quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Uma loucura chamada "Mãe!" (2017)

Darren Aronofsky celebra hoje 51 anos e não podia deixar passar a oportunidade de falar sobre um dos meus filmes favoritos da sua carreira. Curiosamente, não me refiro a Requiem For a Dream (2000) ou a Cisne Negro (2010) – que são, atenção, excelentes filmes –, mas sim a Mãe!, a sua obra-prima mais recente. 


“Mãe!”, lançado em 2017, conta com Jennifer Lawrence e Javier Bardem nos papéis principais. É um filme cheio de mistério e é preciso pensar para realmente perceber de que se trata. A personagem de Jennifer Lawrence e a de Javier Bardem formam um casal. Moram numa casa que está ser construída aos poucos pela personagem de Jennifer, enquanto a personagem de Bardem, que é um escritor, tenta escrever poemas. Certo dia, recebem uma visita inesperada: um homem que diz ser médico, mas que mais tarde admite que é, também, um grande fã do escritor. De seguida, outra visita: a mulher do médico. A personagem de Bardem convence a sua mulher a recebê-los em casa, mas coisas estranhas começam a acontecer e mais visitas inesperadas continuam a chegar. A personagem de Lawrence começa a suspeitar de todas estas pessoas, mas o marido acha tudo normal e continua a dividir a sua casa com estes estranhos. 

Caso já se estejam a questionar, refiro-me aos protagonistas como “personagem da Jennifer” e “personagem do Javier” porque o nome das personagens nunca é mencionado. Tratam-se apenas por “querido”, “querida”, nunca pelo nome. Nos próprios créditos aparecem como “ela” e “Ele”. 


Mãe! é considerado um filme de terror e mistério. Não assusta, mas é capaz de deixar uma pessoa chocada e até mesmo irritada. O suspense do filme é acentuado pelos sons, que também despertam a nossa curiosidade. Por vezes também o silêncio marca a sua presença, deixando os espectadores ainda mais ansiosos. 

Enquanto estiverem a ver o filme, vão pensar: “o que se está a passar aqui?”. Digamos que é muito, mas mesmo muito, estranho e parece que nada faz sentido. É preciso prestar bastante atenção a tudo e é fundamental pensar muito enquanto estamos a ver o filme, para realmente sermos capazes de o perceber. 


Toda a história é passada na casa em que o casal mora, num sítio onde não existe mais nada. Algumas partes da casa têm luminosidade, especialmente no início. Percebemos que as zonas que a personagem da Jennifer está a reconstruir são mais claras. Depois, à medida que o filme se vai aproximando do final, a escuridão toma o lugar da luz e começamos a ter cenas cada vez mais negras.  

Relativamente aos atores, estamos perante muito boas representações. Depois de uma pequena pausa na carreira, Jennifer Lawrecene assumiu um papel que não se assemelha a nenhum antes feito. Esta foi uma altura em que a sua imagem parecia estar saturada, depois de ter aparecido em tantos filmes com lançamentos próximos e anúncios de televisão, por isso a pausa que fez e este regresso estrondoso levaram a um enriquecimento da sua carreira. 


Agora continuo este artigo com uma visão mais pessoal, que acredito não ser a mesma de alguns dos leitores. Mãe! tem muitos significados escondidos e é impossível para mim continuar esta publicação sem falar sobre eles. Por isso, caso ainda não tenham visto o filme aconselho que não continuem a ler, porque não quero estragar a vossa experiência. O que vou escrever a seguir contém spoilers

Os nomes das personagens nunca são revelados, o que deixa o espectador com dúvidas acerca do que se trata no filme. Tenho a certeza que muitas pessoas nem o vão conseguir perceber e nem eu sei se o entendi. Depois do meu visionamento, concluí que a personagem de Javier Bardem é Deus. Ora, desde a chegada dos primeiros desconhecidos à casa, percebemos que este homem tem muitos fãs que seguem e repetem tudo o que ele diz e escreve; admiram-no a um ponto extremo. Há coisas que ele diz que realmente lembram coisas escritas na Bíblia como, por exemplo, que devemos partilhar com o próximo e que devemos perdoar - e estas coisas são repetidas pelos seus “fiéis”. As minhas suspeitas acerca da identidade desta personagem podem ter sido confirmadas no final do filme, em que a única letra maiúscula escrita nos créditos está no nome desta personagem: “Him”. Tudo me levou a crer também que o livro de poesia, tantas vezes referido, deve ser entendido como o Novo Testamento. Para além disso, outras personagens são metáforas diretas da Bíblia. 


Mas se a personagem de Bardem é Deus, o que representa a personagem de Jennifer? Esta parece-me bem mais difícil de compreender, especialmente tendo em conta o final do filme. Inicialmente, pensei que fosse a virgem Maria, pois desde o início do filme percebemos que tem uma pedra preciosa, digamos assim, que é muito importante e que pode simbolizar a Vida. Ainda tenho muitas incertezas, mas no meu veredicto final diria que a personagem é a Terra, a Mother Earth, ou a mãe natureza. O que me leva a pensar isto é o seguinte: de acordo com muitos pensamentos, Deus criou a Terra. Neste filme vemos aquilo que pode ser um círculo vicioso da criação da Terra, sendo que até vemos algo que pode ser considerado um apocalipse no final - depois do fim do mundo, este poderá ser criado de novo por Deus. 

Para sustentar ainda mais esta minha ideia de que a personagem da Jennifer é a Terra, posso referir que há uma parte em que chegam imensos desconhecidos à casa e começamos a ser bombardeados com situações que lembram vários acontecimentos históricos, como, por exemplo, cenas que parecem saídas da Segunda Guerra Mundial. Também num outro momento, em que a personagem está prestes a dar à luz, tudo estremece à sua volta, o que se assemelha a um terramoto. A Terra é mal tratada, o que conduz ao seu fim. 


Seja este ponto de vista correto ou não, partilhem da mesma opinião que eu ou nem por isso, é inegável que estamos perante um filme com traços religiosos, que mostra que muitas pessoas seguem as suas crenças ao extremo, por vezes nem percebendo o que realmente está certo ou errado. 

Dizem que este é um daqueles filmes que se adora ou se odeia. Tenho de ser sincera e dizer que quando o vi pela primeira vez estava a detestar vê-lo e ansiosa pelo final. Os últimos trinta minutos do filme são uma loucura, uma enorme confusão. Ver os créditos a começar foi um alívio. Mas o objetivo de Mãe! é deixar uma pessoa a pensar e não parei de pensar neste filme durante os dias depois da sessão. Cheguei à conclusão que é impossível falar sobre o filme a quente. É preciso respirar fundo depois de o ver. Semanas depois percebi que até tinha gostado. Anos passaram e sei que afinal adorei. Precisamente porque me fez pensar e obrigou-me a criar teorias sobre as personagens para conseguir perceber (ou tentar perceber) tudo. A melhor parte é que dependendo das nossas crenças (ou falta delas), é possível receber a história de maneiras diferentes! Caso estejam curiosos, recomendo que o vejam. Mas preparem-se para duas horas de plena loucura, que vos vão deixar com os nervos à flor da pele. 
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes, escreve cartas e coleciona figuras e outras tralhas! No que toca à Sétima Arte, desde criança que fico encantada com as animações, mas os grandes clássicos também me conquistaram o coração. Forrest Gump, O Resgate do Soldado Ryan e Cinema Paraíso são alguns dos meus favoritos. E é impossível esquecer a trilogia de O Senhor dos Anéis!

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