terça-feira, 28 de janeiro de 2020

"1917" em análise

Sam Mendes já conta com uma longa carreira. São cerca de vinte anos que resultaram em oito longa-metragens, com algumas em destaque pelo meio, como é o caso de Beleza Americana (1999) e de dois capítulos de uma das sagas mais famosas de sempre, 007: Skyfall (2012) e Spectre (2015). Agora, regressa ao grande ecrã com um filme dedicado ao seu avô Alfred Hubert Mendes e às histórias que este contou sobre a sua participação na Grande Guerra. 


1917, protagonizado por George MacKay e Dean Charles-Chapman, segue uma premissa muito simples: no dia 6 de Abril do ano que dá nome ao filme, dois homens, Blake e Schofield, recebem a missão de entregar uma carta que impedirá que mais de 1600 homens, entre eles o irmão de Blake, caiam numa armadilha preparada pelos alemães. Só que nada será simples, pois para chegarem ao destino terão de pisar território inimigo, ficando vulneráveis a qualquer ataque. 

Este é um daqueles casos em que o mais importante não é propriamente a história que é contada, mas sim a criatividade da realização, visualidade e as emoções que transmite. Desde os instantes iniciais, sentimos que estamos a ser transportados para plena guerra, para o meio das trincheiras, de um modo tão poderoso e arrebatador que nos vai deixar os sentidos em alerta durante duas horas. 


O início ocorre de um modo rápido, deixando logo o objetivo explícito, depois resta-nos seguir os dois homens, num turbilhão de emoções. Sentimos os seus receios e preparamo-nos mentalmente para que a qualquer momento o barulho de um tiro ou de uma explosão se faça ouvir. Quando isso acontece, inevitavelmente não estamos preparados. Neste ponto, é preciso dizer que o melhor é mesmo ver o filme numa sala com bom ecrã e, acima de tudo, bom som (IMAX, para uma experiência do filme em todo o seu esplendor), para sentirmos ao máximo esse efeito surpresa. 

O que temos aqui é um verdadeiro retrato da guerra. Dunkirk (2017) é capaz de ser o filme com o qual é possível uma maior comparação, mas apenas nesse sentido de vivenciarmos o que está a acontecer quase na primeira pessoa, pois de resto é tudo muito diferente. 1917 é mais sensorial. Aqui os nossos sentidos, para além da audição e da visão, também desempenham o seu papel. Por momentos somos capazes de imaginar os cheiros que são sugeridos pela putrefacção, lama, humidade e pó. O tacto também é explorado, nomeadamente quando há contacto entre as personagens, o que é raro naquele ambiente de medo. 


A cinematografia, a cargo de Roger Deakins, é, possivelmente, o que eleva o filme para outro patamar. O melhor exemplo do quão soberba está é uma sequência noturna, onde a única iluminação são as labaredas de edifícios a arder depois de um ataque, a contrastar com o escuro da noite. Este momento é ainda acompanhado por alguns dos acordes mais fortes da banda sonora composta por Thomas Newman, que acentua o dramatismo da cena, ao mesmo tempo que a torna épica. Para além deste momento, bem sei que é escusado falar sobre o famoso plano-sequência que apareceu no trailer e numa featurette, mas a verdade é que é impressionante de tão bem feito que está. Depois de o ter visto vezes sem conta no trailer ainda consegui ficar de boca aberta quando finalmente ocorreu no filme. 

Em termos de interpretações, parece-me fundamental referir o trabalho dos dois protagonistas, Blake, interpretado por Dean Charles-Chapman, e Schofield, por George MacKay, que a determinado momento recebe um maior protagonismo, num papel em que é necessária uma enorme capacidade de controlo das emoções e feições. Sentimos o cansaço da sua personagem, a réstia de esperança que o faz continuar, a tristeza e a dor em alguns momentos… George MacKay está imparável neste filme, mostrando novamente (fez parte do elenco de Capitão Fantástico e protagonizou a série 22.11.63, em 2016) que é um ator que merecia entrar mais para o estrelato (porque não está nomeado ao Óscar de Melhor Ator?). 


Curiosamente, é de referir que se recuarmos uns dois meses, poucos cinéfilos diriam que 1917 estava na lista dos seus filmes mais aguardados do ano. No entanto, depois de ter recebido destaque em tantas cerimónias de prémios o inevitável tornou-se realidade. Só que, com os críticos a aplaudir o trabalho extraordinário de Sam Mendes na realização, também surgiram as opiniões que acentuam a falta de história no filme. A meu ver, o que temos aqui vai para além do argumento. É um filme que puxa as nossas emoções, que nos deixa a sentir o mesmo que as personagens, que faz com que torçamos por elas para que sejam bem sucedidas; é um filme com um trabalho de fotografia estupendo, que em alguns momentos vai deixar-nos com vontade de guardar todos os frames a cada mudança de cena; é um filme que consegue surpreender, mesmo contendo uma premissa tão simples, entregando momentos doces em contraste com outros em que estamos em plena guerra. É uma obra-prima.

10/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

4 comentários:

  1. Se já era um dos meus próximos alvos agora tornou-se prioritário. Obrigado.

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    1. Obrigada pelo comentário, Miguel. Fica a recomendação, vale mesmo muito a pena!

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  2. Já o adicionei à lista, fiquei mesmo curiosa!

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    1. Sem dúvida alguma um dos melhores filmes dos últimos tempos...

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