domingo, 1 de março de 2020

"O Lago dos Gansos Selvagens" em análise

O Lago dos Gansos Selvagens é a nova longa-metragem de Diao Yinan, realizador de Carvão Negro, Gelo Fino (2014), o vencedor do Urso de Ouro da 64.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Por sua vez, este novo filme, protagonizado por Ge Hu e Lun-Mei Kwi (que já tinha trabalhado com Yinan anteriormente), esteve em competição para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes no ano passado. 


A história começa por apresentar duas personagens: Zhou Zenong e Liu Aiai. Zenong é um criminoso que faz parte de um gang que rouba motas; depois de uma rixa acaba por matar um polícia, tornando-se um alvo para os seus rivais – que têm uma recompensa de 300.000 yuan pela sua captura – e para as autoridades. Liu Aiai é uma “beldade” (uma espécie de prostituta) que é contratada pelos parceiros de Zenong para encontrar a sua mulher e o filho, mas o destino faz com que tenha de ajudar o homem na sua fuga. 

A narrativa dá-se num modo alternado. Inicialmente, vemos um primeiro encontro entre estes dois protagonistas, numa estação. Nesse momento, Zenong já se encontra ferido e Liu explica-lhe que está ali no lugar da sua mulher, pois esta não tinha conseguido ir. Imediatamente, sente-se uma cumplicidade entre ambos, com o homem a dar lume à mulher para acender um cigarro. Depois temos várias sequências com flashbacks, que vão explicando o que se está a passar, mas nem sempre é fácil de seguir o rumo da narrativa, pois por várias vezes vão aparecendo personagens que não são fáceis de identificar. 


Alguns flashbacks trazem momentos curiosos, como é o caso de um passado na base de um hotel, em que o gang recebe uma breve aula de como lidar com motas e depois discute sobre que rotas cada homem vai ter para fazer roubos. Aqui não há um acordo entre eles, o que leva a uma grande violência e mais tarde a vinganças, que nem sempre são apresentadas de um modo esperado, surpreendendo o espectador.

Visualmente, existem sequências com muita qualidade, que demonstram ao máximo o seu estilo neo-noir. Existe uma cena passada num mercado que está repleta de luzes néon, que lembram outros clássicos do género, como por exemplo alguns filmes de Nicolas Winding Refn. Infelizmente, parece não haver um equilíbrio entre a qualidade da estética e a do argumento, que peca por ser vago. Em determinados momentos é difícil entender as motivações das personagens e sente-se que os diálogos são demasiado simples e parecem não ter muito significado, o que é pena. 


Admito que estava à espera de algo com mais suspense, mas O Lago dos Gansos Selvagens consegue entregar momentos de ação muito bem coreografados – algumas vezes muito violentos – e apresenta uma estética interessante. Lamento que o argumento não tenha sido mais bem explorado e também que a banda sonora não tenha marcado mais presença, pois quando o filme se inicia esta é ressonante, mas depois apaga-se quase por completo e seria um ponto a favor na criação de um ambiente mais pesado. Dito isto, não deixa de valer a pena verem esta longa-metragem, pois no geral destaca-se pelas boas prestações e pelas suas personagens enigmáticas.

7/10
SOBRE A AUTORA

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas tenho E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

2 comentários:

  1. Gostei muito do Carvão Negro, Gelo Fino, por isso tenho curiosidade em ver este. Talvez no fim de semana.

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