terça-feira, 21 de abril de 2020

"A Canção do Mar" (2014) a rebobinar

O filme sobre o qual hoje vou falar é um daqueles que instantaneamente têm o poder de nos aconchegar o coração. Passou recentemente no canal RTP2, pelo que é uma boa oportunidade para escrever sobre ele, até porque também está disponível na plataforma de streaming HBO. Refiro-me a A Canção do Mar (2014), uma animação realizada por Tomm Moore, que anteriormente já tinha apresentado The Secret of Kells (2009) e que também é o co-fundador do Cartoon Saloon, um estúdio de animação em Kikenny, na Irlanda. 


Esta longa-metragem é baseada nas “selkies”, criaturas da mitologia do folclore irlandês que vivem como focas no mar, mas que em terra se tornam humanas. O argumento apresenta-nos Ben, um rapazinho que vive com os pais num farol e que sempre ouviu a sua mãe contar histórias fantásticas. Esta está grávida e Ben promete que quando a irmã nascer vão ser muito amigos. Depois de dar à luz Searsha (ou, no nome original, Saoirse), a mãe desaparece, o que deixa Ben magoado e com um certo ódio pela irmã, culpando-a pela sua perda. No entanto, as histórias encantadas podem tornar-se reais e Searsha começa a revelar-se fundamental para a sobrevivência de outras criaturas mágicas. 

Com um estilo de animação mais tradicional, na maioria composto por ilustrações feitas à mão com recurso a aguarelas, mas também com algumas técnicas digitais, onde prevalecem as formas geométricas em harmonia com linhas mais onduladas – sempre com grandes detalhes –, sente-se que parece que estamos perante um livro ilustrado que ganhou vida. O seu visual é rico, mas, felizmente, a história também o é, assim como a banda sonora. 


Ainda que o seu público-alvo talvez sejam as crianças, este filme tem o poder de conquistar também os adultos, ao mostrar não apenas o ponto de vista dos dois pequenos protagonistas, mas também dos seus pais, tornando-se ideal para toda a família, ainda que em alguns momentos assuma um tom mais pesado – os mais sensíveis vão, certamente, emocionar-se em várias partes, pois temas como a perda e a morte são aqui abordados. 

Ao longo de toda a narrativa, sente-se uma magia única, muitas vezes destacada não só pelo que estamos a ver, mas também pelo que ouvimos, numa transcendente composição de Bruno Coulais em colaboração com a banda de folk irlandesa Kila. Numa determinada sequência, e sem querer revelar muito mais sobre o argumento do filme, temos a pequena Searsha a cantar, com uma voz tão angelical que quase nos sentimos hipnotizados, como se esta nos lançasse um convite para mergulhar nas águas do mar com as outras “focas” que a rodeiam. Inevitavelmente, aceitaríamos o convite, tal é o encanto desta cena. 


Os estilos de animação contemporâneos apresentam-se cada vez mais realistas em termos de feições, 3D e rápidos, com movimentos quase humanos. A Canção do Mar é diferente. Tem um ritmo mais lento e uma animação mais pitoresca, como aqueles filmes que víamos em criança, o que nos traz uma nostalgia imensa, resultando não só numa experiência cinematográfica única, mas também num maravilhoso avivar de memórias dos nossos tempos de rebentos.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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