domingo, 16 de fevereiro de 2020

"O Tempo Contigo" em análise

O realizador Makoto Shinkai está de regresso à animação, depois do seu sucesso Your Name, em 2016, que se tornou rapidamente num dos filmes mais vistos de sempre no Japão. O Tempo Contigo (no original, Weathering With You) também não esteve longe de tal façanha por aqueles lados, mas só chega na próxima quinta-feira, dia 20, às nossas salas de cinema! 


O argumento escrito por Makoto Shinkai tem, novamente, alguns traços fantasistas, no entanto é baseado numa realidade cada vez mais assustadora: as alterações climáticas. A ideia de Shinkai baseou-se nas mudanças drásticas de tempo que Tóquio ultrapassa no Verão. O que aqui temos é, então, um romance com uma grande preocupação pelo estado do clima. 

O Tempo Contigo começa por apresentar Hodaka, um rapaz que foge de casa e segue um raio de luz, idêntico a um sonho, até Tóquio, cidade que está com mau tempo constante, com grandes chuvadas, no Verão. Sem lar onde morar, Hodaka torna-se num sem-abrigo. Certo dia, conhece Hina, uma funcionária do McDonald’s que, secretamente, lhe oferece um hambúrguer. O caminho de ambos volta a cruzar-se quando Hina estava prestes a tomar uma má decisão, pela necessidade de tomar conta do seu irmão depois da morte da sua mãe. Hodaka e Hina começam, então, a endireitar as suas vidas, mas a rapariga revela que consegue controlar o tempo e aceita isso como profissão. Faz as pessoas felizes ao conseguir que a chuva dê lugar ao sol. No entanto, tudo tem um preço e estes seus esforços obrigam-nos a tomar uma decisão: sacrificarão tudo pelo bom tempo, ou serão felizes juntos mesmo com a chuva a alagar a cidade? 


Logo no início ficam também estabelecidas outras preocupações para além das alterações climáticas. Sente-se que basta um simples passo para o caminho errado para que a vida dos personagens mude drasticamente para pior. No caso de Hodaka, este é perseguido por uma má decisão, que acarreta responsabilidades não só para ele, mas também para quem o rodeia. É, então, num ambiente sensível que também temos acesso a uma visão de Tóquio, cujo lado aqui apresentando não é certamente o mais kawaii. Muitos dos cenários são negros e sujos, inclusive dão um relance de onde pode chegar o desespero de alguém, visitando até bares noturnos, onde existem sinais de maus tratos para com os trabalhadores. Shinkai não entrega aqui um conto de fadas, mas sim uma obra que nos leva a refletir sobre o que é correto e o errado e que nos deixa, muitas vezes, com o coração nas mãos ao vermos os protagonistas a caminharem lentamente para um abismo. 

Hodaka e Hina são duas personagens que imediatamente conseguem conquistar a nossa empatia. Ambos são diferentes, mas a sua união torna-se única, no sentido em que vemos que são capazes de trazer um grande positivismo para as suas vidas quando “trabalham” em equipa. As restantes personagens também conseguem ter a quantidade acertada de carisma, pois todos fazem pequenas ações que nos levam a admirá-los. O argumento de Shinkai dá tempo para que todos eles possam brilhar um pouco, mas sempre sem roubar a atenção dos dois protagonistas. 


Visualmente, o filme assemelha-se ao estilo que Shinkai já tinha estabelecido nos seus filmes anteriores, mas é inevitável compará-lo, somente neste sentido, a Your Name, pois muitos dos cenários são os mesmos. A nitidez e luminosidade tornam-no numa experiência deslumbrante, assim como o seu antecessor, e deixa-nos com vontade de guardar cada frame num screenshot, tal a sua beleza. Neste aqui, assim como em Jardim das Palavras (2013), temos ainda a possibilidade de ver melhor como Shinkai anima a chuva, com várias gotas a serem apresentadas em grandes planos. Desta vez também temos um maior acesso à cidade de Tóquio, que de noite dá lugar a grandes painéis de publicidades em cores néon, que refletem nas poças de água, levando a um resultado sublime. 

Por fim, mas não menos importante, é preciso falar sobre a banda sonora, a cargo dos Radwimps, que também fizeram a de Your Name. Esta é capaz de nos tocar, quase tanto quanto a própria imagem e a história. A determinado momento do filme, dá-se uma grande tensão e a banda sonora (nomeadamente a canção “Is There Still Anything That Love Can Do?”) aparece como um sinal de esperança, com o seu ritmo espaçado e a voz suave do vocalista. Por falar em Your Name, é curioso referir que o realizador tem noção de que muitas das pessoas que vão ver este filme viram o anterior e por isso presenteia o espectador com dois pequenos cameos inesperados, que fazem sentido e são capazes de nos levar a expressar um sorriso. 


O Tempo Contigo torna-se num romance sensível, belíssimo visualmente e com mensagens importantes. É um filme essencial para os fãs da animação japonesa, mas é ainda mais recomendável para quem não está habituado ao género, pois seria uma excelente forma de introdução!

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

6 comentários:

  1. Pela mensagem e por todos os elogios endereçados, tenho mesmo que ver esta animação!

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    1. Recomendo que antes vejas outro filme do mesmo realizador chamado "Your Name"!

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  2. A vida a retomar em Macau aos poucos e eu também a retomar os blogues aos poucos.

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  3. Estou a pensar seriamente ver este filme! Parece-me ser super interessante.

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