quarta-feira, 4 de março de 2020

Serviço de quarto, por favor? "4 Quartos" (1995)

O filme sobre o qual vou falar hoje passou há uma semana no AXN, pelo que se forem a correr talvez ainda o consigam ver na vossa box! Ora, refiro-me a 4 Quartos, de 1995, que junta quatro realizadores distintos e apresenta quatro histórias separadas que têm apenas duas coisas em comum: passam-se no mesmo hotel e estão conectadas pela personagem principal!


Protagonizado por Tim Roth, num papel memorável, 4 Quartos apresenta-nos o mesquinho “Ted the Bellhop” no seu primeiro dia de trabalho neste hotel (que calha na véspera de ano novo), onde parece ser a única pessoa disponível para atender os hóspedes numa noite que promete muito caos! 

O primeiro segmento, intitulado “The Missing Ingredient”, leva-nos para a Suite da Lua de Mel e apresenta-nos uma assembleia de bruxas, prontas para fazer um ritual que trará de volta a sua adorada Deusa Diana, depois de esta ter sofrido um feitiço há quarenta anos, naquele mesmo quarto. Para criar a poção que reverte o feitiço, cada uma das bruxas precisa de levar um ingrediente, mas uma delas falha nessa temível tarefa e vai precisar de recorrer a Ted para conseguir concretizá-la. Por poucas palavras, para pouco revelar, posso acrescentar que Ted terá uma das noites mais loucas e prazerosas da sua vida! E no final, as bruxas conseguem realizar o seu ritual.


Este segmento realizado por Allison Anders é uma espécie de comédia erótica. É provocador e apresenta um grupo de mulher destemidas, mas meio loucas, todas elas com personalidades diferentes – o que é essencialmente notável pelo modo como falam e também pelo vestuário de cada – entre as quais se inclui uma interpretada por Madonna. 

Este segmento termina com Ted a ser chamado até ao quarto 404, depois de um erro do hóspede ao confundir o número, o que leva ao segundo segmento, intitulado “The Wrong Man”, escrito e realizado por Alexandre Rockwell. Aqui Ted vê-se metido no meio de uma fantasia, que envolve um casal. O marido acusa Ted de ter dormido com a sua mulher, e este vê-se obrigado a participar nesta loucura sexual, de modo a conseguir sair ileso daquele quarto. Este é talvez o segmento mais fraco do filme, pois dá a sensação de que Rockwell queria torná-lo mais obsceno e provocador do que aquilo que consegue ser, sendo até difícil de acompanhar as intenções do realizador em alguns momentos, nomeadamente na sequência em que temos um bebé a chorar. 


O problema de 4 Quartos é que pode ser facilmente dividido em duas metades, sendo uma delas má e outra boa. E é aqui que começa a melhor e aquela parte que certamente todos os que viram o filme recordam. Os dois últimos segmentos são pura comédia e aprofundam ainda mais o quão estranha esta noite de Ted está a ser. 

O terceiro segmento leva-nos até ao quarto 309, onde somos apresentados a um casal (protagonizado por Antonio Banderas e Tamlyn Tomita), que vai a uma festa, deixando Ted encarregue de cuidar dos seus filhos, Juancho e Sarah. Ted é pago para desempenhar esta tarefa e as crianças têm noção disso, por isso fazem-lhe a vida negra, virando o quarto de pernas para o ar. Só que, para piorar a noite, encontram um cadáver debaixo do colchão da cama! Quando chamam Ted, este pensa que é só mais uma partida dos miúdos, mas ao perceber que estão a falar a sério acaba por contribuir para um maior caos naquele quarto. “The Misbehavers” termina com os pais a entrar num quarto literalmente em chamas. Robert Rodriguez dá assim um forte contributo ao filme, entregando um pequeno conto gótico e excêntrico. A realização permite que cada um dos atores, essencialmente os mais pequenos, brilhe à sua maneira, com grandes planos que captam as suas reações, entregando um resultado que é pura comédia. 


O último segmento, “The Man from Hollywood”, é escrito e realizado por Quentin Tarantino, que é, sem dúvida, o nome mais apelativo e famoso neste grupo de quatro realizadores. Aquilo que apresenta neste segmento é a cereja no topo do bolo, com a noite de Ted a dar uma volta de 360º e a terminar em grande, inesperadamente.

Neste segmento temos o regresso de Angela, a mulher do segundo segmento, que, apesar de não ter muita relevância, contribui para mais uma ligação entre os contos. Aqui quem mais importa é Chester Rush, interpretado pelo próprio Tarantino, e Norman (Paul Calderon): os dois homens fazem uma aposta, para a qual precisarão da ajuda de Ted. Se Norman perder, Ted corta-lhe o dedo mindinho e ganha uma pequena recompensa. Mais não digo, o melhor é ver. Para melhorar, este conto conta ainda com uma breve participação de Bruce Willis, que é uma espécie de cameo, pois nem chega a aparecer nos créditos finais. 


Apesar de dar a sensação de que a qualidade dos contos não está bem equilibrada, este 4 Quartos consegue levar a umas boas gargalhadas, especialmente devido à performance de Tim Roth, nesta personagem repleta de tiques e com uma grande dose de ganância. É um filme diferente, pois apresenta quatro cenários distintos e totalmente originais, que permitiram a cada um dos realizadores apresentar as suas próprias ideias num filme feito em conjunto, cujos únicos elementos comuns são o espaço e o protagonista.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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