terça-feira, 10 de março de 2020

"Bloodshot" em análise

O novo filme “dos produtores de Velocidade Furiosa” – uma etiqueta que, à partida, é imediatamente capaz de atrair uma multidão de fãs – só estreia, oficialmente (e se o coronavírus não impedir), na próxima quinta-feira, mas, na verdade, já está em exibição em várias salas de cinema desde o dia 5 de Março, devido a sessões especiais cujo motivo de existência não se entende muito bem, pois está longe de ser um dos filmes mais aguardados do ano. Bloodshot, baseado nas bandas-desenhadas com o mesmo nome, traz o regresso de Vin Diesel ao grande ecrã, nesta que é a primeira longa-metragem de Dave Wilson, com argumento de Jeff Wadlow (que, no curto espaço de um mês, já foi para os cinemas duas vezes, anteriormente com A Ilha de Fantasia). 


“Ray Garrison, um soldado que foi morto, é reanimado com superpoderes”. É esta a sinopse do filme dada pelo IMDb. Simples, básica, capaz de despertar um mínimo de curiosidade. Fui para o cinema apenas com isto em mente, sem ter visto o trailer. O meu pouco conhecimento permitiu-me receber com algum entusiasmo algo que até podemos chamar de plot-twist. No entanto, ao chegar a casa fui ver o trailer e lá percebi que o pouco fator-surpresa que Bloodshot tem está todo apresentado – até pela ordem dos acontecimentos – no trailer, o que me irritou profundamente. Ora, se o que poderia tornar o filme interessante é totalmente apresentado no trailer, para quê ir vê-lo se depois disso não há mais evoluções? Das duas uma: ou vão ver o filme às cegas, que foi o que fiz, ou, honestamente, vejam o trailer, porque o filme é só isso – claro que também valerá a pena se forem muito fãs de Vin Diesel. 

Custa-me dizer que o que mais me agradou aqui foi uma sequência inicial ao som de “Psycho Killer” dos Talking Heads, com uma dança tão estranha que até me fez pensar que se calhar este não ia ser só mais um filme cliché em que um homem morto volta à vida com melhoramentos. Só que isso foi antes dos créditos iniciais e tudo o que se seguiu não trouxe nada de novo. É uma história em loop, que a determinado momento parece começar a arrastar-se, apenas para no terceiro ato ganhar uma velocidade que faz com que pareça que estamos a jogar algo como o Injustice ou o Tekken, quando fazemos o típico ataque final (daqueles em que a personagem vai buscar um truque debaixo da manga, sabem?) que deixa o adversário K.O. De facto, é um filme sobre vinganças, como tantos outros. Apenas com a diferença de termos Vin Diesel a interpretar um “super-herói”. 


O melhor são alguns efeitos visuais, mas só mesmo alguns, porque outros são manhosos – nomeadamente numa sequência de ação, em que vemos o protagonista a atacar um grupo de homens em carrinhas. Aqui pareceu-me que havia um grande exagero nos efeitos, quase como se existissem luzes coloridas a apontar em excesso e também demasiadas sequências em câmara lenta, que pareciam parar as coreografias de luta, talvez para desviar algumas falhas. Outro momento torna-se no oposto, com uma coloração mais suave, onde Eiza González, que interpreta KT (uma parceira de Garrison), é acompanhada pelas luzes à medida que caminha, também em câmara lenta, e acende duas chamas. Isto até nos deixa a acreditar que havia capacidade e sabedoria para que o filme fosse melhor do que é. 

Por fim, resta-me apenas dizer que – e, atenção, espero, honestamente, que não seja imaginação da minha cabeça – por vários momentos parece que o filme foi dobrado. E mal! Para confirmar estas suspeitas, teria de o ver novamente, o que não duvido que vá acontecer. Por isso deixo aqui em nota… Lá perto do final, numa sequência em que o protagonista entra para o carro, vejam lá se ele não fala sem abrir a boca! 


Dito tudo isto, não posso considerar que esta foi uma das piores experiências que tive este ano numa sala de cinema. Acho que podia ter sido melhor se me tivesse feito acompanhar por um pacote de pipocas, porque Bloodshot é somente isso: puro entretenimento. Não devemos pensar muito enquanto o estamos a ver, até porque muitas vezes parece nem haver justificações possíveis para algumas observações feitas pelas personagens. Há ação, um Vin Diesel com poderes e uma história mal contada, mas fácil de entender pela sua simplicidade.

4/10
SOBRE A AUTORA

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas tenho E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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