quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

"Gretel & Hansel" em análise

Toda a gente conhece o famoso conto dos irmãos Grimm, seja através da literatura ou dos vários filmes que já levaram a história de Hansel e Gretel até ao grande ecrã. Qual a necessidade, então, de mais um filme a contá-la? Oz Perkins certamente terá pensado nisto, motivo pelo qual decidiu dar-lhe um toque de horror – como se a história por si só já não fosse um tanto assustadora. 


Gretel & Hansel, cuja diferença começa pelo inverso do nome, leva-nos para o meio deste “conto de fadas”, cujo destino é uma casa no meio da floresta onde há um banquete, mesmo à espera dos nossos dois protagonistas que se encontravam perdidos na floresta, esfomeados. Claro está, a dona da casa revela uma ligação às trevas e a uma antiga história relacionada com uma criança com um capuz cor-de-rosa, que tal como ela também tinha poderes sobrenaturais. 

Os traços de terror reinventam um pouco o conto, dando-lhe este twist mais ligado às artes negras. Não se espere um filme do género repleto de jumpscares, pois, ainda que pareça haver algumas tentativas, o resultado nunca gera um saltinho na cadeira. Na verdade, assume-se um pacing tão lento que até os próprios sustos parecem surgir lentamente, não tendo um mínimo de impacto. O terror está talvez presente na história e também em alguns momentos que fixam elementos mais bizarros. 


O argumento vai buscar a história tradicional, adicionando o tal twist, no entanto soa extremamente vago, com diálogos a serem pronunciados sem significados. Por vezes, vamos ficar a pensar no motivo que leva determinada personagem a agir de tal maneira, pois isso nem sempre é explorado, mas outras vezes ficamos pasmados com falas que são simplesmente óbvias: quase como olhar para um machado e afirmar com convicção “isto é um machado”. Sente-se uma necessidade de preencher o silêncio quando as ações por si só já deixam o que está a acontecer explícito, mas depois no final sente-se também que algumas coisas ficaram por explicar, deixando alguns plot holes pelo caminho. 

Nota-se que o filme podia ser muito melhor nestes termos quando damos por nós a refletir na sua visualidade. A estética de Gretel & Hansel é soberba e original, muitas vezes com jogos de cores impactantes, a complementar as paisagens únicas da floresta misteriosa. A iluminação aparece como uma grande vantagem na cinematografia do filme, adequando-se não só ao espaço, mas também aos sentimentos e emoções das personagens. 


No final, sente-se que esta foi uma oportunidade perdida de se entregar um filme que podia ser memorável. Fica muito aquém do que podia ser, pois apresenta um argumento preguiçoso, em contraste com uma cinematografia interessante. As prestações também parecem ser divisivas, com Sophia Lillis a interpretar a jovem Gretel com destaque, mas com todos os outros a parecerem meros figurantes, pois não conseguem acentuar a sua presença.

5/10
SOBRE A AUTORA

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas tenho E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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