domingo, 15 de dezembro de 2019

Aceitam uma chávena de chá quentinho?

Hoje é o Dia Internacional do Chá (sim, é verdade!) e não sei quanto a vocês, mas quando penso em chá no Cinema há um filme que rapidamente me vem à memória: Alice no País das Fadas (1951) da Disney! E isto dá-se por um simples motivo: por causa do momento do Chapeleiro Louco e da Lebre, é claro! Só que não fazia sentido falar aqui apenas sobre uma sequência, então, cá vamos nós a mais um “rebobinar” aqui no blogue!


Admito que este nunca esteve no topo dos meus favoritos da Disney. Para começar porque quando o via em pequena nunca percebia nada – será que hoje já percebo? E, segundo, porque este apenas tinha dobragem em brasileiro (ainda que sem grande sotaque adocicado) e por algum motivo isso fez com que não o visse tantas vezes como vi outros. Aconteceu-me o mesmo com o Bambi (1942) e o Papuça e Dentuça (1981). Acontece que, percebi agora, a pobre coitada da VHS também já não está em grandes condições. Revi ontem à noite e tive a experiência mais psicadélica de sempre, pois a juntar ao espalhafatoso que o filme é, agora tive também direito a grandes falhas na imagem, devido à humidade (penso eu), o que resultou em muita chuva, grão, alteração de cores (o gato de Cheshire ficou verde e vermelho a determinado momento, não me perguntem como) e efeitos espelhados, com alguns momentos a serem passados ao contrário, de pernas para o ar. Como não gostar das boas velhas VHS, não é verdade?


O filme inicia-se de um modo harmonioso (até na parte dos créditos), se assim podemos dizer. Tudo começa com Alice a refletir acerca de como seria o “seu” mundo. Aqui os elementos naturais tomam um papel de especial importância no modo como ela vai descrevendo as coisas. As flores, por exemplo, rodeiam-na e transmitem uma sensação de tranquilidade, assim como depois a fluidez do rio, da água, onde a sua imagem está refletida. Isto é importante, pois no decorrer da narrativa estes elementos ganham novos significados… A determinada altura, Alice, muito pequenina, vê-se afita num rio formado pelas suas próprias lágrimas, noutro momento vê-se rodeada de plantas mal-educadas. Ou seja, Alice vai começar a perceber que o “seu” mundo poderá não ser tão bom quanto tinha imaginado e vai ter de lidar com o seu próprio crescimento.


Ora, bem, retomando aqui o Dia do Chá… “Um bom desaniversário para mim, para ti!! Vamos cumprimentar-nos com uma xícara de chá!”. A verdade é que a sequência em que Alice encontra o Chapeleiro Louco e a Lebre é uma das mais icónicas dos filmes de animação e, também, da literatura. A Mad Tea Party é o nome do capítulo na obra de Lewis Carroll e “mad” é mesmo a palavra certa para descrever esta festa, que é um caos total, com chá a ser entornado por todo o lado e canecas a serem partidas. As pessoas bem dizem que o chá acalma, mas aqui não temos esse caso… Até porque as personagens parecem nem chegar a bebê-lo, pois estão em constante conflito de ideias, atropelando os discursos umas das outras com charadas e afirmações contraditórias. O cúmulo dá-se na sequência da manteiga, quando o Coelho chega, sempre atrasado. O Chapeleiro e a Lebre começam a fazer uma mixórdia de sabores no seu relógio e acabam por destruí-lo, levando à loucura! Como Alice diz, nesta versão que eu tenho com dobragem em português do Brasil, “este é o chá mais bobo que eu bebi em toda a minha vida” – mas ela mal chega a beber.


Nesta viagem psicadélica, Alice vê-se a ser levada para um mundo de fantasia. Se ao início parece aceitar tudo muito bem – na sequência em que cai na toca até usa alguns dos objetos que encontra pelo caminho e também adormece numa cadeira -, à medida que a narrativa avança começa a sentir uma maior vontade de voltar à realidade. Na sequência da Lagarta, chega mesmo a ter uma grave crise de identidade. Quando questionada acerca de quem é, Alice diz que já não sabe, pois desde manhã tanta coisa mudou e o espectador sabe que isso é verdade, pois o rumo da história varia imensas vezes. Se num segundo Alice está a fazer uma dança para secar, no segundo seguinte está a falar com um Gato invisível ou com uma Lagarta que fuma.


É só perto do final que aparece a famosa Rainha de Copas, mas antes disso os seus “servos” apresentam-na pelas suas palavras, o que acentua a importância dos diálogos neste conto. Estes  mostram que se não fizerem o que ela diz poderão ser mortos e exemplificam-no com tinta vermelha, como se estivessem a ser executados. Inclusive, depois temos a Rainha a mandar cortar-lhes as cabeças, apenas por não ter rosas vermelhas! Segue-se a sequência do croqué, que é mais um dos momentos de caos do filme, mas também outro daqueles icónicos!


No final, Alice acorda do seu sonho – será que foi mesmo um sonho? Este filme é belo e confuso. Um completo arco-íris, uma viagem fantástica. Inegavelmente, é um grande clássico da animação e nem as adaptações mais recentes foram capazes de lhe fazer jus, especialmente quando nos apercebemos que este data de 1951 e foi uma das primeiras produções da Disney. Se ainda hoje apresenta uma enorme criatividade no estilo de animação, imaginem lá como terá sido recebido na altura! 

Que tal passarem esta tarde chuvosa de domingo na companhia deste filme e de uma chávena de chá quentinho?
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

4 comentários:

  1. Aceito, com todo o gosto, até porque adoro chá :)
    E que belo rebobinar este! Embora também não seja um dos meus filmes favoritos, tenho vontade de o rever, porque há passagens fabulosas!

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