sexta-feira, 15 de novembro de 2019

"Passámos por cá" em análise

Inicia-se hoje à noite a 13ª edição do Lisbon and Sintra Film Festival com o filme Passámos Por Cá (no nome original Sorry We Missed You) em abertura, também a dar início ao Simpósio Internacional: Resistências. Esta é a mais recente longa-metragem de Ken Loach e posso dizer, desde já, que a tarefa de a analisar criticamente não é fácil. Como é que alguém consegue fazer uma crítica à vida? É que o que este filme nos apresenta é isso mesmo: a vida. A vida de muita gente, que passa os dias a trabalhar e que se vê incapaz de colher os seus próprios frutos. 


A trama apresenta-nos a uma família de classe média residente algures num bairro no Reino Unido. Ricky, o pai, decide iniciar um negócio próprio de entregas numa empresa de franchise, achando que isso lhe daria total liberdade, o que rapidamente percebe ser apenas uma fachada: vê-se numa situação em que trabalha arduamente e pouco ganha; para piorar, a empresa soberana não entende os seus problemas, o que faz com que muitas vezes este tenha de pagar por acidentes que não são culpa sua ou que são inevitáveis. Abbie, a mãe, é uma cuidadora; acorda cedo para apanhar o autocarro para ir cuidar de idosos ou de pessoas com problemas que necessitem dos seus cuidados. Os seus dias não são fáceis: precisa de cumprir horários e, ao mesmo tempo, é incapaz de largar os seus pacientes sem que estes estejam com todas as condições necessárias. Seb, o filho, é um adolescente que vive revoltado e não entende a situação dos pais; falta constantemente às aulas e prefere dedicar-se à sua arte, correndo pela cidade a fazer graffitis por todo o lado, ilegalmente. Lisa Jane, a filha, é uma criança que entende que o estado dos pais não está bem, mas que, ao mesmo tempo, fica assustada com o rumo que as coisas estão a tomar na sua família – o que não deveria ser uma preocupação para alguém da sua idade. 

Este é um filme cheio de raiva, é preciso dizer. No final, não nos deixa com um pingo de esperança, pelo que recomendo fortemente que não o vejam se estiverem a passar por uma má fase na vida. A narrativa é apresentada de um modo duro e cru, que resulta numa espécie de abre-olhos: não estará na altura de haver uma mudança nos nossos modos de vida? É que o que vemos neste filme é a realidade: temos pessoas a trabalhar horas por dia, sem terem tempo para dedicar à família ou a si mesmas. Andam apenas a sobreviver e não a viver. O filme mostra isso de um modo simples, sem efeitos e edições, assim como a própria realidade é; não temos adereços, grandes caracterizações (repare-se até no cabelo de Abbie, sempre de rabo de cavalo, prático, mas pouco cuidado), até os próprios cenários são naturais (a casa, por exemplo, é um reflexo da falta de tempo – com paredes com humidade, loiça por lavar, roupas por arrumar). 


É um filme difícil de ver, que nos deixa muitas vezes com um grande nó na garganta e isso entende-se logo no início. Começa com a afirmação do protagonista de que “já fez de tudo na vida” e traz aquele toque de confiança de que talvez desta vez tudo melhore, ao abrir o seu próprio negócio. Só que à medida que a história vai avançando, vamos vendo a sua vida a afundar cada vez mais e a determinado momento já não se vê a saída do poço, já não há luz. É triste… 

O argumento de Paul Laverty é bem pensado, de modo a tornar tudo o mais fluído possível. Para isso também contribuem as prestações do elenco protagonista (liderado por Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Rhys Stone e Katie Proctor), que parecem simplesmente ser uma família a passar por todas aquelas situações e a tentar encontrar soluções.


Passámos Por Cá é um filme poderoso, que abre o seu tema de um modo como nenhum outro foi capaz de fazer, até porque, diga-se de passagem, poucos são os filmes que abordam este “esgotamento”, ou, se o fizerem, não o apresentam deste modo. Este é um drama de empatia humana: no final vai fazer-nos pensar acerca do modo como tratamos o próximo e também no modo como a sociedade contemporânea funciona. É um filme essencial, mas que deve ser evitado em determinadas fases da vida.

9/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

2 comentários:

  1. Na altura em que foi o Festival de Cannes li boas críticas sobre este filme, mas a presença no LEFFEST passou-me ao lado.

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