domingo, 19 de janeiro de 2020

"La La Land" (2016), para os loucos que sonham

Damien Chazelle celebra hoje, dia 19 de Janeiro, 35 anos. No seu currículo de realizador já conta com três longa-metragens de relevo: Whiplash (2014), La La Land (2016) e O Primeiro Homem na Lua (2018). Em 2017, chegou mesmo a vencer o Óscar de Melhor Realizador pelo seu trabalho neste filme sobre o qual falamos hoje: La La Land, um musical que conta a história de amor entre duas pessoas, Mia (interpretada por Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), que ambicionam seguir caminhos diferentes na vida. Sempre num ritmo acelerado, consegue ser uma verdadeira obra de arte cinematográfica que mostra que seguirmos os nossos sonhos é o mais importante, mas que as grandes paixões nunca se esquecem. 


Chazelle é um realizador apaixonado por Música, especialmente por Jazz, como já tinha mostrado no seu filme anterior, Whiplash – Nos Limites. Em La La Land a Música está presente, não só por este ser um musical, com uma banda sonora esplêndida composta e escrita por Justin Hurwitz e Justin Paul, mas também pelo facto de o protagonista ser um grande fã de Jazz, com o sonho de abrir um clube onde poderá tocar as suas canções livremente. 

La La Land, ao qual os portugueses decidiram acrescentar Melodia de Amor ao título e os brasileiros fizeram uma melhor escolha ao chamarem La La Land – Cantando Estações, inicia-se com uma música chamada “Another Day Of Sun”. Se prestarmos atenção à letra e ainda que isto nos escape na primeira visualização, conseguimos perceber que logo nos primeiros versos temos uma previsão do final do filme. Uma atriz famosa no meio do trânsito canta: 
I think about that day / I left him at a Greyhound station / West of Santa Fe / We were seventeen / But he was sweet and it was true / Still I did what I had to do / 'cause I just knew / (…) / A technicolor world / Made out of music and machine / It called me to be on that screen / And live inside each scene / (…) He'll sit one day, the lights are down / He'll see my face and think of how he / Used to know me.


Na verdade, o que acontece na história do filme é precisamente o que é dito nesta canção: Mia deixa Sebastian para seguir o seu sonho de ser atriz e cinco anos mais tarde ele olha para ela no meio do público do seu recente clube de Jazz e lembra-se de todos os momentos que viveram juntos. A importância desta canção inicial não está apenas relacionada com o facto de ser um prelúdio do que vai acontecer e é importante mencionar também a fantástica coreografia, toda numa só sequência, no meio das filas enormes de carros em Los Angeles. 

“Another Day Of Sun”, para além de nos mostrar sobre o que vai tratar a história, ajuda a estabelecer desde logo um ritmo ao filme e mostra ao espectador que está mesmo a assistir a um musical. Depois desta, dá-se um pequeno salto no tempo e, já no Inverno, Mia e Sebastian, bastante irritados, cruzam-se em pleno trânsito para dias mais tarde se voltarem a cruzar. Mas antes deste segundo encontro, que corre tão mal como o primeiro, Mia e um grupo de amigas cantam outra música, chamada “Someone In The Crowd” – também ela um prelúdio para o que vai acontecer, visto que nessa mesma noite Mia encontra Sebastian a tocar num bar para uma multidão de pessoas. 
Someone in the crowd could be the one you need to know / The one to finally lift you off the ground / Someone in the crowd could take you where you wanna go / If you're the someone ready to be found.


Quando Mia volta a encontrar Sebastian, as coisas não correm bem para o lado dele pois depois de tocar uma música que não faz parte do reportório do bar onde trabalha é despedido e, consequentemente, acaba por ignorar Mia quando esta se aproxima. Esta música que ele toca é denominada “Mia & Sebastian’s Theme” e é a canção que marca o amor entre os dois. É por causa desta música que Mia entra naquele bar e através do seu olhar e das suas reações percebemos que se acende uma pequena chama no seu coração. Esta é também a primeira música que ela ouve Sebastian a tocar e é também a canção que inicia o epílogo, visto que ele decide tocá-la quando vê Mia cinco anos depois de se terem separado – já falarei sobre isso mais à frente. 

Dias depois, volta a haver um encontro inesperado entre os dois, quando Mia vai a uma festa e percebe que Sebastian está numa banda que está lá a tocar. Nesse mesmo dia, dá-se a primeira canção entre eles – “A Lovely Night”, possivelmente a música com a melhor coreografia do filme (depois de “Another Day Of Sun”, claro). A ironia de “A Lovely Night” é que ambos dizem que não fazem o género um do outro e que nunca se iriam apaixonar, mas nós, enquanto espectadores, sabemos que nada do que eles dizem é verdade, precisamente pelo modo como dançam e cantam durante esta música e também pelas atitudes que têm quando estão na presença um do outro. 


A partir deste momento, são vários os encontros e o amor vai crescendo. O problema é que as suas vidas não se conciliam e os sonhos acabam por levá-los por caminhos diferentes. Mia quer ser atriz e participa em inúmeros castings para atingir o seu sonho; Sebastian sonha em abrir um clube de Jazz, mas enquanto isso não se torna possível vai em digressão com a banda de um antigo colega seu e afasta-se cada vez mais de Mia. Chega uma altura em que é impossível continuarem juntos e, depois de Mia conseguir finalmente ser escolhida num casting, deixam mesmo de se ver. 

Até que cinco anos depois, precisamente na estação do Inverno (durante a qual estes se viram pela primeira vez, no caótico trânsito de Los Angeles), os dois voltam a encontrar-se no “Seb’s”, o clube de Jazz que Sebastian tanto queria. Acontece que agora Mia é casada e tem uma filha, mas percebemos assim que ela entra no clube que ainda não esqueceu Sebastian, cumprindo a promessa que lhe tinha feito antes de se separarem: “I’m always gonna love you”. 


Assim chegamos ao “Epilogue”, um dos momentos mais especiais de La La Land, que é marcado por muita cor, dança e ilusão para o espectador. Mia senta-se no meio da multidão do “Seb’s” e Sebastian entra no palco. Assim que a vê diz “Welcome to Seb’s”, com uma voz quase a desvanecer. Senta-se ao piano e, hesitante, começa a tocar uma música que já tinha aparecido no filme: “Mia & Sebastian’s Theme” – a primeira música que Mia o ouviu tocar, naquela noite em que atraída pelo som do piano decidiu entrar no bar onde ele trabalhava. 

À medida que começam a soar as primeiras notas, todas as luzes da sala se apagam e apenas existem focos direcionados a Mia e a Sebastian. Depois Mia imagina a noite em que viu Sebastian a tocar no bar do qual foi despedido e vemos tudo o que aconteceu antes no filme a repetir-se. Mas desta vez, em vez de apenas passar ao lado dela ignorando-a, Sebastian beija-a e todas as pessoas do bar começam a festejar. Começam, então, a soar as notas da primeira música, “Another Day Of Sun”, seguindo-se as de “Someone In The Crowd”. 


O epílogo regressa a um passado em que estes dois tinham uma vida feliz e em que tudo lhes corre bem: Sebastian leva Mia a clubes de Jazz; as peças de Mia são um sucesso; Mia vai a vários castings e é aceite… Tudo ao contrário do que aconteceu na realidade. O problema é que neste epílogo ambos abdicam de coisas que queriam, dos seus sonhos, mas nunca abdicam um do outro. Por exemplo, Mia é aceite nos castings mas nunca deixa Sebastian para trás e ficam sempre juntos (este chega mesmo a viajar com ela para Paris e abre lá o seu Clube de Jazz). O epílogo transmite todo ele uma ideia de fantasia e magia, quer através dos sons ou mesmo através de tudo o que nos é apresentado. Alguns cenários são pinturas, como quando Mia passa por entre as árvores de cartão ou até mesmo nas zonas de Paris que mostram o rio Sena. A música, por sua vez, alterna-se entre sons alegres e agitados e sons mais suaves e tristes que transmitem uma ideia de indecisão. Destaco o som do trompete, que por momentos parece levar-nos para outra dimensão – a dimensão do sonho - e que faz com que percebamos que nada do que estamos a ver é a realidade. 

Perto do final do epílogo passam várias gravações de como teria sido se ambos tivessem ficado juntos: teriam um filho em vez da filha que Mia teve, teriam uma casa mais pobre do que Mia tem e haveria um ambiente familiar mais simples, mas aparentemente mais feliz do que aquele que vemos antes entre Mia e o seu marido atual. 


Quando a música está prestes a terminar tudo volta à realidade. O marido de Mia pergunta-lhe se quer ficar mais tempo para ouvir outra música e ela responde que não, consciente de que as coisas devem continuar como estavam antes de ter entrado naquele bar. Mas quando está a sair, pára e olha para Sebastian que lhe devolve o olhar com um sorriso. Neste momento, ouvimos umas notas musicais que nos fazem ter a certeza de que estes dois ainda sentem alguma coisa um pelo outro, mas sabem que o melhor foi seguirem os seus sonhos. 

É precisamente este final que marca a diferença: La La Land não pretende ser apenas sobre um casal que vive feliz para sempre (como tantos outros), mas sim um filme sobre seguir e realizar sonhos - e esta é uma temática muito presente nas obras de Chazelle, seja em Whiplash, com um jovem que quer ser baterista profissional, ou em O Primeiro Homem na Lua, em que explora a ambição do homem de chegar à Lua. Só que este La La Land é um daqueles filmes com que qualquer um de nós será capaz de se identificar e é por isso que o final resulta num autêntico murro no estômago – é um verdadeiro abre-olhos.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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