terça-feira, 3 de março de 2020

"O Homem Invisível" em análise

Finalmente um filme de terror mais que decente este ano. Desde Fantasy Island até a The Boy - A Maldição de Brahms… o cinema do terror tem estado muito aquém das expectativas. É normal, tendo em conta a altura do ano, pois é especificamente uma em que as distribuidoras aproveitam para lançar a maior parte do lixo que têm nas prateleiras dos seus estúdios para ver se fazem algum tipo de dinheiro para renderem com o que investiram. Mas, o problema que suscitava por trás de The Invisible Man não é a época em que este é lançado, mas sim a maneira como a Universal tem tratado as suas propriedades cinematográficas, mais especificamente as dos monstros dos anos 30-50 que dominaram o cinema da época, fazem sequelas atrás de sequelas, e até crossovers. Estes tiveram a ideia de voltar a fazer algo semelhante, mas na onda da Marvel, sendo que The Mummy seria apenas o começo desse novo Universo. Mas esse fracassou, e deixou o Dark Universe em standby por tempo indefinido… até surgirem notícias de que estavam a fazer um remake de The Invisible Man (1933), que deixou algumas pessoas com medo que fosse apenas mais um cash grab que estava destinado a falhar tão gravemente como o Mummy. Mas este não é um filme qualquer: este parece que foi tratado como uma produção indie, ou havia pouco orçamento, elenco pouco conhecido e um realizador que ainda estava no “início” da sua carreira, mas já tinha feito um nome de si próprio.


E, quem diria, acima de tudo, que uma das mentes por detrás de Saw (2004) – sim, pois este não é apenas do James Wan – ainda está muito capaz de escrever um argumento original e, agora, realizá-lo, tornando-se também uma das melhores mentes que aí andam secretamente por Hollywood? Leigh Whannell continua a mostrar a sua força não só como argumentista – visto que nesta parte já estava mais que visto que este é capaz de fazer muito com o material que lhe é dado, ou dele mesmo – mas também como realizador, provando que Upgrade (2018) não foi um mero acaso, mas sim uma evolução na sua personalidade como cineasta. Este traz muitos dos estilos de câmara que foram expostas nas cenas mais dinâmicas de Upgrade de volta em algumas das cenas deste filme, mas traz também uma mais suave e tranquila, uma mais suspensa, digamos. Aproveita todas as oportunidades que tem para não só mostrar as personagens e as suas aflições, mas também consegue desviar a câmara para aquilo que as rodeia, focando-se lá se calhar até mais tempo que nas próprias personagens, o que nos deixa a pensar se estamos a ver exatamente aquilo que é suposto, ou se está ali algo a mais que não conseguimos detetar? É como se tivesse a intenção de mostrar mais, mas ao mesmo tempo está a mostrar menos, e isso foi muito esperto da sua parte. 

Elisabeth Moss, que interpreta a protagonista Cecilia Kass, está devastadora no papel, mostrando que é uma das melhores atrizes, e das mais versáteis a trabalhar hoje, vendendo por completo uma personagem que, para nós, é sã, mas que ao mesmo tempo tem de passar por maluca por achar que está constantemente a ser vigiada, e o trabalho especial de câmara que acima mencionei ajuda a fazer-nos sentir da mesma maneira. Em muitas das suas cenas, também tem de representar como se tivesse a reagir a algo que é invisível – no shit, Sherlock – e mesmo aí ela faz um excelente trabalho. 


O elenco secundário faz também um trabalho notável na sua representação, e as químicas entre as personagens que envolvem a vida de Kass estão muito bem desenvolvidas, enquanto que as outras que tiveram de lidar com a do ex de Kass, incluindo a mesma, tiveram de nos fazer acreditar o quão má esta personagem era, o quão controladora e esperta era capaz de ser, levando-nos a crer que era capaz de tudo para fazer sofrer quem lhe fizesse frente.

A história, tendo em conta o conceito, faz de todos os possíveis para fugir aos habituais clichés do género, e Whannell certificar-se que, se vai fazer algum, que faça um valer a pena. Evita fazer jumpscares e deixa a história desenrolar-se da melhor forma possível, sem que esta seja interrompida por momentos de sustos desnecessários. Mas, às vezes, esta pede-nos para desligarmos os nossos cérebros de maneira a não questionar vários acontecimentos. Agora quase toda a gente tem uma câmara à mão, ou até muitos dos locais públicos têm uma grande vigilância de câmaras o que permite detetar muitos problemas. No mundo estabelecido de O Homem Invisível é exatamente a mesma coisa, visto que até há várias cenas filmadas do ponto de vista de câmaras de filmar seja de casas ou locais públicos, o que nos deixa a pensar que se as pessoas fossem rever as filmagens de certos momentos, o filme poderia acabar mais cedo. Mas, estando tão entretido e em suspense com o filme, é fácil de deixar passar este nitpick


The Invisible Man não está preocupado em trazer várias outras figuras já estabelecidas de outros universos para a tela, e está muito menos interessado em qualquer um desses aspectos, e é algo que o The Mummy deveria ter feito. Incrivelmente realizado por Whannell, com interpretações muito boas, e em específico a de Moss, e uma cinematografia que nos deixa em transe com as personagens – e, em prática, graças a banda sonora de Benjamin Wallfisch também –, é um filme de suspense, daqueles que eu já sentia saudades de ver no cinema. Aconselho a ver especificamente no melhor formato sonoro possível, pois o sound design e mixing aqui estão do melhor, e são elementos chave para muitas cenas do filme. 

8/10
SOBRE O AUTOR

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

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