segunda-feira, 20 de abril de 2020

"Monos" em análise

A par da atual pandemia, a distribuidora de obras ousadas Cinema Bold disponibilizou um catálogo de filmes que iam estrear nos cinemas mas que vão chegar mais cedo às nossas casas através do videoclube da televisão e de plataformas online como a Filmin. A obra que talvez melhor se destaca é o poderoso Monos, que chegará no dia 23 de Abril. Com um argumento sem igual, esta é uma aventura que nos leva para o meio do caos da anarquia. 


Somos levados para o cume de uma montanha, algures na América Latina, onde um grupo de adolescentes faz treinos militares rigorosos, enquanto vigiam uma prisioneira americana e uma vaca leiteira recrutada pela soberana Organização, uma força que parece ter algum impacto na vida dos jovens e que, de uma certa maneira, os controla. 

O argumento do realizador Alejandro Landes e de Alexis dos Santos permite que o espectador fique a conhecer individualmente cada um dos membros do grupo, estabelecendo desde cedo o modo como lidam com a situação que estão a viver. Todos apresentam personalidades diferentes, que nem sempre condizem com os nomes de guerra que lhes são atribuídos – o exemplo mais claro é o de Rambo, uma rapariga que não concorda com as decisões tomadas e que cada vez mais se distancia dos restantes membros do grupo. 

Existem sequências de violência exacerbada, nomeadamente perante a prisioneira americana, a quem chamam de Doutora. Nem sempre entendemos os motivos, o que parece ser um dos objetivos e um exemplo de como um grupo de adolescentes isolado da sociedade poderia viver com armamento de guerrilha, que é usado de modo excêntrico e livre. 


É no meio deste cenário caótico que temos também sinais de paz vindos das paisagens apresentadas numa cinematografia que nos faz sentir pequenos. Quase que nos imaginamos a gritar e a ouvir o eco em determinados momentos em que as personagens aparecem quase como sombras no canto do ecrã enquanto tudo o resto é paisagem, maioritariamente em tons frios. 

De resto, destaca-se a dinâmica do filme, que parece ser todo ele feito num ritmo acelerado, que combina com a sequência inicial onde temos cada uma das personagens a ser um foco enquanto correm sem sair do sítio. As sequências no rio, por exemplo, deixam-nos com o coração aos saltos por causa da tensão vivida. Também nos momentos de destaque da Doutora sentimos uma certa claustrofobia e receio pela sua personagem, essencialmente porque não sabemos bem o motivo pelo qual ela está ali naquele sítio a sofrer às mãos daqueles jovens revoltados. 


Monos é uma experiência única. Um daqueles filmes que se calhar começamos a ver sem grandes expectativas, mas que no final nos deixam inquietos e pensativos, a refletir sobre tudo o que acábamos de ver. Repleto de grandes interpretações – num elenco que não tem nomes muito conhecidos, mas que mostra que consegue brilhar –, com um trabalho de fotografia sublime e com um argumento diferente… Este é um filme que vale a pena ver e que nos deixa uma marca.

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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