terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

"Jojo Rabbit" em análise

Taika Waititi é um realizador com carisma e um estilo muito próprio, uma visão muito particular das coisas. Estamos a falar de alguém que, em 2014, realizou e protagonizou um pseudo-documentário sobre vampiros a viver na atualidade. Agora, em Jojo Rabbit, nomeado aos Óscares, volta a cunhar a sua marca, apresentando uma sátira da Alemanha nazi, que resulta num filme em que vence o amor. 


Jojo (Roman Griffin Davis) é um rapazinho de dez anos e meio que é um aficionado pelo nazismo, assim como tantos outros da sua idade. Só que Jojo tem algo que os outros não têm: Adolf Hitler, interpretado pelo próprio Waititi, como amigo imaginário, sempre pronto a incentivá-lo a fazer o mal. Jojo mora com a sua mãe, Rosie (Scarlett Johansson), que, em segredo, esconde uma jovem judia (Thomasin McKenzie) em casa. Quando Jojo encontra a rapariga, percebe que esta não tem nenhuma das características que tinha aprendido sobre os judeus: não tem chifres, nem cauda, nem outras coisas menos agradáveis. Aparenta ser perfeitamente normal, humana como ele, o que leva Jojo a começar a questionar os ideais em que acreditava até então. 

O filme tem sido fortemente criticado. Muitas pessoas acham que “goza” com um período negro da História e que não respeita a memória de todos aqueles que foram mortos devido à ideologia nazi. No entanto, quem vir mais de cinco minutos vai perceber que a história vai muito para além de uma brincadeira. Há aqui coração. O nosso protagonista é uma criança apanhada numa onda de ódio, mas aprende por si mesmo a seguir o melhor caminho. O trabalho feito na criação desta personagem é essencial, pois nunca sentimos que Jojo é um verdadeiro apoiante de Hitler. Na verdade, vamos vendo que este não concorda com muitas coisas que lhe são propostas, incluindo matar um coelho indefeso – daí provém o nome do filme. 


A personagem de Waititi pode tornar-se no fator mais polémico, pois é uma caricatura pensada ao pormenor, desde o modo de falar (muito rapidamente e quase sempre a gritar) às reações e feições. Claro que não estamos a falar de algo ao nível de O Grande Ditador (1940) de Chaplin, mas este é um fator cómico interessante. Não deve ser levado como ofensa, mas deve ser recebido como um meio de reflexão, não só para a época que é representada, mas também em relação aos dias de hoje. Para além disso, é preciso dizer que a sua presença não é constante; vai aparecendo apenas como desmotivação para Jojo quando este começa a pensar por si mesmo, em vez de querer somente encaixar-se num grupo. Essencialmente, a história quer mostrar que devemos ser capazes de pensar por nós mesmos, até quando todos nos dizem o contrário do que pensamos. Mas se a personagem de Waititi pode não ser bem recebida por muitos, a de Scarlett Johansson tem de tudo para cair em boas graças, tal é a delicadeza que aqui deposita. É bonita e com uma personalidade tão forte que torna todos os momentos em que aparece especiais. Traz um desempenho notório, essencialmente numa sequência em que faz um monólogo em que representa a mãe e o pai de Jojo, fazendo com que até o público queira acreditar que o pai do rapaz está mesmo presente em cena. 

A narrativa permite que nos apeguemos a algumas personagens, nomeadamente às que rodeiam Jojo. A jovem judia começa por aparecer como alguém com uma certa raiva, mas rapidamente começamos a entendê-la quando a vemos em conversas com a mãe do rapaz. Entende-se que tudo leva o seu tempo. Algumas sequências mais ternurentas acrescentam o tal amor que Waititi queria transmitir e acentuam que esta não é apenas uma comédia. Na verdade, às vezes esquecemos mesmo que esse é o género do filme. Há espaço para tristeza aqui, com um momento chocante que certamente deixará todos surpreendidos. 


Há uma excecional atenção aos pormenores em Jojo Rabbit, seja no figurino, como é o caso dos sapatos de Rosie a aparecerem em grandes planos, ou no foco nas propagandas e em fotografias. Estes pequenos detalhes contribuem para tornar o filme mais realista, até porque aproveitam ao máximo o guarda-roupa e cenários bem compostos e pensados ao estilo da época. 

A banda sonora de Michael Giacchino é irreconhecível, especialmente quando pensamos noutros filmes para os quais compôs - The Incredibles (2004), Missão Impossível 3 (2006), Ratatui (2007), Rogue One: Uma História de Star Wars (2016), são só alguns exemplos. É, maioritariamente, trapalhona, mas segue o ritmo do protagonista, alterando o seu tom dependendo das personagens com quem este interage, fazendo com que às vezes se torne mais nostálgica e sensível. Para além dos seus acordes, também músicas que foram valentes êxitos se fazem soar, desde David Bowie a The Beatles. 


Para terminar, escrevo aqui o que disse assim que saí da sessão: se todos os filmes tivessem tanto amor como este Jojo Rabbit, o mundo do Cinema seria mais bonito. Isto é especial! Taika Waititi desenvolve um ponto de vista diferente, mas essencial. Leva-nos a refletir. Depois, é capaz de entregar um argumento elaborado, com personagens carismáticas pensadas com muito detalhe, desempenhadas por um elenco que as interpreta de modo sublime. É um sério candidato ao Óscar de Melhor Filme!

9/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

4 comentários:

  1. Quero muito ver esse filme, é uma sátira mesmo audaciosa!
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

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  2. «se todos os filmes tivessem tanto amor como este Jojo Rabbit, o mundo do Cinema seria mais bonito», tenho mesmo que ver *-*

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