segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"A Despedida" em análise

Depois de Awkwafina ter sido destacada como Melhor Atriz na gala dos Globos de Ouro (será que o seu talento também vai ser reconhecido com uma nomeação aos Óscares?), a minha vontade de ver A Despedida, o filme sensação nos Estados Unidos, aumentou um pouco mais. Até porque para um filme deste género, indie e na maioria falado em chinês, ser tão bem recebido no limite do Ocidente é porque certamente tem muito para oferecer. 


A trama é simples: Nai Nai está a morrer, mas não sabe porque a sua família decidiu esconder-lhe esse facto. Billi é a neta que mora nos Estados Unidos com os pais e que pensa que o melhor é contar a verdade. A família, que há anos vivia longe, regressa à China com um plano traçado: inventar um casamento, para que todos possam despedir-se de Nai Nai. É neste clima de tristeza oculta que o filme se dá, dando sempre a sensação de que a bomba pode explodir a qualquer momento e que qualquer um dos membros da família pode descair-se e revelar a verdade. 

Desde cedo, as diferenças entre Ocidente e Oriente são acentuadas: no Oriente, por norma a família esconde de um familiar que está a morrer, mas no Ocidente isso é mentir e não está certo. A personagem interpretada por Awkwafina é quem melhor transmite essas diferenças, pois durante muito tempo confronta os seus ideias com os da família. A atriz transmite bem as emoções da personagem, pois nunca sabemos bem o que esperar. De início pensamos que é impossível que ela aguente sem contar a verdade à avó, mas à medida que a trama vai avançando e esta vai começando a entranhar-se mais na cultura chinesa, que há tantos anos tinha abandonado, vêmo-la a ficar mais ciente do que vai para além da sua vontade. 


O filme torna-se numa autêntica viagem à China. Somos transportados por ruas repletas de luzes neón com sinais escritos em mandarim, vemos as pessoas a cozinhar refeições tradicionais e inclusive somos apresentados a menus que nos podem soar desconhecidos. A arquitetura é apresentada de um modo sublime, sinal da mudança dos tempos e crescimento das cidades. 

A banda sonora composta por Alex Weston é bela, mas muitas vezes apagada devido ao aumento da tensão. O filme tem um pacing lento e faz-se sentir porque muitas vezes fica no silêncio e limita-se a fixar as expressões das suas personagens, que por si só já dizem tanto. Mesmo assim, os acordes de Weston são de destacar, especialmente nas sequências da cidade. Num determinado momento, os prédios e a banda sonora são apresentados em grande harmonia, entrelaçando-se como se fossem um só, num zoom-out magnífico com os violinos a soar em acompanhamento. 


Este é um filme que marca pela sua trama simples que resulta bem, por uma cinematografia criativa e por grandes interpretações, não só por parte de Awkwafina, mas também pelo restante elenco, com algum destaque para Shuzhen Zhao, que interpreta Nai Nai e que transmite uma enorme energia. Podia ser um filme sem grandes surpresas, mas consegue surpreender por no final não entregar o esperado. Certamente deixará muitas pessoas com um nó na garganta, mas consegue levar-nos a refletir sobre determinados temas, nomeadamente as diferenças culturais e o modo como lidamos com a morte de quem nos é próximo.

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

4 comentários:

  1. Estava completamente desligada deste filme, mas já fiquei cheia de vontade de o ver. Parece-me ter um argumento mesmo incrível!

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  2. Como compreende é dos tais que me diz muito

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