espécie de experiência que, dependendo do ouvinte, pode ou não ter um efeito secundário para além do primário, sendo ele gostar ou não de o ouvir. Pode também não achar nada demais, mas fica na cabeça ao ponto de o ouvir outra vez e outra vez até gostar, ou começar a odiar de tanto o ouvir. Aconteceu-me o mesmo com Dark Side of the Moon, que, depois de dizer ao meu primo que não achei nada demais, eram só barulhos estranhos e relógios sonoramente altos, eledisse-se que devia ouvir outra vez, com mais atenção, e resultou. Com The Wall acontece o mesmo. Quando vi o filme nunca imaginei que teria o impacto que causou, mesmo que esse não tenha sido imediato. E, sempre que me sinto mal, apesar de não ser uma escolha, digamos, adequada, é um filme no qual procuro sempre ajuda. Ou ao álbum, se o tiver mais a mão. E aí a viagem emocional começa outra vez, como se nunca tivesse acontecido. 


É como um pequeno loop
SOBRE O AUTOR

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

2 comentários:

  1. Se não fosse este artigo, nem me apercebia que o The Wall já tinha 40 anos. Ainda é tão bom de se ouvir. Bom domingo, Diogo!

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    1. Um clássico será sempre um clássico!
      Bom domingo, Jaime!

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