quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

"Bora Lá" em análise

Custa-me um pouco admitir, mas nos últimos anos nunca me senti tão pouco entusiasmada com um filme da Disney e Pixar como estava antes de ir ver Bora Lá (ou, no nome original, Onward). Os trailers e imagens promocionais não acordaram uma faísca em mim ao ponto de se tornar num filme que eu antecipasse, mesmo tendo uma temática que, por norma, seria do meu agrado. Foi, então, com baixas expectativas que Bora Lá entrou na minha vida, mas foi com algum agrado que por cá ficou.


A trama leva-nos para um mundo atual, mas onde ainda há feitiços e criaturas mágicas. Somos apresentados à família Lightfoot, mais precisamente aos irmãos Ian (com voz de Tom Holland, na versão original) e Barley (Chris Pratt), que inesperadamente ganham a oportunidade de passar mais um dia com o seu falecido pai, depois de este lhes ter deixado como presente, antes de morrer, um bastão e um feitiço que permite a sua aparição de novo em vida. No entanto, o feitiço não corre da melhor maneira e obriga os irmãos a embarcarem numa demanda, repleta de pequenos obstáculos que vão fazendo com que as 24 horas extra comecem a encurtar-se cada vez mais.

Logo no início é perceptível que em termos de animação podemos não estar perante um dos melhores filmes da Disney e Pixar, no entanto também rapidamente é notável que o foco aqui é a originalidade da história e do mundo que é criado ao seu redor, que muitas vezes traz um ambiente que parece saído de um jogo de Dungeons & Dragons, ou quase como se fosse um O Senhor dos Anéis da animação nos tempos modernos. 


Somos transportados para uma terra onde unicórnios andam à solta e elfos vão à escola e praticam exercícios de fitness, ou onde um ser mítico é agora gerente de um restaurante onde se fazem festas de aniversário. Pode parecer absurdo, mas é um exemplo caricato de como poderiam ser os dias de hoje se ainda existisse magia – seria usada ou ignorada por não ser prática? A comodidade que assomou o dia-a-dia das pessoas é aqui explorada, então, com um tom cómico, apresentando personagens que parecem apenas seguir a onda daquilo que é prático; por exemplo, as fadas deixaram de voar por preguiça de usar as suas asas. A preferência por tudo aquilo que é pragmático apresenta-se aqui como um motivo pelo qual deixou de ser praticada magia.

As personagens protagonistas começam por receber uma apresentação que permite ao público entender as suas personalidades e identificar-se com eles. Ian é introvertido e Barley é oposto. Nem sempre as atitudes de cada um são entendidas pelo outro, o que por várias vezes leva a problemáticas no decorrer da história e confrontos entre opiniões. No final, pequenos elementos que vão sendo apresentados ao longo dos momentos de maior tensão ganham enormes significados, o que leva a um argumento rico e pensado ao pormenor.


A originalidade da personalidade das personagens e a visualidade dos distintos cenários deixam-nos com uma maior vontade de conhecer aquele pequeno mundo, que no final acaba por sentir-se que é pouco explorado, pois os protagonistas parecem ser levados sempre para locais mais solitários, como montanhas e grutas, para cumprir os objetivos da grande demanda. O facto de ter ficado tanto por apresentar e tantas criaturas e espécies por conhecer leva-me a crer que, se fizer sucesso nas bilheteiras, talvez daqui a uns anos se comece a ponderar a possibilidade de uma sequela.

Por fim, mas não menos importante, falta referir que a banda sonora consegue entregar uma maior emoção aos momentos de ação, com variações de temas mais ligados ao rock - que claramente é o género favorito de Barley - e outros que pretendem puxar pelos nossos sentimentos. Na verdade, no terceiro ato esta desempenha um papel importante, pois entrega uma maior nostalgia a uma sequência extremamente emocional.


Este é um filme onde não existe propriamente um vilão e é de louvar que a Disney e a Pixar apostem em algo original, novo no currículo, que não segue a estrutura narrativa típica em que temos bons e maus. Na verdade, Bora Lá pode não vir a ser dos mais recordados dos estúdios no futuro, mas consegue quebrar o ritmo das sequelas e remakes, tornando-se, assim, numa lufada de ar fresco, por ser tão criativo.

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

4 comentários:

  1. Ainda não tinha ouvido falar deste filme, mas a tua crítica deixou-me curiosa. É tão bom quando pensam um bocado fora da caixa e investem em produções diferentes!

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    1. Acredito que se vires este vais gostar. Parece-me o teu estilo!

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  2. O trailer não me fascinou, mas fiquei curioso depois de ler a crítica. Aproveito para dizer que gosto do novo site!

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