terça-feira, 17 de março de 2020

"The Outsider" - Temporada em análise

Anteriormente, já aqui falámos sobre o livro e também sobre os dois primeiros episódios, mas hoje falamos sobre a temporada completa de The Outsider da HBO, a série baseada na obra homónima de Stephen King, que terminou na segunda-feira da semana passada, ao fim de dez episódios que foram realizados por pessoas diferentes. Esta é, então, mais uma sugestão nossa para estes dias de isolamento social! Atenção, este artigo pode conter spoilers.


Como referi na minha análise dos dois primeiros episódios, ambos com realização a cargo de Jason Bateman, que também veste a pele de Terry Maitland, numa interpretação que vai buscar muitos dos jeitos da personagem descritos no livro, esta série prometia! Os dois primeiros episódios mantiveram-se muito fiéis à obra literária, com a diferença de que tudo ocorre com uma maior rapidez – o que passou a ser regra na série. Em cerca de duas horas foi apresentada uma boa porção do livro, que, por curiosidade, corresponde ao melhor: o início de uma investigação mais aprofundada. No livro é tudo descrito ao mais ínfimo pormenor; na série foram feitas escolhas e apenas temos o essencial, que é perfeitamente normal. Foram dois episódios ricos em informação, mas esta foi apresentada de um modo pouco complexo, permitindo que tudo seja fluído, mas sempre coerente e nunca deixando pistas importantes para trás. 

Estes dois episódios para além de apresentarem a premissa da história também introduziram as suas personagens, nomeadamente o agente Ralph Anderson, interpretado por Ben Mendelsohn, que é um dos principais centros de atenção. O outro lado da balança só é apresentado alguns episódios depois. Refiro-me a Holly Gibney, personagem popular no universo de Stephen King, pois anteriormente já foi mencionada em Mr. Mercedes. Aqui é protagonizada por Cynthia Erivo, que se distancia tanto no que toca à aparência como psicologicamente daquilo que é descrito no livro. Ainda assim, esta mudança não é preocupante, pois Erivo consegue criar a sua Holly Gibney e apresentar uma prestação sólida, que muitas vezes sustenta o lado mais emotivo da série. 


Contrariamente ao que achei dos dois primeiros episódios, os restantes assumiram um pacing mais lento, dando tempo para que o caso se desenrole com naturalidade e para que o espectador assista às alterações provocadas pelo “vilão” El Cuco, à medida que este vai assombrando mais pessoas e também entrando na vida dos protagonistas, que resolvem este caso. Neste sentido, tenho de dizer que senti falta de mais alguma dinâmica, mas este é o fator que me deixou um pouco de pé atrás com a segunda parte do livro, que me pareceu apressada. A série permitiu-se a resolver tudo com mais calma, o que implicou deixar para trás aspetos importantes da obra literária. 

Admito que dez episódios a este ritmo parece pouco para contar esta história e talvez seja esse o motivo que levou a uma alteração do final, que permitiu lançar uma corda para uma segunda temporada. Não sei se será necessário e preocupa-me o que poderão fazer com mais episódios, tendo em conta a cena pós-créditos no episódio final. No entanto, é de admirar uma afirmação de Holly: “um forasteiro conhece um forasteiro” (“an outsider knows an outsider”). Talvez isto signifique que a série não decidiu simplificar as coisas e está a entrar por caminhos mais sobrenaturais, tendo em conta que Holly, que anteriormente disse que não ouvia música, regressa depois dos créditos a ouvir música (uma que Ralph tinha mencionado) e com um arranhão no braço (que, ao longo da série, significou que o El Cuco tinha feito uma nova vítima). 


The Outsider revelou-se, para mim, uma série agridoce. Teve momentos que realmente apreciei, mas outros ficaram muito aquém das expectativas criadas depois da leitura de O Intruso. Não digo que as alterações feitas são más, porque não foram de todo. Algumas opções no argumento foram bem escolhidas e o mapeamento do que era importante dar a conhecer ao espectador também foi bem pensado. No final, claro, restam dúvidas, mas o mesmo acontece depois da leitura do livro, somente porque não temos a capacidade de ficar a conhecer tudo aquilo que vai muito além daquilo em que acreditamos.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

2 comentários:

  1. Li o livro e gostei muito. Ainda não vi a série, mas conto vê-la brevemente. Achei giro o termo "El Cuco", pois como penso que sabem o Cuco é um pássaro que usurpa os ninhos dos outros pássaros, colocando os seus ovos em ninhos alheios. Achei um termo adequado para o "usurpador". Abraços.

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    1. Stephen King pensa em tudo, não é verdade? Obrigada por mais uma visita, caro João!

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