domingo, 29 de dezembro de 2019

"Cats" em análise

Estreou esta semana aquele que mesmo antes de ter chegado às salas de cinema já estava a ser considerado um dos piores filmes do ano. É verdade, para muitas pessoas um simples trailer foi o suficiente para o considerar péssimo. Estou a falar de Cats, a nova longa-metragem de Tom Hooper, baseada no aclamado musical da Broadway e na obra literária de T. S. Eliot. Digo, sinceramente, que o trailer, de facto, não me apelou minimamente. Aliás, deixou-me logo a pensar que o filme seria, no mínimo, estranho. Ainda assim, eu gosto de musicais e considero que este realizador é bem capaz de os fazer, pois no seu currículo tem Os Miseráveis (2012), que é um filme memorável. Porque não, então, dar uma oportunidade a este Cats


Fui para a sala com pouca esperança, mas ainda havia alguns brilhos. Que pelo menos o filme me fizesse rir, se fosse muito mau. Lá nisso não falhou, pois ri em várias partes, não por haver algum humor, mas sim por perceber que com tanta gente envolvida neste projeto ninguém foi capaz de dizer “epá, isto não está bom”. 

O filme inicia-se com uma das piores montagens de sempre, com um gato a surgir nas nuvens com um ar maroto. Péssimo, péssimo. Mas adiante... De seguida começam as coreografias e os temas musicais. A primeira música introduz os gatos, depois do abandono de Victoria, uma gata que parece ser um elo entre todos os outros. Pareceu-me, desde cedo, que as músicas estavam a prolongar-se por demasiado tempo. Acredito que no musical acontece o mesmo, mas chegou uma altura em que as palavras “Jellicle Cats” já estavam simplesmente a fazer eco na minha cabeça e estava a ficar realmente cansada de as ouvir. Isto só na primeira música... 


É preciso ter em conta que no musical os gatos estão juntos em palco e as coreografias são em conjunto, num só sítio. Aqui tudo fica disperso e parece que cada gato faz apenas aquilo que lhe dá na gana. Muitas vezes parecem nem estar a dançar ao mesmo ritmo e parecem distantes uns dos outros, pois temos planos isolados de cada um e poucos do grupo todo junto. 

Para mim, muitos dos momentos musicais simplesmente não funcionaram. Alguns queriam trazer um tom cómico ao filme, mas resultaram apenas em algo ridículo. É o caso de toda a sequência de Rebel Wilson, que apenas soa tonta. Entendo que a ideia é respeitar, se assim posso dizer, o material de fonte, mas também acho que não é necessário incluir sequências que pouco acrescentam à narrativa. É o caso dessa e de tantas outras, como a dos gatos Mungojerrie e Rumpleteazer. Acontece que, como se sabe, o argumento limita-se a apresentar os gatos, os seus modos de vida, as suas classes, a desigualdade entre eles. Fora disso a trama é demasiado simples, daí talvez a necessidade de manter tudo o que é descartável. No final, estamos durante quase duas horas apenas a ver gatos a apresentarem-se. 


Felizmente, não posso dizer que detestei tudo. No que toca a momentos musicais, houve dois que, na minha opinião, estavam muito bem conseguidos: o de Skimbleshanks, o gato do comboio, e o do mágico Mr. Mistoffelees. O primeiro traz uma coreografia que vai para além do pequeno espaço dos gatos e leva-nos para um maior plano da cidade de Londres. Já o segundo consegue ser muito coerente, ao contrário dos outros, até porque este gato até então era muito misterioso e só aí é que ficamos realmente a conhecê-lo. Para ser sincera, o Mr. Mistoffelees é a melhor personagem do filme. 

Depois houve outras duas coisas que me agradaram e que estão inteiramente ligadas: os cenários e a iluminação. A “cidade” construída para o filme em tamanho gigante – do ponto de vista de um gato – foi pensada ao pormenor, com letreiros a relembrar que estamos num “mundo felino”, e todas as luzes néon tornaram-na visualmente muito apelativa. 


Infelizmente, este filme não resultou, apesar de toda a tecnologia envolvida. O simples facto de o pêlo dos gatos ser gerado em CGI é bizarro. Não seria tão estranho se fossem fatos reais, como acontece no musical e fica bem. Aqui só temos gatos com cara de pessoas, que são na maioria conhecidas do público. Em alguns momentos dei por mim apenas a pensar como determinados atores iriam ficar com a aparência de gatos… Judi Dench e Ian McKellen cobertos de pêlo? Estranho! Enfim, são duas horas de músicas corridas com gatos a falar das suas melhores e piores características. É um filme ambicioso e com muita gente envolvida, mas não passará disso, pois é demasiado excêntrico – neste caso, num mau sentido.

3/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

10 comentários:

  1. Este eu não queria ver nem que me pagassem. Que medo... Bom ano novo para vocês os dois!

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  2. Até tinha curiosidade em ver, mas depois de ler a tua crítica, acho que vou dispensar, pelo menos, para já :/

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    1. Eu recomendo sempre que vejas... Podes ter uma opinião diferente! 😛

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  3. Depois de ver Cats ao vivo e na TV, o musical obviamente, tenho muito pouco interesse em ver no cinema.
    Boa semana

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  4. Estava a pensar ir ver mas depois da sua análise acho que vou dispensar.
    Joana, para si e para a sua família e amigos, desejo um Ano Novo pleno de alegrias, saúde, paz, amor e sonhos realizados.
    FELIZ ANO NOVO!!!
    Beijinhos

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    1. Vale sempre a pena ver, porque a opinião pode ser diferente! Votos de um maravilhoso ano novo para si também, cara Maria! 🎉

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  5. Já tinha ouvido falar, mas não me tinha despertado interesse nenhum. Por isso, depois da tua crítica a vontade de não ver mantém-se :p
    Bom ano :)

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