quinta-feira, 12 de março de 2020

"Guns Akimbo" em análise

Certamente recordam-se de, há uns meses, ter estalado na Internet uma fotografia de Daniel Radcliffe, o eterno Harry Potter, vestido só com boxers, um robe, pantufas com garras e com duas pistolas em punho, com uma total expressão de maníaco. Ora, toda essa figura bizarra era parte da caracterização do protagonista de Guns Akimbo, filme realizado por Jason Lei Howden, que chegou na semana passada às salas de cinema nacionais. 


Radcliffe interpreta Miles, um programador de jogos solitário, que ainda mantém uma certa amizade com a sua ex-namorada, mas que vê a sua vida a afundar-se num oceano de comodismo, preguiça e insucesso. Certo dia, no entanto, visita o polémico jogo Skizm, que no dicionário urbano significa caótico – palavra que o descreve totalmente. Este é um jogo que vai para além do mundo virtual, passando para o real, onde os jogadores competem até à morte, em troca de alguns (poucos) benefícios. Por erro, Miles vê-se metido nesse jogo e começa a ser perseguido por assassinos, incluindo Nix, uma mulher completamente louca que procura vingança, mas que não perde a oportunidade de subir uns níveis no Skizm

Filmes sobre “videojogos no mundo real” não são propriamente uma ideia original, mas Guns Akimbo consegue fazê-lo de um modo excêntrico e um pouco diferente daquilo a que estamos habituados. Essa excentricidade fica, essencialmente, marcada pelo trabalho de câmara, com planos giratórios capazes de nos deixar zonzos – recomendação: não vejam este filme depois de uma almoçarada de domingo – ou grandes planos que focam as imperfeições e cicatrizes das personagens, tornando-as nojentas, acentuando, assim, o lado repugnante deste jogo inventado. Este sentimento de sujidade, por assim dizer, é destacado também nos figurinos desleixados – veja-se o caso de Miles, que saiu de casa à pressa, só de roupa interior, que a determinada altura fica suja –, sangue seco – o protagonista aqui sai-se vencedor, depois da “obra de arte” que fazem nas suas mãos – e, nos cenários, com sacos de lixo espalhados continuamente pelas ruas, por exemplo. 


A história, infelizmente, cai muitas vezes em clichés e o argumento não foi suficientemente trabalhado ao ponto de se tornar num filme memorável. Posso dizer que alguns momentos têm a sua graça, porém depois temos também diálogos e observações que parecem existir apenas com um intuito: encher chouriços num argumento que vive só pelas suas sequências de ação, que, por sua vez, também parecem fúteis. Claro que temos alguns truques debaixo da manga, mas nada capaz de deixar o espectador surpreendido, pois entende-se desde início o rumo que a trama pretende seguir e qual será o destino dos protagonistas. 

Daniel Radcliffe já representou em vários géneros, mas este é capaz de ser uma novidade na sua carreira. Distanciou-se muito do jovem feiticeiro da cicatriz, mas este papel nunca lhe dará tantos louros, não por estar mal interpretado, mas porque Samara Weaving rouba todas as atenções cada vez que entra em cena, com a sua eloquência e capacidade de se transformar por completo nesta Nix poderosa e extrovertida. Enquanto dupla, porém, simplesmente não resultam, pois os diálogos existentes entre ambos não permitem estabelecer essa ligação de “arqui-inimigos”/“compinchas”, parecendo que alguns dos seus momentos juntos são simplesmente forçados, com exceção de um ou outro. 


O veredicto final é que Guns Akimbo até consegue ser original em alguns aspetos, mas parece querer ser um filme mais pesado e chocante do que na verdade é. Há aqui muita coisa que devia ter sido melhor trabalhada, de modo a seguir uma linha narrativa mais coerente. Mas talvez o que se pretenda é mesmo conquistar a desordem, com um filme onde reina o anarquismo e apenas vemos um público a assistir ansioso por mais mortos, quase como se tivessem num torneio de… Sei lá… League of Legends, ou assim. Só que esse não causa mortes reais.

5/10
SOBRE A AUTORA

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas tenho E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

2 comentários:

  1. Fiquei bastante curiosa quando vi as primeiras imagens deste filme. Mas, agora, estou um pouco reticente em vê-lo :/

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