sexta-feira, 17 de abril de 2020

"Matthias & Maxime" em análise

Xavier Dolan está de regresso à realização com Matthias & Maxime, que não poderia ter chegado numa pior altura. Com data de estreia anteriormente marcada para o dia 19 de Março, acabou por ser adiado, ainda sem data definida. De facto, este é um dos filmes que estão a sofrer nesta altura, mas, ainda assim, esperamos que quando estrear tenha o sucesso merecido. Protagonizado pelo próprio realizador e por Gabriel D’Almeida Freitas, o argumento acompanha um grupo de amigos e os seus dramas, nomeadamente focando-se nas suas incertezas e receios. 


Matthias e Maxime, amigos desde infância, são convidados a participar numa curta-metragem, numa cena em que têm de se beijar. Até então, nenhum dos dois tinha tido problemas com a sua orientação sexual, mas depois deste simples beijo encenado começam a ser assombrados pela incerteza, que aos poucos vai pondo a sua amizade em causa, mas revelando indícios de algo mais.

Xavier Dolan já é experiente na realização e sabe como trazer as emoções ao de cima, através de ângulos e planos que as façam sobressair. Acredito que comandou bem os operadores de câmara, que parecem estar em pura harmonia com o seu argumento. Os movimentos de câmara espontâneos permitem a captação de todas as emoções dos personagens. Numa dada sequência, por exemplo, temos Matthias em desespero a ir nadar para o lago perto da casa onde o grupo de amigos se encontra. A dinâmica da captação dos planos e a rapidez com que a câmara o rodeia e persegue as suas ações levam o espectador, imediatamente, a sentir o seu desespero, quase como se o seu próprio coração estivesse a sentir-se claustrofóbico, levando a um ataque de pânico. Nesta parte em concreto, também se destaca a cinematografia a cargo de André Turpin.


À medida que a narrativa decorre, sentimos um ambiente de grande amizade neste grupo. A introdução nos minutos iniciais apresenta todas as personagens, mas só superficialmente: ficamos a conhecer o estilo de vida de alguns, mas se calhar nunca nos vamos lembrar do nome de outros ao longo do filme. Neste aspeto, acaba por sentir-se que talvez haja personagens em demasia. Entende-se que o objetivo é mesmo enaltecer que existem ali amizades de longa-data, mas muitas personagens secundárias tornam-se quase descartáveis – a “namorada” de Maxime, por exemplo, e um ou outro amigo.

A banda sonora, composta por Jean-Michel Blais, funciona quase como a câmara na medida em que tem a função de acompanhar os pensamentos dos personagens. Em determinados momentos é melancólica e nostálgica, noutros é gritante. Depois temos também músicas Pop que se fazem soar. Recordo-me bem de uma sequência em que Matthias está num carro com os amigos a cantar a música “J’ai cherché” de Amir, a olhar muito fixamente para Maxime, quase como uma dedicatória da letra.


Este pode não ser um filme excecional, mas sabe trabalhar bem o seu tema e consegue manter o público ansioso para ver determinadas ocorrências, pois mantém alguns momentos em segredo, apenas na nossa imaginação. Por enquanto, não sabemos quando vai chegar às salas de cinema, mas fica, desde já, aqui em formato de sugestão para quando estiver em cartaz – nessa altura, informamos!

7/10

Atualização (2020.06.18): Matthias & Maxime chegou hoje às salas de cinema e estará em exibição no Cinema Ideal, Cinema da Villa e Cinema Trindade. 
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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