segunda-feira, 23 de março de 2020

Leitura: "Find Me" de André Aciman

Depois do sucesso de Call Me By Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome na nossa tradução), rapidamente começou a falar-se da possibilidade de uma sequela, o que levou a vários rumores de que esta podia abordar os protagonistas numa fase mais adulta. Ora, o filme foi confirmado, com Luca Guadagnino novamente na realização e com Timothée Chalamet e Armie Hammer também a regressarem à pele de Elio e Oliver. Depois, também André Aciman regressou à escrita e lançou Find Me (Encontra-me na edição da Editora Clube do Autor), a tão “aguardada” sequela, que possivelmente servirá de base ao próximo filme, que é sobre o que falamos hoje. Atenção, o que se segue está repleto de spoilers… 


Foi com grandes expectativas que comecei a ler o livro em Dezembro, na versão original, pois a portuguesa ainda não tinha sido lançada. Saber como correu a vida de Elio e Oliver depois do final agridoce de Chama-me Pelo Teu Nome foi algo que me deixou com uma certa curiosidade… E por isso senti alguma inquietação quando comecei a ler o livro e percebi que se calhar não ia ser bem o que eu estava à espera. 

Find Me divide-se em quatro partes, dedicando-se não só a Elio e Oliver, mas também ao pai de Elio. Ao contrário do primeiro livro, que assume apenas a perspetiva de Elio, aqui começamos por ter a de Mr. Perlman, depois a de Elio, a de Oliver e no final outra vez a de Elio. No primeiro capítulo, Mr. Perlman conhece uma rapariga muito mais jovem, quando viaja para se encontrar com o filho. Ao perguntar à rapariga porque está triste, Mr. Perlman começa uma aventura inesperada na sua vida, depois de se ter divorciado da mãe de Elio. A rapariga acaba por convidá-lo a juntar-se a ela numa visita à casa do seu pai e num abrir e fechar de olhos temos os dois a viver um romance em pleno. Por sua vez, Elio é-nos apresentado também em clima de romance com um homem muito mais velho, que nem sempre parece entendê-lo. E Oliver, que entretanto era casado com uma mulher, regressa num convívio com dois amigos, um homem e uma mulher, que são descritos como sendo suas “crushes”. Então, e o capítulo final? Cai no maior dos erros, que é juntar Elio e Oliver, passados vários anos. 

Da Capo, que pode significar “repetir do princípio” em termos musicais, apresenta isso mesmo: Elio e Oliver juntos novamente em Itália. Depois, outro erro é a maneira como Aciman apresenta o desconhecido, com explicações que pretendem ser bombásticas. Elio e Oliver estão com a mãe de Elio e, entretanto, Mr. Perlman morre, mas parece que a mulher do comboio também mora por ali, assim como o pequeno Ollie, filho de Mr. Perlman e da mulher, que, de acordo com Elio, é como se tivesse sido apenas um plano do pai para que este e Oliver tivessem um filho. Confuso? Nem por isso… Nas palavras do próprio: “The child was our child. The two of us knew it”. O que me leva seriamente a pensar se a escrita do livro se preocupa com mais alguém para além destes dois protagonistas, pois não se notou assim tanta ligação entre Elio e a mãe do pequeno Ollie nos capítulos em que estes interagem ao ponto de no final a criança ser tomada como um filho. 


Isto são muitos spoilers, eu bem sei, daí o aviso no início, mas apenas porque não consigo conter a frustração que senti ao ler Find Me. Claro que a escrita muito descritiva de Aciman continua a soar poética, no entanto senti que muitos dos acontecimentos do livro são simplesmente fúteis. Ao lermos este livro não sentimos a essência das personagens, como foram descritas em Call Me By Your Name. Parecem totalmente diferentes e nota-se que não é por terem crescido, mas sim porque o autor tem apenas o objetivo de juntar Elio e Oliver, num final que soa simplesmente apressado e mal contado, talvez até cliché e preguiçoso. O melhor do livro é somente o facto de estabelecer paralelismos. Por exemplo, ao longo dos capítulos em que estão separados, Elio e Oliver têm memórias recorrentes um do outro e, neste aspeto, é interessante vermos a influência que aquele romance quase utópico teve na vida de ambos. 

Neste momento, resta-me acreditar que a adaptação cinematográfica, que neste momento ainda nem tem um título confirmado, se distancie desta história – o que me parece difícil de acontecer. Este Find Me partiu todas as pontes que Call Me By Your Name tinha deixado pendentes e seguiu um rumo narrativo que, acredito, vai desapontar muitos fãs do livro anterior.
SOBRE A AUTORA

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

3 comentários:

  1. Ainda não li o livro anterior, mas tenho ambos na minha lista!

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  2. Opa que pena!!! Adorei o primeiro livro, de facto este parece-me ser super confuso e um bocado desinteressante, talvez...

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