segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

"Uma Vida Escondida" em análise

O novo filme de Terrence Malick, realizador de A Ávore da Vida (2011), conta a história verídica de Franz Jägerstätter, um camponês e objetor de consciência austríaco que leva uma vida simples, mas gratificante, na quinta da família na aldeia montanhosa de St. Radegund, quando em 1940 é convocado para o treino militar do exército nazi, no início da Segunda Guerra Mundial. Mas Franz é incapaz de dedicar a sua lealdade a uma causa que considera injusta, o que o colocará em conflito direto com os membros da sua aldeia, com a sua Igreja e até mesmo com a sua família. 


Uma Vida Escondida traz elementos que já são típicos das obras de Malick: o contacto com a natureza, as paisagens e as questões existenciais, que são aqui ainda mais exploradas, questionando os motivos que levam alguém a combater e a caminhar em direção à morte. 

Durante os minutos iniciais do filme começamos por conhecer Franz e a sua mulher, Fani. Vêmo-los a tocar na terra enquanto plantam batatas e colhem trigo, deitados na relva a olhar para as nuvens, como se o tempo parasse. A natureza é apresentada em todo o seu esplendor, com muitos detalhes que talvez passassem despercebidos se este filme não fosse deste realizador. É neste início que a mulher recorda o momento em que conheceu o marido, quando tudo era belo. Depois dá-se o choque da guerra e o momento de reviravolta da narrativa: começa a haver receio, seja pela chegada de uma carta com a convocatória que afastará Franz ou pelo simples facto de o resto da aldeia já ter conhecimento de que este se opõe às decisões de Hitler. O contraste é interessante e os dois protagonistas são capazes de o transmitir da melhor maneira, tendo sempre uma posição firme em relação ao que sentem, mas nunca deixando de mostrar preocupação, que expressam através dos diálogos. 


As palavras ganham aqui novos sentidos, sendo proferidas espaçadamente e com força. Muitas vezes as falas são em voz off, durante a leitura de cartas, e levam a refletir no que está a acontecer. É de destacar a escrita do argumento, que nunca se torna cliché. Vários temas são abordados, como, por exemplo, a religião. Somos colocados no seio de uma família de crentes e todos eles procuram entender através da igreja o motivo pelo qual os homens começaram a guerra e, acima de tudo, acreditam que Deus não lhes fará mal. É inevitável refletir acerca deste tema num filme como este que retrata um homem do povo, mas a verdadeira intenção de Malick nunca é afastada: o que se procura é a resposta para a vida. 

Este filme marca pela diferença por apresentar outro lado da Guerra: o daqueles anónimos que se recusaram a prestar lealdade perante alguém com quem não concordavam. Temos um ponto de vista familiar, pois somos levados para uma pequena comunidade e vemos todas as mudanças pelas quais um simples casal passa por causa de uma decisão que vai contra o habitual. Recentemente tivemos uma outra história sobre um objetor de consciência, O Herói de Hacksaw Ridge (2016) de Mel Gibson, mas este em nada se assemelha, até porque não somos levados para os campos de batalha e no final o herói não é recompensado por nenhum dos seus atos. Vive uma “vida escondida”, no anonimato. 


A banda sonora, composta por James Newton Howard, desempenha um papel fundamental no decorrer da narrativa. Inicialmente tem acordes esperançosos que vão desfalecendo aos poucos, chegando a ter coros sufocantes em alguns momentos. Devo admitir que é principalmente nas sequências de sossego em que vemos as paisagens que esta melhor se sobressai e aí é possível entender o quão bela é. Recomendo que depois de verem o filme dediquem alguns minutos a ouvi-la, pois vale muito a pena. 

Este era um dos filmes que eu mais aguardava para os primeiros meses de 2020 e só espero que o resto do ano traga filmes assim tão bons. Apesar das suas três horas de duração, nunca senti que Uma Vida Escondida estava a tornar-se aborrecido ou a fugir do seu objetivo. Na verdade, foi um gosto enorme conhecer esta história, estas personagens e sentir a natureza desta maneira.

10/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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