segunda-feira, 2 de março de 2020

Uma humilde e sincera opinião sobre "O Gato" (2003)

Lembro-me tão bem de ir ver o Sinbad (2003), a nova animação da DreamWorks, num dia imensamente chuvoso em Lisboa, no velho Lusomundo das Amoreiras. Lembro-me até do pequeno folheto que tinham dado na entrada onde era para encontrar as diferenças entre dois frames do filme (sabem, daqueles onde a foto é a mesma mas tem uma coisa a mais ou a menos?). Eram excelentes tempos, mas infelizmente também tinha de esperar (talvez até mais tempo que agora) para que o filme saísse em VHS para o poder rever vezes e vezes até não conseguir contar pelos dedos. Chegou finalmente esse dia, onde o meu pai volta do Videorama, o nosso velho clube de vídeo, com a cassete do filme. Fiquei tão excitado que fui a correr roubar-lhe a mesma para a colocar de imediato no meu VCR. Não foi o caso, acabou por se colocar na sala para se ver enquanto se jantava. VHS inserida, que comecem os anúncios. Nada de peculiar ao início; Shrek 2 e assim a serem anunciados, pois estariam em breve no cinema. Mas… havia um diferente. Começava todo em branco, com uma música bastante empolgante, e, do vazio, aparecia uma cartola, que parecia ter vida própria, fazendo coisas trapalhonas durante os trinta segundos do anúncio. E, como que por magia, invés de sair um coelho da mesma (tipo abracabra), saiu de lá um gato gigante. Essa imagem ficou para sempre afixada com um post-it na minha cabeça, e iria trazer-me alguns pesadelos durante a noite.


Sim, o filme de que vos irei falar aqui hoje originalmente dava pesadelos a este vosso pobre e humilde narrador. Mas todo o mal também vem com o seu bem: pouco tempo mais tarde, numa visita mensal ao Continente, havia também a habitual procura de uma VHS nova para trazer para casa. Foi então que dei de caras com o pesadelo: O Gato estava à minha frente e pronto para ser levado para casa. Penso que até tenha feito a habitual birra com choro incluído pelo meio para a poder trazer para casa (quem nunca?). E foi ao chegar a casa e ter visto o filme – lutando contra o medo, de certo modo – que tudo mudou, não só para mim, mas também para muitos cá em casa, visto que eu fui só um dos peões que o filme comeu, sendo mais tarde o meu irmão a sua última vítima.

É difícil dizer isto, mas… o filme é uma obra-prima, é cinema no seu extremo e no seu melhor, é tudo o que qualquer realizador desejaria criar e trazer para o ecrã para que todas as famílias e aliens possam ver e deliciar-se com cada milésimo de segundo que esta obra de arte tem para trazer aos olhos e mentes de cada um de nós, é como se todos os artistas desde Picasso, a Van Gogh e DaVinci tivessem uma voz única que fosse transmitida milagrosamente para a tela e nunca mais poderia voltar a ser recriada de tal pura e incrível maneira. Este filme é a coisa mais perfeita à face da terra, e podia muito bem ser considerada uma das maravilhas do mundo. Aliás, não, do universo inteiro! Não me admira, sendo assim, que um filme que fale de tantas maneiras e formas universais seja distribuído pela Universal.


Comecemos por falar da sublime realização de Bo Welch, que é apenas complementada pelo melhor cinematógrafo latino que alguma vez poderíamos ter: Emmanuel Lubezki, irreconhecível por filmes como Birdman, The Revenant, Children of Men, Tree of Life, e outras muitas coisas pretensiosas que ninguém quer saber ou ver, pois estamos aqui para falar d'O Gato (da Cartola), o melhor filme já feito na história do cinema. Cada frame do filme parece ter vida própria, como se o som e matéria tentassem sair do ecrã de mil e uma maneiras para mostrar o quando perfeito aquele mundo é. Desde o céu perfeitamente azul, as casas e carros completamente originais e únicos, as cores verdes e roxas vivas e brilhantes que nada enjoam à primeira vista (como o amor), têm todo o seu esplendor amplificado graças ao trabalho excelente de Lubezki, e da visão de Bo, que tornam este mundo vibrante e um em que qualquer pessoa gostaria de viver. Que se lixem os one takes, façamos vários cortes e coloquem efeitos especiais completamente necessários na maior parte das cenas dos filmes, é isso que deviam tomar em especial consideração quando analisam aprofundadamente este filme. Sim, os efeitos especiais deste filme são melhores que qualquer filme do raio da saga estúpida de Star Wars ou até aquela obra prima sem história ou argumento de Kubrick, onde só estes efeitos especiais tiveram mais história de criação e sentido que o raio daquele final idiota. Pessoas ficam a queixar-se todos os anos que muita gente não ganha, ou está sequer nomeada aos Óscares, mas então e estes dois génios que não tiveram qualquer tipo de reconhecimento? Deixem-me dizer-vos, é inadmissível! Incompreensível!


E as representações? Deixem já dizer o quão excitado estou por estar aqui quase a meio desta segunda página de palavreado que deveria ser banhado em ouro e guardado para sempre no Pentágono: estou tão excitado! Adiante, tal como a cidade está cheia de cor, movimento e, claro, com sinais claros de vida, as personagens também têm isso tudo! Desde Conrad à Sally, interpretada pela já irreconhecível Dakota Fanning – que, mais que claramente, deve a sua fama a este filme. Alec Baldwin, o “vilão” que está a fazer de tudo para ficar sozinho com a querida Kelly Preston – quem, no seu bom senso, não gostaria? –, apesar de esta aparecer, infelizmente, muito pouco na tela, mas, quando está, ela até brilha – dá uma interpretação de uma vida. Sente-se todo o seu poder e intimidade em qualquer das cenas em que está presente, especialmente quando este tira o seu vestuário de maneira a intimidar a audiência com o seu poder de força bruta. É de louvar o trabalho levado a cabo por este ator que, desde este filme, não tem feito mais nada senão cameos em filmes anti-racistas realizados pelo Spike Lee… Deve estar a tentar voltar a ficar importante, desde que a Team America lhe deu com os pés o ano seguinte – e até aí o louvavam como o melhor ator de todos os tempos, tudo graças a este pequeno clássico indie que toda a gente viu no cinema. Mas, com cada vilão há o seu oposto. Ou seja, obviamente, o herói, que não é o lindo peixe completamente realista e detalhado ao pormenor que está focado no centro da capa. Mas, sim, aquele a quem este cobre de alergias, o que o faz correr a sete pés sempre que surge: O Gato da Cartola, que, supostamente deveria rimar, mas, como Mike Myers é um method actor que prefere improvisar, tornar o papel seu, e de que maneira. Mike Myers coloca o Grinch de Jim Carrey num canto onde nunca mais foi retocado – basta ter em conta que o mesmo foi substituído por Cumberbatch na animação lançada há pouco tempo pelos mesmos idiotas que ainda fazem filmes com piadas com bananas –, numa interpretação que não poderá ser topada por ninguém e mais ninguém senão ele próprio. É com ele que rimos, choramos, e ouvimos as piadas que só os nossos pais deveriam entender na altura enquanto nós ainda mal sabíamos soletrar – isto para quem vê a versão inglesa, claro, pois aqui vê-se sempre a dobrada, que é sempre a melhor, por ser a única opção possível na VHS. Mike Myers trouxe tanto para esta personagem que não me custa nada dizer que esta interpretação é melhor que qualquer uma que o Daniel Day Lewis ou até a Meryl Streep tenham feito. Não têm qualquer tipo de emoção pura, que entretenha e deixe as crianças e graúdos a rir e a chorar de alegria, como esta de Myers. E, acredito, do fundo do meu coração, que muitas crianças ficaram mais encorajadas após ver o filme, tendo compreendido todas as suas lições e temáticas mais facilmente, que a ler o livro em que este filme se baseia. O longo leque de personagens memoráveis não acaba só aí, claro. Não se pode esquecer da melhor ama seca alguma vez colocada no ecrã, tal como a Coisa 1 e a Coisa 2, sendo uma delas interpretada pelo Homer Simpson. Agora, qual das Coisas é que não vos digo, procurem no Google, ganhem conhecimento!


Outro pormenor extremamente importante que é sempre um tópico que se devia tocar neste filme não é o cameo da Paris Hilton, que apenas é a cereja no topo do bolo, mas sim a sua banda sonora, que é apenas rivalizada com a banda sonora do Shrek. A diferença é que uma delas tem músicas dos Smash Mouth, enquanto o outro termina com uma música dos The Beatles interpretada pelos próprios Smash Mouth! Ah, pois! Arranjem lá financiamento para um combo melhor que esse! E claro, há sempre tempo para outros clássicos como a “Easy” dos The Commodores, que apenas torna a experiência sonoramente mais profunda.

Já estou na terceira página do Word, escrita em Calibri com tamanho 11. Para mim, isto é novidade. A sensação que tive a escrever esta aprofundada análise de uma das maiores obras cinematográficas alguma vez feitas foi uma que já não sentia há mais de cinco anos. The Cat in the Hat é um filme desigual, é uma experiência que fica em todos nós após a primeira visualização. É como olhar para o amor das nossas vidas, mas sem saber que o é. É um filme que faz inveja a qualquer realizador ou produtora sempre que é mencionado em mesas de reunião, pois têm medo que este os pise. Este é o tipo de filme que faz com que Christopher Nolan e Terrence Malick tenham pesadelos durante anos. Mas é o tipo de filme que deixa uma impressão numa criança: uma impressão que durará uma vida inteira, e saltará de gerações em gerações, ao contrário de filmes que injustamente ganham os Óscares só para parecerem politicamente corretos numa época específica que não terá relevância no futuro próximo. Terá sempre relevância, e deveria ser amado e venerado por todos nós, vivos ou mortos, animados ou inanimados, ensinando-nos a viver em paz e harmonia, especialmente em família. É algo que não pode ser visto nem lido em mais nenhum lado, muito menos é possível descrever aquilo que está a acontecer à frente dos nossos narizes. É impossível não considerar este filme a essência e sentido de toda uma vida, especialmente a sua, caro leitor, pois este filme é bem capaz de salvar a sua vida, senão até a sua alma. É um filme que transcende o espaço e o tempo, da mesma maneira que o Interstellar diz que o amor é capaz de o fazer, apenas para ter uma resolução “significativa”, enquanto aqui é algo mais que figurativo, é presencial, e sente-se nos nossos pequenos corações, que crescem depois de repetidas visualizações. The Cat in the Hat é uma obra quintessencial, tá dito. *drops mic*.



P.S.: É impossível para mim falar mal deste filme, pelo que este significa para mim, e sei que também significa para muitos outros, seja por memes ou por pura nostalgia – que é o meu caso –, por isso, para uma crítica mais “realista” do filme e menos exagerada, é favor ler o oposto do que vos é dito, sabem, como no filme do qual acabaram de ler a análise. Se viram o mesmo, acredito que até o tenham feito, tornando este P.S. totalmente desnecessário e estupidamente longo. É aqui então que o vosso querido narrador vos deixa, mas com uma rima, em honra do Dr. Seuss, só para o deixar orgulhoso desta obra inspiradora que ele, infelizmente, nunca teve hipótese de ver na Terra, mas, espero, ter visto no céu: 

   O Gato é amor, 
   O Gato é vida
   Para isto não é preciso tradutor, 
   Pois é a lei da vida.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

4 comentários:

  1. Do que tu me foste lembrar, Diogo. Durante anos vivi traumatizado com este filme e agora que já o tinha esquecido chegou este post para me recordar da sua existência! Dito isto, são notáveis as marcas que o Gato da Cartola deixou em mim, mas ainda assim gostei de ler este teu artigo, que considero um dos mais divertidos que por aqui li. Obrigado pela leitura e continuação de uma boa semana para ti!

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    1. Senti-me mesmo inspirado. Deve ser para compensar todas as outras análises que já podia ter feito mas não sinto a necessidade de fazer. Mas, com O Gato a história é diferente... O que me torna uma espécie de testemunha de Jeová que quer espalhar a palavra do nosso senhor Gato da Cartola!

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    2. Se fosse para ouvir a palavra do Gato da Cartola, eu abria sempre a porta de casa aos domingos!

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