domingo, 2 de fevereiro de 2020

"Diamante Bruto" em análise

O que pensam quando ouvem falar de Adam Sandler? Comédias, certamente, e talvez possam pensar, também, que não é assim um grande ator, não é verdade? Ultimamente, este tem caído no erro de participar em alguns filmes que foram plenos fracassos, o que tem manchado um pouco a sua imagem. Agora, surge em algo completamente novo na sua já longa carreira: Diamaente Bruto ou, no original, Uncut Gems, que não pode ser chamado de “um filme do Adam Sandler”, mas sim “um filme dos irmãos Safdie”, e isso já é descrição suficiente. 


Esta aposta da Netflix estreou-se na plataforma na passada sexta-feira, dia 31, mas em muitos países teve um lançamento mais antecipado, motivo pelo qual foi a escolha de muitas pessoas nas listas de “favoritos de 2019”. Já chega com grandes críticas, nomeadamente elogios à performance de Sandler, que vai para além dos seus limites. Parece-me pertinente dizer que a melhor parte é o fator surpresa de ninguém, nesta altura do campeonato, imaginar Adam Sandler a fazer um género diferente daquele a que nos tem habituado nos últimos tempos. A sua personagem, Howard Ratner, é um joalheiro, que também é viciado em apostas desportivas. A grandeza do filme está na montanha-russa que é acompanhá-lo, entre vitórias e desgraças, numa vida inconstante sob a qual não tem controlo. Sandler veste bem a sua pele, transmitindo tudo com uma naturalidade tremenda. 

Uncut Gems é excêntrico e intenso. Uma correria autêntica, capaz de nos deixar com os nervos à flor da pele, ainda que a premissa seja simples. Leva-nos para a Nova Iorque que os Safdie tanto adoram e que já exploraram noutras obras; uma cidade de negócios sujos e fracassos paralelos a vitórias. Uma cidade de, acima de tudo, incertezas. É isso que vamos sentido ao longo do filme: incerteza, pois tudo pode estar muito bem como de repente estar mal. Vamos sentido algum receio pelo protagonista, que é algo que ele parece não sentir, estando, na maioria das vezes, bastante confiante das suas péssimas decisões. A banda sonora, composta por Daniel Lopatin torna-se no acompanhamento ideal, quase um grito de loucura, acompanhando sempre as ações de Howard e despertando os nossos sentidos com os seus ritmos frenéticos. 


Há um equilíbrio entre thriller, um drama cru e uma comédia negra, com os realizadores a unirem-se totalmente aos atores, que são seguidos fielmente pelas câmaras. No que toca ao argumento, devo dizer que no segundo ato, infelizmente, senti que a história estava a começar a enrolar-se, apenas para se soltar completamente no final, que é um dos momentos de maior tensão do filme. Sabem quando numa montanha-russa chega aquela altura em que são virados de cabeça para baixo? Foi assim que me senti com o final de Uncut Gems; depois de muitas subidas e descidas, os últimos minutos do filme são um clímax de tensão, energia e loucura. 

Bem sei que, no que toca ao elenco, o maior foco tem sido Adam Sandler, no entanto gostava de dar algum destaque a Julia Fox, que desempenha a sua amante. Esta é a sua estreia numa longa-metragem e parece-me que fez o necessário para começar a conquista por uma carreira promissora. Certamente daqui em diante terá mais alguns focos apontados para ela. 


Diamante Bruto é uma viagem de pouco mais de duas horas por uma mente cheia de vícios. É arrepiante e claustrofóbico em muitos momentos e traz interpretações estrondosas no formato de personagens fora do comum. Lamento apenas ter sentido que lá para o meio estava a demorar-se demasiado tempo, porque de resto acredito que tem momentos memoráveis e muito bem conseguidos. É mais uma prova de que os Safdie estão a ir por um bom caminho!

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

2 comentários: