quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

"Mulherzinhas" em análise

Chegou esta quinta-feira aos cinemas a nova longa-metragem de Greta Gerwig, que é mais uma adaptação do romance Mulherzinhas de Louisa May Alcott. Já houve várias adaptações, mas as mais conhecidas são a de 1994, com um elenco apelativo no qual estão nomes como Winona Ryder, Kristen Durst e Christian Bale, e a de 2017, onde Maya Hawke vestiu a pele da protagonista Jo March numa adaptação em formato de minissérie de três episódios. No geral, as adaptações feitas até ao momento foram bem recebidas pelo público e pela crítica, o que pode levantar a questão: há necessidade de mais uma? A verdade é que Mulherzinhas parece ter uma adaptação por geração e, neste caso, só Greta Gerwig seria capaz de realizar a nossa. 


A realizadora de Lady Bird (2017) volta a trazer a sua atriz de eleição, Saoirse Ronan, para a ribalta. Ronan interpreta Jo March, uma jovem que quer ultrapassar os padrões da época e mostrar que uma mulher não serve simplesmente para casar com um homem rico. Florence Pugh, Emma Watson e Eliza Scanlen representam as outras irmãs March, que, ainda que não sejam tão “rebeldes” quanto Jo, também têm os seus próprios sonhos e pensam para além daquela época. 

Jo March é uma jovem mulher escritora que quer sustentar a sua família com o seu trabalho e não com um casamento; tarefa complicada para aquela altura! A história leva-nos para outros tempos, quando as mulheres não tinham poder de escolha. No entanto, as protagonistas são fortes. Felizmente, este não é um daqueles casos, e não me interpretem mal, em que temos um feminismo bruto (ocorre-me o remake de Caça-Fantasmas de 2016) em que os homens precisam de ser ridicularizados para dar força às mulheres. Pelo contrário, temos um equilíbrio necessário para um bom resultado. As personagens masculinas também desempenham papéis importantes, mas naturalmente ficam em segundo plano na história pois elas é que são o centro das atenções.


O filme inicia-se com uma apresentação do modo de vida e estilo de cada personagem no presente e depois recua sete anos para apresentar as quatro protagonistas em clima de irmandade, demonstrando a amizade que existe entre todas elas. Esta introdução, mesmo sendo breve, é fundamental para que compreendamos as diferenças existentes. Neste ponto, podemos já realçar o controlo na escrita de Gerwig, que entrega apenas as informações necessárias no início, sem se apressar para ir direita ao que verdadeiramente importa. Tudo leva o seu tempo, o que ajuda o espectador a criar uma determinada empatia com as personagens. 

A narrativa dá-se num modo alternado, o que nem sempre me agradou, pois pareceu-me que alguns saltos no tempo foram mal escolhidos. Não me parece uma boa opção saltar de uma tragédia para um momento muito feliz, pois apaga as consequências de alguns acontecimentos. Mesmo assim, é preciso dizer que as transições não são confusas, pois as caracterizações das personagens, especialmente no que toca ao guarda-roupa, conseguem enaltecer a diferença dos tempos, mas gostava que tivesse havido um melhor trabalho de maquilhagem, para acentuar a passagem dos sete anos nas personagens. 


No que toca à banda sonora, tenho de admitir que senti uma falta imensa da música alegre que toca no trailer e que eu, desde há uns meses, já andava a associar ao filme. A composição de Alexandre Desplat pareceu-me ter ficado aquém da energia que se pretende transmitir. Gostava que se tivesse feito soar mais! 

O elenco é, sem dúvida alguma, o ponto mais forte e também o motivo que levará muita gente a ver esta nova adaptação. Saoirse Ronan, Florence Pugh, Emma Watson, Eliza Scanlen e Timothée Chalamet são os que melhor se destacam, ao entregarem performances energéticas e proferirem os diálogos com uma naturalidade carismática. Ronan é uma Jo March perfeita e adequa-se perfeitamente ao papel de uma escritora do séc. XX, mas Florence Pugh acaba por surpreender um pouco mais ao ser uma personagem sobre a qual não conseguimos formar rapidamente uma opinião: tanto parece ingénua, como no momento seguinte demonstra inveja pelas irmãs, essencialmente por Jo. As intrigas entre estas duas conseguem levar a bons momentos de humor. 


Mulherzinhas revelou ser um remake bem conseguido. É divertido e ligeiro, apesar de um ou outro momento mais trágico. A energia contagiante do elenco e das personagens elevam-no a outro patamar. É notável, ainda, uma evolução na realização de Gerwig, que presta aqui uma maior atenção a pequenos detalhes interessantes.

8/10
SOBRE A AUTORA

Estudante de Cultura e Comunicação, com uma grande admiração pela sétima arte. Vejo filmes desde criança e sempre tive um gosto especial pelas animações e grandes clássicos. A criação deste espaço foi a solução para ligar este meu interesse à escrita, da qual também tanto gosto!

2 comentários: