domingo, 1 de dezembro de 2019

"Knives Out: Todos são Suspeitos" em análise

O novo filme de Rian Johnson pareceu-me, assim que foram lançadas as primeiras imagens e a sinopse, uma espécie de crime à moda de Agatha Christie, mas nos tempos modernos. Enquanto fã de policiais e mistérios, esta simples observação foi mais do que suficiente para mim para aguardar a sua estreia com elevadas expectativas, mas também com um cuidado especial para evitar trailers. De um certo modo, fui vê-lo não às escuras, mas apenas com uma luz de presença ligada, um conhecimento tão básico que para além de meia dúzia de imagens, do elenco e do realizador tudo estava fora do meu alcance, o que resultou numa das melhores experiências que tive este ano numa sala de cinema.


A trama de Knives Out: Todos são Suspeitos desenvolve-se ao redor de uma família que vive às custas do patriarca, que ao longo de vários anos “investiu” nos filhos, o que gerou muitos conflitos entre todos eles. Um aspeto interessante é a maneira como esta ajuda financeira influenciou o modo de vida de cada um e as suas personalidades, que são extremos opostos. A começar pelo uso do dinheiro: alguns decidem não trabalhar e viver inteiramente às custas do pai, outros investem o dinheiro em negócios próprios criados de raiz. Temos vários pontos de vista - motivo pelo qual certamente seremos capazes de nos identificar com, pelo menos, uma das personagens -, acentuados pelas performances espetaculares de um elenco repleto de caras conhecidas, mas que aqui desempenham papéis que são uma brisa de ar fresco nos seus currículos.

Christopher Plummer, Chris Evans, Toni Collette, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Katherine Langford, Jaeden Martell… São nomes que pertencem a diversas gerações e que, certamente, vão arrastar pessoas de várias idades até aos cinemas. No entanto, no grande elenco de estrelas acabamos por ter duas pessoas que tomam um lugar de maior relevo nesta história: Ana de Armas e Daniel Craig, que desempenham duas personagens que se veem envolvidas nesta situação, ainda que não pertençam à grande família problemática. Daniel Craig torna-se num Poirot contemporâneo, que parece resolver os seus casos quase instantaneamente, sem que nunca o vejamos a decifrar as pistas. Por sua vez, Ana de Armas rapidamente vira o centro das atenções; é um elo de ligação entre o detetive e a família, quase como uma parceira (“meu caro Watson!”).


O humor aqui presente deriva de algumas referências, que podem nem sempre ser entendidas (o que vale é que o eterno Capitão América está no elenco para as apanhar todas), e do pitoresco de algumas situações. Depois, claro, também há personagens que parecem ter um dom especial para o humor e esse é o caso da “guru do lifestyle” interpretada por Toni Collette, que contribui imenso para aumentar o tom cómico.

Os cenários levam-nos a recuar no tempo. A maioria das cenas passam-se numa grande mansão, decorada com artefactos que não são atuais, desde figuras em madeira, porcelanas, objetos de caça… E um expositor de facas! Se algumas das personagens não estivessem sempre de telemóvel na mão, quase que poderíamos situar a ação da narrativa no século passado. Só que, lá está, temos várias referências ao presente: deste conversas sobre Netflix, Instagram, ser influencer… Em determinados momentos, o filme até brinca com atualidade, mostrando o ridículo de algumas situações que são o pão nosso de cada dia (estar a fazer um direto no Instagram num momento que não é adequado, por exemplo).


A banda sonora a cargo de Nathan Johnson (o primo do realizador) segue o mesmo padrão que os cenários, pois também parece não ser datada aos dias de hoje, mas sim especialmente ao passado. Traz um toque de mistério, de requinte e de suspense logo nos minutos iniciais. Começa por ser apenas um sinal de que as coisas não estão bem naquele seio familiar, mas rapidamente passa a aumentar a dinâmica de todos os acontecimentos, tornando-se inesperada e ressonante.

O final do filme fica fechado a sete chaves, para que ninguém fique a sabê-lo antes de ir ver. Mas neste ponto posso dizer que gostava de ter sido mais surpreendida. O final agradou-me, sem dúvida alguma, mas não sei até que ponto não será previsível para alguém que já esteja habituado às fórmulas das obras deste género whodunit, pois neste aspeto o filme apenas apresenta um crime numa família e a busca de respostas por parte de um detetive, o que não é grande novidade. De qualquer modo, o resultado de Knives Out não deixa de ser, como disse logo no início, uma experiência deveras interessante e uma grande aventura para se viver (ou resolver!) no grande ecrã.

8/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

8 comentários: